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Noite dos Cristais Quebrados: O ponto de partida do Holocausto

Há 80 anos, nazistas saíam às ruas em rumo a um massacre organizado contra judeus. Era o início de um dos capítulos mais trágicos da História

Thiago Lincolins Publicado em 09/11/2018, às 12h00

Nas ruas, o rastro dos nazistas
Wikimedia Commons

Era manhã do dia 7 de novembro de 1938 quando Herschel Grünspan, um judeu de 17 anos, comprou um revólver e saiu em direção à embaixada alemã. Chegando ao local, pediu para ser levado à sala de Ernst vom Rath, um secretário de legação. O rapaz não pensou duas vezes antes de sacar seu revólver e atingir Ernst com cinco balas. Com o estômago perfurado por duas delas, Rath foi levado ao hospital às pressas.

Assim como outros judeus, a família de Grünspan havia sido expulsa da Alemanha no final de outubro. De lá, deveriam ser enviados para a Polônia, mas, como não foram aceitos, seus pais e a sua irmã passaram semanas vivendo na fronteira em condições precárias. O rapaz, possivelmente revoltado com a trágica situação, queria encontrar um modo de vingar ou chamar atenção para o caso. Mas não funcionou.

Usando o atentado como justificativa, o Terceiro Reich proibiu crianças judias de frequentar escolas alemãs, suspendeu atividades culturais, e revistas e jornais foram retirados de circulação. Para agravar a situação, Vom Rath não sobreviveu. No dia 9 de novembro a sua morte foi anunciada, e uma onda de ira popular varreu a Alemanha em represália ao assassinato.

Lojas destruídas Reprodução

Adolf Hitler não se manifestou diretamente sobre o episódio. Entretanto, Joseph Goebbels, ministro de Propaganda do Partido Nazista, realizou um discurso em que pedia vingança pela morte de Ernst. Na mesma noite, as unidades da Sturmabteilung (SA, algo como “Destacamento Tempestade”), organização paramilitar ligada ao Partido que funcionava como uma milícia, interpretaram o discurso como uma ordem e iniciaram um pogrom – linchamento em massa – contra os judeus.

Sete mil e quinhentas lojas tiveram suas fachadas de vidro destruídas pelos nazistas – daí o nome “Noite dos Cristais Quebrados” –, 1.400 sinagogas foram alvo de ataques, e residências foram roubadas. Até lápides de cemitérios foram arrancadas. O caos tomou as ruas da Alemanha. Aos gritos, judeus eram cruelmente espancados. Cem deles perderam a vida durante o linchamento. Em seguida, 30 mil seriam levados para campos de concentração, administrados pela SS.

Uma sinagoga em chamas Reprodução

O rescaldo foi tão insólito quanto o pogrom. Os nazistas afirmaram que o linchamento não foi organizado e que os semitas provocaram o povo. As vítimas foram impedidas de receber os pagamentos de seguro. No dia 12 de novembro, durante uma reunião, os judeus alemães receberam uma multa coletiva de 1 bilhão de marcos (US$ 5 bilhões, no dólar atual) pela morte de Vom Rath. A Noite dos Cristais Quebrados serviu para acelerar o processo de produção de uma "raça" ideal, um capítulo que a Alemanha lamenta até hoje.