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Nove meses à deriva: os traumas de Jesús Vidaña, o caçador de tubarões

Uma jornada rotineira para caçar os predadores do oceano terminou em grande sofrimento em águas atrozes

Vanessa Centamori Publicado em 06/07/2020, às 15h59

Jesús Vidaña
Jesús Vidaña - Divulgação/Youtube/Programa Primer Impacto

Era das águas, mais precisamente, da caça aos tubarões, que Jesús Vidaña tirava o seu sustento, na costa de San Blas, México. Em um dia de rotina ele saiu com sua embarcação do porto mexicano local, justamente com o objetivo de caçar os predadores marinhos. 

O homem estava na companhia de um funcionário chamado Juan; do proprietário do barco; e seus parceiros de pesca, Salvador Ordonez e Lucio Rendon. A jornada deles começaria em 28 de outubro de 2005. Seria somente mais uma das expedições dos pescadores — só que acabou sendo uma odisseia assustadora de 8 mil quilômetros. 

Contratempo

Após caçarem tubarões no trajeto desejado, pelas águas mexicanas, algo inesperado ocorreu. Os navegantes se viram à mercê dos ventos e da maré, quando uma corrente impiedosa de mais de 7 metros mudou a direção do barco.

Não havia mais combustível o suficiente para voltar pela nova rota, imposta pelas ondas atrozes. Eles estavam à deriva. E assim permaneceriam por 9 meses, já que não existia também outra escolha, senão enfrentarem o que estava pela frente. 

Dia após dia, os caçadores de tubarões viram a terra firme ficando cada vez mais longe. O pior foi quando os suprimentos se esgotaram e a fome apertou. Sem abrigo a bordo da embarcação, eles tiveram que se proteger do sol utilizando cobertores. 

Então, começaram a fazer o que sabiam melhor: pescar. Criaram linhas novas com cabos e ganchos do motor do barco para fisgar peixes e se alimentarem. Bebiam água da chuva, evitando que ficassem desidratados ao ponto de morrerem.

Nessa altura, seus familiares acreditavam que os pescadores estavam mortos. Mas, eles ainda lutavam bravamente pela vida. Alimentavam-se do que conseguiam. "Comemos gaivotas, patos e peixes crus. Comemos tudo cru - qualquer peixe que chegasse perto do barco, o pegávamos e o engolíamos", contou mais tarde Jesús Vidaña, ao canal local Televisa. 

Os náufragos que eram caçadores de tubarões /Crédito: Divulgação/Youtube/Programa Primer Impacto

 

Tragédia 

Chegou um momento em que lutar contra a morte foi um fracasso. Jesús, assim como seus companheiros mais chegados, Salvador e Lucio, tiveram sorte. Por outro lado, faleceram na jornada o dono do barco e o outro funcionário, que foram a óbito entre janeiro e fevereiro de 2006. Os dois teriam se negado a comer peixes crus e sofreram de inanição. 

A tristeza e o luto certamente abateram Jesús e os outros sobreviventes restantes. Os corpos dos falecidos foram jogados ao mar e orações foram feitas em homenagem aos mortos. Não bastasse o desespero, por duas vezes, ondas quase arrastaram os tripulantes vivos para as profundezas.

Eles pensaram então que também iriam morrer em breve. Enquanto esperavam a chegada da morte, revezaram-se na leitura da Bíblia. Além disso, ignoraram o sofrimento, tentando se manterem positivos de certa forma, cantando, dançando e tocando um violão, que estava dentro da embarcação. 

(Da esq. pra dir.): O trio de náufragos Salvador Ordonez, Jesús Vidaña e Lucio Rendon /Crédito: Divulgação/Youtube/Programa Primer Impacto

 

Sonho ou realidade?

Foram vários meses sem avistar um navio sequer. Os amigos estavam magros, queimados e esfomeados. Já era agosto, portanto fazia mais de 9 meses desde que o trio estava nessa situação desesperadora. Um cardume de atum taiwanês acabou trazendo o barco próximo às Ilhas Marshall. 

Por lá, eles viram alguns navios, mas passaram várias vezes despercebidos. "Quando notávamos que eles não tinham nos visto e seguiam o caminho, ficávamos tristes", lembrou Vidaña, à mídia local. "Às vezes chorávamos, mas depois esquecíamos e começávamos a conversar novamente".

Até que teve um dia esse cenário de angústia mudou. Dentro de uma embarcação pesqueira asiática estava Eugene Muller, gerente da Koo's Fishing Co Ltd, que foi quem finalmente avistou os homens à deriva. Na ocasião, os marinheiros dormiam quando o navio estrangeiro se aproximou.

Mas, logo acordaram, devido ao barulho do motor. Sonolentos, a visão parecia um sonho, porém era realidade — o resgate tinha finalmente chegado. Os três pescadores, ainda debilitados, foram socorridos e sobreviveram.

Jesús Vidaña era pai de uma menina recém-nascida, que ele ainda não tinha conhecido antes de sair para caçar tubarões. Agora de volta pra casa, o mexicano teria uma história de pescador fenomenal para contar quando a criança crescesse um pouco mais.


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