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'Núcleo demoníaco': A saga de Louis Slotin, físico que morreu ao desenvolver uma arma nuclear

O projeto acabou sendo o seu último após dar terrivelmente errado, recebendo o apelido acima

Ingredi Brunato Publicado em 06/01/2021, às 09h17

Fotografia de Louis Slotin
Fotografia de Louis Slotin - Wikimedia Commons

O físico canadense Louis Slotin era um dos maiores especialistas em manuseio de plutônio de sua época. Todavia, nem toda experiência com o elemento químico de propriedades radioativas impediu que o pesquisador sofresse o que ficou conhecido como uma “queimadura de sol tridimensional”. 

Seu estado era tão assustador quanto o nome anunciava - o suficiente para levar à sua morte em apenas nove dias. Tudo que bastou foi um único acidente, durante um experimento que pretendia desenvolver uma arma nuclear. 

Projeto Manhattan 

Vale dizer que a fatalidade que levou à morte de Slotin ocorreu em 1946, portanto, após o fim da Segunda Guerra Mundial e no início da Guerra Fria. Naquele ponto, as bombas atômicas já haviam sido criadas.

O próprio Louis havia participado do desenvolvimento das armas de destruição em massa que foram despejadas sobre Hiroshima e Nagasaki, e era justamente desses trabalhos anteriores que vinha parte de sua experiência com radioatividade. 

Da esquerda para a direita, Slotin e seu colega Herb Lehr ao lado da primeira bomba nuclear, então apenas parcialmente montada / Crédito: Divulgação/ Laboratório Nacional de Los Alamos 

 

Arma nuclear

A nova arma nuclear no qual o físico estava trabalhando se chamava Fosso de Radioatividade, e dependia de uma série de procedimentos manuais que precisavam ser precisos e delicados ao mesmo tempo. Fora isso, eram simples do ponto de vista químico. 

Em uma tarde, Slotin estava fazendo uma demonstração do funcionamento do dispositivo. Na hora que se preparava para posicionar uma chave de fenda, o item deslizou de seus dedos - foi o que bastou.

A ferramenta caiu no Fosso de Radioatividade, e uma luz azul forte varreu o laboratório durante o que foi descrito como “décimos de segundo”, segundo o relato posterior de Raemer Schreiber, um dos colegas de Louis. Em 2016, o The New Yorker divulgou suas palavras em uma reportagem sobre o assunto. 

O físico conduzindo o experimento teria reagido rapidamente, de acordo com seu colega, mas seus reflexos não puderam impedir a pequena explosão de radioatividade que se espalhou por toda a área próxima ao dispositivo.  

Fotografai do Fosso de Radiação / Crédito: Divulgação/ Laboratório Nacional de Los Alamos 

 

A morte 

O principal afetado pelo acidente, evidentemente, foi o próprio Slotin, que era o mais próximo do Fosso de Radioatividade. Ele vomitou várias vezes naquele dia no hospital, mas na manhã seguinte já parecia estável. 

As aparências se mostraram enganosas, todavia. Sua mão que segurava a chave de fenda no momento do deslize passou de dormente, para dolorida, para então azulada e com bolhas enormes. 

O cientista, afinal, havia recebido uma dose de radioatividade mais de quatro vezes maior que aquela considerada letal para humanos, e logo passou a ter os sintomas da Síndrome de Radiação Aguda. 

Em cinco dias, seus leucócitos (células sanguíneas que realizam a defesa do organismo contra corpos estranhos) haviam diminuído drasticamente, e logo sua temperatura corporal se tornou instável. 

Louis sofreu também com náuseas e dores abdominais causadas pelas queimaduras internas que havia sofrido. No sétimo dia, ele sentia desorientação mental, e seus lábios começaram a ficar azuis. Então, o físico entrou em coma, e não muito depois veio a falecer, aos 35 anos de idade. 

O fosso 

Nove meses mais tarde, a arma nuclear em que Slotin estava trabalhando fez outra vítima, o cientista Harry Daghlian Jr, ganhando mais tarde o apelido de 'núcleo demoníaco'.

Não houve mais testes realizados com o Fosso de Radiação, cujo desenvolvimento acabou sendo abandonado. O que restava do dispositivo do derretido para a confecção de outra arma.