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Matérias / Bomba nuclear

'Núcleo do Demônio': A terceira bomba atômica que quase atingiu o Japão

Rufus, como era chamada, era semelhante à bomba que caiu em Nagasaki

Éric Moreira, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 25/06/2022, às 13h00

Recreação do experimento de Louis Slotin no 'Núcleo do Demônio' - Foto por Richard G. Hewlett pelo Wikimedia Commons
Recreação do experimento de Louis Slotin no 'Núcleo do Demônio' - Foto por Richard G. Hewlett pelo Wikimedia Commons

Nos dias 6 e 9 de agosto de 1945, os Estados Unidos foram responsáveis pelos ataques mais mortais da história da humanidade: lançou sobre o Japão duas bombas atômias, nas cidades de Hiroshima e de Nagasaki. As explosões resultaram em um número de cerca de 200 mil pessoas mortas e fizeram o Japão desistir de lutar na Segunda Guerra. 

A primeira bomba lançada, que caiu sobre a cidade de Hiroshima, era conhecida como 'Little Boy' e fazia uso de urânio-235 em sua composição como elemento radioativo. Já a segunda bomba, de Nagasaki — apelidada de 'Fat Man' —, era mais perigosa, poderosa e eficiente: fazia uso de plutônio-239, elemento menos estável.

No entanto, caso as duas bombas não fossem suficientes, os EUA estavam preparados para o lançamento de uma terceira, apelidada de Rufus. Esta terceira "era essencialmente igual ao núcleo da Fat Man", como dito pelo historiador especializado em armas nucleares, Alex Wellerstein, à BBC Mundo.

Felizmente, a Rufus nunca chegou a se tornar uma bomba funcional de fato, mas chegou a ser responsável por dois graves acidentes no Laboratório Nacional de Los Alamos, no estado estadunidense do Novo México. No caso, os cientistas começaram a fazer uso do núcleo de plutônio, que seria utilizado na bomba, para a realização de experimentos arriscados.

Laboratório Nacional de Los Alamos, Novo México
Laboratório Nacional de Los Alamos, Novo México, EUA / Foto por United States Department of Energy pelo Wikimedia Commons

O dragão

O que os cientistas de Los Alamos queriam com o núcleo da Rufus era descobrir o ponto limite em que o plutônio se tornava supercrítico — ponto em que uma reação em cadeia do plutônio causava uma explosão — e encontrar maneiras de otimizar e tornar a bomba mais eficiente.

Manipular um núcleo de plutônio demanda altíssima delicadeza, o que fazia com que alguns pesquisadores se referissem ao exercício como se fosse igual a "fazer cócegas na cauda de um dragão".

Eles sabiam que, se tivessem o azar de acordar a besta furiosa, acabariam queimados", escreveu o jornalista Peter Dockrill em artigo para a Science Alert.

Primeira vítima

O físico estadunidense Harry Daghlian foi quem se tornou a primeira vítima da Rufus. O homem de 24 anos, que já havia trabalhado no Projeto Manhattan — responsável pelo desenvolvimento das duas primeiras bombas atômicas — começou, em agosto de 1945, a tentar desenvolver um 'refletor de nêutrons', que teria como função levar o núcleo com mais eficácia ao ponto crítico.

Em seu experimento, ele começou a construir uma pilha de blocos de carboneto de tungstênio ao redor do núcleo, e quando havia terminado de colocar o último, um dispositivo de monitoramento foi acionado e apontou que a Rufus poderia entrar em ponto crítico. Ao tentar remover o bloco, o físico acidentalmente o deixou cair, o que o expôs a uma dose altíssima de radiação gama.

Após cerca de 25 dias, Daghlian morreu no hospital, com uma dose estimada de 510 rem — medida utilizada para calcular a quantidade de radiação absorvida por uma pessoa — de radiação. Vale ressaltar que uma quantidade equivalente a 500 rem já é considerada letal.

Louis Slotin

Apenas nove meses após o acidente com Harry Daghlian, outro episódio ocorreu nos laboratórios em Los Alamos, dessa vez com o físico Louis Slotin — que era considerado, na época, o maior especialista em manuseio de quantidades perigosas de plutônio. Em maio de 1946, ele estava apenas reproduzindo um experimento que já havia feito antes.

Junto a um grupo de colegas, o físico estava tentando levar a Rufus ao ponto supercrítico ao unir duas metades de uma esfera de berílio, formando uma cúpula. Para o experimento, porém, era essencial que as duas metades não se encostassem de forma a cobrir totalmente o núcleo.

Recriação do experimento de Slotin
Recriação do experimento de Slotin / Foto por Richard G. Hewlett pelo Wikimedia Commons

Para que as duas metades da esfera não se encostassem, por sua vez, Slotin usou uma chave de fenda como separador, que servia como válvula de escape para os nêutrons. No entanto, a única coisa que não poderia acontecer, aconteceu: a ferramenta escorregou e as duas metades se uniram.

Por um instante breve, um brilho azul intenso dominou toda a sala em que os cientistas estavam. "Bem, isso é tudo" foram as primeiras palavras de Slotin após isso. Após nove dias ele morreu, com fortes náuseas e dores, com uma estimativa de que tenha recebido 2100 rem de nêutrons.

Por conta dos acidentes, o núcleo da Rufus passou a ser conhecido como 'Demon Core' ('Núcleo do Demônio', em português), e a partir de então novas regras foram estabelecidas para manuseio de material radioativo. De acordo com os arquivos de Los Alamos, o "núcleo do demônio" foi derretido no verão de 1946 e usado para fazer uma nova arma.