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O cancelamento de Wilson Simonal, acusado de ser dedo-duro da ditadura de 1964

Conflito envolvendo sequestro e tortura de seu ex-contador levou o famoso astro a ser rejeitado nos anos 70

Redação Publicado em 07/04/2020, às 17h34

Wilson Simonal
Wilson Simonal - Wikimedia Commons

Wilson Simonal fez muito sucesso como cantor na década de 1960. Para se ter uma ideia, nessa época, 30 mil pessoas cantaram loucamente em coro "Meu Limão, Meu Limoeiro", no estádio do Maracanãzinho, Rio de Janeiro, durante um dueto de Simonal com a cantora de Jazz Sarah Vaughan. 

Mas no começo da década de 1970 toda a fama do cantor foi por água abaixo, e no lugar do sucesso, sobrou apenas o ostracismo. Tudo começou em 1971, quando o nome Wilson Simonal chegou às manchetes dos jornais de forma negativa. Na ocasião, ele foi acusado de sequestro por um dos seus ex-contadores. 

Wilson Simonal e seu sósia, em 1969 / Crédito: Domínio Público

 

Impasses financeiros 

Meses antes da inesquecível acusação, a empresa do astro, a Simonal Produções Artísticas, estava fazendo um balanço anual, em setembro de 1970. Pelo volume de contas não pagas, Simonal desconfiou que alguma coisa estava errada e ordenou que seu funcionário, Ruy Brizolla, investigasse a situação.

No dia 24 de setembro, Brizolla chamou um amigo seu de São Paulo, Raphael Viviani, que passou a ajudar nas finanças da empresa. Viviani logo percebeu que a situação estava péssima. Gastos lançados na conta da Simonal Produções tinham relação com os amigos do cantor Wilson Simonal, que faziam saques diretamente da conta da empresa. 

Elizeth Cardoso e Wilson Simonal, 1966 / Crédito: Domínio Público 

 

Para combater essa situação e ter mais dinheiro, o astro da música decidiu renegociar o contrato que havia assinado com a Rede Globo para participar do Festival Internacional da Canção de 1970. No entanto, durante uma discussão, os dois diretores do canal se negaram a rever os contratos.

O cantor ficou contrariado e ameaçou não participar do festival. Após o caso sobre a discussão vir à público, a emissora de televisão decidiu retirar Wilson Simonal de toda a sua grade de programas.

Com tudo dando errado, Simonal começou a desmontar a estrutura da Simonal Produções. Ele suspeitava de todos seus funcionários e rompeu com Brizolla e Viviani. O contador foi demitido em maio de 1971, sob a justificativa de incompetência profissional.

O cantor Wilson Simonal / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Escândalo envolvendo o DOPS  

Raphael Viviani entrou com uma ação trabalhista contra Simonal. Como o cantor acreditava que o contador havia cometido desfalques na Simonal Produções, para resolver a questão de uma vez por todas, a estrela da música teria recorrido à ajuda de policiais que eram agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). 

Os agentes do órgão de repressão da ditadura teriam feito parte de uma história inventada, que estava em uma declaração assinada por Wilson Simonal. No documento, o cantor dizia que estava sendo ameaçado via telefone pelo seu ex-contador, Viviani.

Tortura e sequestro

Dirigindo o próprio opala de Wilson Simonal, os policiais Hugo Corrêa de Mattos e Sérgio Andrade Guedes foram até a casa de Viviani e o pediram que confessasse o desfalque com o cantor. O ex-contator negou qualquer atitude desviante e foi levado para a sede do DOPS, onde foi torturado por várias horas. 

Após receber ameaças contra a sua família, Viviani assinou uma declaração confessando supostas irregularidades. Enquanto isso, quando se passava quase 20 horas do desaparecimento do ex-contador, a esposa do homem prestou queixa de sequestro, contando que os dois homens do DOPS foram até sua casa, a pedido de Simonal. 

O homem sequestrado foi encontrado e passou por um exame de corpo de delito. Foi confirmado que ele sofreu tortura e Wilson Simonal foi obrigado a depor. Em resposta, ele reforçou os fatos da declaração que havia assinado. 

Wilson Simonal em 1972 / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Quando o inquérito policial foi finalizado, em 21 de julho de 1972, Wilson Simonal foi acusado pelo crime de extorsão mediante sequestro. Em 11 de novembro de 1974, o cantor foi condenado e preso. Mas ele passou apenas nove dias na cadeia até que os três desembargadores da 3ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro concedessem um habeas corpus para soltá-lo.

Dois anos depois, em 03 de julho de 1976, Simonal e outros dois policiais acusados tiveram o crime reclassificado. Em vez da acusação ser extorsão mediante sequestro, ela foi alterada para constrangimento ilegal. A pena caiu então de cinco anos e quatro meses para somente seis meses. No fim do ano, o astro da música, já estava livre do encarceramento. 

Carreira destruída

A acusação de extorsão mediante sequestro levou a carreira de Simonal ladeira abaixo. Ele passou a ser considerado uma persona non grata nas telinhas e se tornou um alcóolatra. Foi sendo esquecido pela mídia e pelos antigos fãs brasileiros. 

Após o episódio envolvendo seu ex-contador, Wilson Simonal foi sempre considerado um informante do SNI (Serviço Nacional de Informações). Daí foi um pulo para que ele passasse a ser acusado de entregar diversos colegas da classe artística para os militares. 

Os shows de Simonal não eram mais anunciados, nem seus discos comentados. Ninguém o entrevistava. Ele morreu aos 62 anos de idade, vítima de cirrose hepática, em 25 de junho do ano 2000, quando ainda reclamava do esquecimento a que foi condenado.

O ator Fabrício Oliveira revivndo o músico Wilson Simonal, no filme Simonal / Crédito: Divulgação 

 

A reputação póstuma de Simonal tentou ser melhorada pelos filhos do músico, Wilson Simoninha e Max de Castro, que colaboraram em duas biografias, um musical e um documentário sobre o pai. Em 2019, foi lançado o filme Simonal, cinebiografia que foca no talento do músico e não em sua relação com o DOPS. 

Dirigida por Leonardo Domingues, a obra cinematográfica defende que o racismo piorou as reações acerca do sequestro de Raphael Viviani. Também afirma que é "fake news" os boatos que circularam depois do episódio, sobre os quais o cantor teria denunciado seus colegas músicos aos militares. Essa tese, no entanto, jamais foi refutada ou comprovada e ainda é motivo de controvérsia. 


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