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Desigualdade, corrupção e crueldade: o cangaço de Lampião a partir da poética de Graciliano Ramos

Com um humor ácido e uma descrição romântica, o autor narrou o estilo de vida e as injustiças no sertão nordestino na década de 1930

Pamela Malva Publicado em 26/01/2020, às 10h00

Bando de Virgínio Fortunato da Silva, o Moderno, em 1936
Bando de Virgínio Fortunato da Silva, o Moderno, em 1936 - Wikimedia Commons

A escrita de Graciliano Ramos é conhecida por transformar até o menor grão de areia em pura poesia. Muitas vezes usando do humor, da zombaria e da ironia, o autor transpôs gerações, narrando diversos cenários e histórias.

Em várias de suas produções, Graciliano deu seu melhor ponto de vista sobre o cangaço da década de 1930 e a vida no sertão nordestino — um dos maiores exemplos, claro, é Vidas Secas. Foi pensando nisso que dois entusiastas da vida do autor tiveram uma ideia.

Em 2014, Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla organizaram o livro Cangaços, composto por diversos textos de Graciliano em torno do tema. Nele, é possível perceber como o romancista enxergava os bandoleiros e seu estilo de vida.

Através dos textos, Graciliano se demonstrava indignado com a influência da desigualdade, da corrupção e da crueldade presentes no sertão nordestino — coisas que ele sentiu na própria pele, quando foi preso durante dez meses, aos 43 anos, pela polícia de Vargas, em 1936.

Bando de Lampião junto do fotógrafo Benjamin Abrahão Botto / Crédito: Wikimedia Commons

 

Quase humanista, Graciliano tirou um tempo para descrever Lampião e sua ferocidade. Em texto publicado na revista Novidade, de Maceió, em 1931, o autor narra que o Rei do Cangaço nasceu muito antes, em todos os estados do Nordeste.

“Não falo, está claro, no indivíduo Lampião, que não poderia nascer em muitos lugares e é pouco interessante”, escreveu. “Pela descrição publicada vemos perfeitamente que o salteador cafuzo é um herói de arribação bastante chinfrim. Zarolho, corcunda, chamboqueiro, dá impressão má. Refiro-me ao lampionismo, e nas linhas que se seguem é conveniente que o leitor veja alusões a um homem só”.

O trecho, que está presente no livro, é acompanhado de uma descrição intrínseca típica do romancista: "O que transformou Lampião em besta-fera foi a necessidade de viver”, determinou Graciliano. “Enquanto possuía um bocado de farinha e rapadura, trabalhou. Mas quando viu o alastrado e em redor dos bebedouros secos o gado mastigando ossos, quando já não havia no mato raiz de imbu ou caroço de mucunã, pôs o chapéu de couro, o patuá com orações da cabra preta, tomou o rifle e ganhou a capoeira. Lá está como bicho do mato montado."

Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião / Crédito: Wikimedia Commons

 

Enquanto, durante aquele período, Lampião e seus bandos se expandiam pelo Nordeste, conquistando, roubando e botando medo, Graciliano escrevia para a revista Novidade. Em uma de suas 24 edições, a redação publicou uma entrevista imaginária com Lampião, em 1931.

Para Ieda, a entrevista e os textos de Graciliano se aproximam de forma estilística, deixando claro que o bate-bola foi escrito pelo romancista. Segundo ela, “a preceptiva poética de que é preciso conhecer o sertão para se falar dele” presente no texto da Novidade corrobora com essa teoria.

O livro de 2014 não poderia deixar o romance de maior sucesso do autor escapar e inclui dois capítulos de Vidas Secas que falam do cangaço. Nos trechos, Graciliano narra dois cangaços distintos, um do passado, de caráter social, e outro do presente, motivado pela economia.

Bando de Lampião em Mossoró / Crédito: Wikimedia Commons

 

O romancista ainda alinha a narrativa dos textos aos chefes do cangaço, passando por Jesuíno Brilhante, Antônio Silvino, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e Cristino Gomes da Silva Cleto, o Corisco. De todos eles, apenas Silvino não foi assassinado — mas preso entre 1914 e 1937.

Na posição de jornalista, Graciliano fez o perfil de Silvino para O Jornal, do Rio, em 1938, No texto, ele descreveu: "Na catinga imensa, perseguido, queimado pela seca, Silvino teve sempre os modos de um grande senhor, muitas vezes mostrou-se generoso e caprichou em aparecer como uma espécie de cavaleiro andante, protetor dos pobres e das moças desencaminhadas”.

No romance Angústia, o autor comenta sobre o episódio em que Cirilo de Engrácia, comparsa de Lampião, foi pregado de pé em uma tábua, em 1935. O livro Cangaços traz a foto tirada no dia, junto do comentário de Graciliano: "Pensei em Cirilo de Engrácia, visto dias antes em fotografia um cangaceiro morto, amarrado a uma árvore. Parecia vivo e era medonho. O que tinha de morto eram os pés, suspensos, com os dedos quase tocando o chão”.

As cabeças de Lampião, Maria Bonita e mais dez cangaceiros em Maceió / Crédito: Wikimedia Commons

 

As mortes de Lampião e Maria Bonita também foram abrangidas na obra, com a descrição de Ricardo Ramos, filho de Graciliano, em uma das epígrafes do livro. Ele narra a cena das cabeças dos 12 cangaceiros expostas em Maceió, após a emboscada que os matou, em 1938. “Sonhos assombrados, semanas de pesadelo”, conta.

Sobre o episódio, Graciliano comentou no artigo Cabeças, publicado no Diário de Notícias do Rio de Janeiro, em outubro de 1938. Com humor e ironia, ele escreveu: "Existem pessoas demasiado sensíveis que estremecem vendo a fotografia de cabeças fora dos corpos. Essas pessoas necessitam uma explicação. Cortar cabeças nem sempre é uma barbaridade”.

Com ainda mais escárnio, o romancista continua, demonstrando sua indignação: “Cortá-las (as cabeças) no interior da África, e sem discurso, é barbaridade, naturalmente; mas na Europa, a machado e com discurso, não é barbaridade. O discurso nos aproxima da Alemanha. Claro que ainda precisamos andar um pouco para chegar lá, mas vamos progredindo, não somos bárbaros, graças a Deus".


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Os cangaceiros, de Luiz Bernardo Pericás (2010) - https://amzn.to/30SLA9O

Apagando o Lampião, de Frederico Pernambucano de Mello (2018) - https://amzn.to/2TVp7HO

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