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O caso da 'Vênus Hotentote': quando o imperialismo europeu foi longe demais

A captura e exibição ao público da mulher Saartjie Baartman, do povo khoisan do Sudoeste da África, é um choque até os dias atuais

Joseane Pereira Publicado em 01/04/2019, às 10h37

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- Reprodução

O termo "imperialismo", que caracteriza os processos de colonização ocorridos durante o século XIX sobre territórios dos continentes Africano, Asiático e Americano, é um capítulo da história humana que gerou cicatrizes em muitos povos e nações. Também conhecido como Neocolonialismo, esse processo gerou o saque e a ida de inúmeros objetos a museus europeus, como o Museu do Louvre e o Museu Britânico de Londres, e também a desestruturação política de etnias e nações. Mas os europeus não levavam apenas a cultura material dos territórios conquistados. Em muitos episódios, o que era levado para exibição em museus, praças e circos de cidades europeias eram seres humanos!

Uma das características que definem o ser humano é a curiosidade ou o desejo pelo novo. Estamos sempre em busca do desconhecido, seja em filmes, séries, viagens ou projetos. Agora, imagine viver em um mundo com fronteiras inexploradas, onde não se sabe ao certo que tipo de pessoas ou situações existem do outro lado de uma floresta ou de um braço de mar. Viver em cidades muito pequenas, em condições de trabalho precárias e consumindo conteúdos sobre seres fantásticos que surgem aos exploradores de fronteiras em suas longas viagens.

Gabinete de Curiosidades / Wikimedia Commons

Pensar assim nos ajuda a compreender o fascínio que as populações de cidades industrializadas como Londres e Paris tinham com relação aos povos do continente Africano, em meados do século XIX. Durante essa época floresciam diversos Museus pela Europa, "filhos" dos gabinetes de curiosidades dos séculos XVII e XVIII, que abrigavam coleções de fósseis, insetos e plantas, auxiliando no desenvolvimento e propagação das teorias darwinistas sobre seleção natural. Apresentações de animais considerados "exóticos" eram feitas em praça pública -- e a população citadina procurava em seus bolsos furados os centavos que possibilitassem uma saída da vida banal e precária e o encontro com o novo.

É nesse contexto que chega à Europa uma mulher, pertencente à etnia Khoisan de caçadores-coletores e pastores da África do Sul cujo território foi dominado pelos imperialistas ingleses. Mantida cativa em uma fazenda próxima à Cidade do Cabo, essa mulher, Saartjie Baartman, foi levada ao Reino Unido com a promessa de viver uma vida afastada da escravidão, não sabendo que o verdadeiro objetivo da viagem era a exibição de seu corpo em longas apresentações em cidades como Londres e Paris.

Para entender o peso do imperialismo sobre a etnia Khoisan, basta sabermos como eles foram historicamente classificados: por sua língua típica, foram chamados de "hotentotes" (ou "gagos" em neerlandês), e pelas práticas de caça e coleta foram denominados "bosquímanes" (derivação do inglês "bushman" ou homem do mato). E algo que consolidou o preconceito do olhar europeu sobre esse povo foi uma característica de algumas mulheres Khoisan: a hipertrofia das nádegas ocasionada pelo acúmulo natural de gordura na região, fenômeno conhecido hoje como esteatopigia.

"Venus Hotentote" por William Heath (1810) / Reprodução

Baartman, que ficou conhecida como "Venus Hotentote" em suas exibições pela Europa, sofreu diversos tipos de exploração contra seu corpo e seu ser, ficando designada como uma fronteira entre a mulher africana "anormal" e a mulher branca "normal". As charges de época que disseminavam sua figura procuravam ampliar as diferenças entre Baartman e as mulheres brancas europeias, em uma procura pelo fascínio, exótico e grotesco. O grande propagador dessa ideia foi o naturalista e zoologista francês Georges Cuvier, um dos principais pensadores científicos da época. Para Cuvier, os povos do continente Africano eram os "a raça humana mais degradada, cujas formas são grosseiras, e cuja inteligência não leva um governo regular". 

Caricaturas disseminadas à época / Reprodução

Quando deixou de ser novidade em Londres, Baartman passou a ser exibida para um público "sofisticado" em cafés de Paris, morrendo aos 26 anos de idade por causas ainda não entendidas pela historiografia, podendo ser resultado de pneumonia, sífilis ou alcoolismo. Seu corpo foi dissecado pelo próprio Cuvier, que lhe fez um modelo de gesso e pôs seu cérebro e órgãos genitais em frascos, que permaneceram expostos no Museu do Homem de Paris até 1974.

Quase duzentos anos após viajar para a Europa, em 1994 os restos mortais de Baartman foram levados da França para a África do Sul, repatriados pelo então presidente Nelson Mandela, e enterrados na província do território onde ela havia nascido.

Até hoje este episódio se mostra como uma das mais grotescas e exóticas realizações dos imperialistas europeus durante o longo século XIX.