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O Caso Richard Jewell: a história por trás do novo filme de Clint Eastwood

Considerado herói por ter salvado centenas de vidas no atentado ao Centennial Olympic Park, durante as Olimpíadas de Atlanta, Jewell viu sua vida mudar depois do péssimo trabalho do FBI e da mídia

Fabio Previdelli Publicado em 06/01/2020, às 17h47

Richard Jewell da ficção (esq.), interpretado por Paul Walter Hauser e Richard Jewell na vida real (dir.)
Richard Jewell da ficção (esq.), interpretado por Paul Walter Hauser e Richard Jewell na vida real (dir.) - Creative Commons

Em 1996, Richard Jewell se tornou um herói depois de identificar uma bomba em uma mochila abandonada em uma área do Centennial Olympic Park, durante as Olimpíadas de Atlanta. Indo contra a descrença dos policiais e da equipe de segurança do evento, ele iniciou o procedimento de evacuação da área, o que salvou a vida de muitas pessoas.

Jewell foi celebrado pelo ato e rapidamente ganhou os holofotes. Entretanto, uma reportagem da jornalista Kathy Scruggs para o The Atlanta Journal-Constitution colocou em cheque a real intenção de Richard. Informada por uma fonte do FBI que ele era o principal suspeito por ter plantado a bomba, Kathy publicou uma matéria relatando o fato, o que mudou a vida de Jewell e de sua mãe, Bobi, completamente.

Richard Jewell (Paul Water Hauser) sendo intrevistado após o atentado / Crédito: Divulgação Warner Bros

 

A partir daí, o herói passa a ser perseguido pelo FBI e pela mídia, que remexem todos os podres do seu passado. O caso e todos seus desdobramentos ganharam um longa-metragem dirigido pelo renomado diretor Clint Eastwood. Com atuações impecáveis e um enredo cativante, “O Caso Richard Jewell” estreou nos cinemas brasileiros, no último dia 2, como um lembrete de como a má apuração jornalística e policial podem arruinar vidas.

Quem foi Richard Jewell?

Nascido em Danville, Virgínia, em 1962, Richard White tinha apenas quatro anos quando sua mãe se casou com John Jewell, que o adotou como seu próprio filho. Desde muito pequeno, Richard não tinha muitos amigos e compensava seu tempo livre em estudar a história militar.

Quando não estava lendo livros sobre as Guerras Mundiais, ele aceitava trabalhos voluntários na escola para trabalhar como guarda ou ajudar no manuseio do projetor da biblioteca. Após seu padrasto abandonar a família, ele deixou o curso de mecânico de automóveis para cuidar de sua mãe.

Em 1991, depois de um ano trabalhando como carcereiro, Jewell foi enviado para a Academia de Polícia do nordeste da Geórgia como parte de seu treinamento. Lá, ele havia encontrado sua verdadeira aptidão.

Seu excesso de zelo e sua determinação em levar tudo ao pé da letra o levaram a prisões desnecessárias. Após ser rebaixado de volta para carcereiro, Richard deixou a Academia e passou a trabalhar no Piedmont College.

Imagem do filme 'O Caso Richard Jewell' / Crédito: Divulgação Warner Bros

 

Entretanto, essa passagem durou pouco tempo, já que os alunos da instituição se queijavam constantemente da postura linha-dura de Jewell.

O atentado no Centennial Park

Fora do Piedmont College, ele conseguiu um trabalho como segurança nos Jogos Olímpicos de Atlanta, que aconteceram em 1996. Aquela seria uma oportunidade ideal para um a volta por cima em sua amada profissão.

Trabalhando 12 horas no turno da noite, Richard saiu da casa de sua mãe no dia 26 de julho de 1996 às 16h45 em direção ao Parque Olímpico e chegou ao pavilhão da AT&T 45 minutos depois.

Com um dor no estômago, ele fez uma pausa para usar o banheiro por volta das 22 horas. Por causa de suas terríveis cólicas estomacais, Jewell usou o banheiro mais próximo — o que era proibido aos funcionários — mas que havia sido autorizado por um segurança.

Quando ele voltou à sua estação, perto da torre de som e luz, por um palco musical, Jewell notou um grupo de garotos bêbados que estavam espalhados por todo o lado, o que o deixou irritado com grupo, já que eles estavam incomodando a equipe de filmagem.

Tendo sua personalidade incansável, Jewell foi prontamente foi denunciar os adolescentes bêbados. No caminho, viu uma mochila militar verde-oliva que havia sido deixada sem vigilância debaixo do banco.

Ele não pensou duas vezes. Com a ajuda de Tom Davis, um agente do Georgia Bureau Of Investigation (GBI), eles demarcaram uma área de 7 metros quadrados em torno da mochila misteriosa. Richard também fez duas viagens à torre para evacuar a equipe de filmagem e de som.

Jewell (Paul Water Hauser) fazendo a evacuação da área onde estava a bomba / Crédito: Divulgação Warner Bros

 

Por volta de 1h25 do dia 27 de julho de 1996, a mochila explodiu, enviando pedaços de estilhaços para a multidão ao redor. Após a explosão, os investigadores descobriram que o terrorista havia plantado pregos dentro de um dos canos da bomba, o que poderia atingir o público mais gravemente.

Richard Jewell: herói ou terrorista?

Pouco depois da explosão, o Centennial Olympic Park de Atlanta estava repleto de agentes federais. Richard Jewell, que falou com os primeiros agentes a chegar ao local, lembrou-se vividamente da cena caótica após a detonação da bomba.

Relatórios posteriores revelaram que um telefonema ao 911 de uma cabine telefônica próxima ao local do acidente relatava a ameaça minutos antes da bomba explodir. “Há uma bomba no Centennial Park. Vocês têm 30 minutos”, dizia a voz da ligação.

A explosão no Centennial Park matou uma mulher — um homem que filmava o acidente também morreu de parada cardíaca — e feriram outras 111 pessoas. O número de vítimas poderia ter sido maior caso a área não tivesse sido parcialmente evacuada.

Richard Jewell foi prontamente apontado como herói, mas uma matéria do The Atlanta Journal-Constitution com a manchete “O FBI suspeita que o 'herói' da guarda possa ter plantado a bomba”, mudou completamente sua vida.

Seguindo uma informação de um amigo do FBI, a jornalista Kathy Scruggs descreveu que “Richard Jewell se encaixava no perfil de um homem-bomba solitário”, que o tratava como uma pessoa excluída e malsucedida que usaria um atentado terrorista para se tornar um herói.

Durante 88 dias de investigação, Richard e sua mãe foram envolvidos em uma tempestade midiática. Cada dia mais jornalistas apareciam na frente da casa de Richard para tentar algum flagra. Cada passo da investigação da FBI era acompanhado por uma enxurrada de câmeras e helicópteros que buscavam registrar cada momento.

Em outubro daquele ano, depois de uma série exaustiva de investigação, a FBI chegou à conclusão de que Jewell não foi o responsável pelo atentado ao Centennial Park. Mas, apesar de se livrar da acusação, o dano causado à sua reputação foi irreversível.

"Você não recebe de volta o que era originalmente", disse Jewell. “Acho que nunca vou conseguir isso de volta. Nos três primeiros dias, eu supostamente fui o herói deles - a pessoa que salva vidas. Eles não se referem mais a mim dessa maneira. Agora eu sou o suspeito de bombardeio do Parque Olímpico”.

O advogado Watson Bryant (Sam Rockwell), Bobi (Kathy Bates) e Richard Jewell (Paul Walter Hauser) / Crédito: Divulgação Warner Bros

 

Em 13 de abril de 2005, Jewell foi exonerado completamente quando Eric Rudolph , como parte de um acordo de confissão, se declarou culpado de realizar o ataque a bomba no Centennial Park e em outras três partes dos Estados Unidos.

Pouco mais de um ano depois, o governador da Geórgia Sonny Perdue homenageou Jewell por seus esforços de resgate durante o ataque. Richard passou por diversas áreas na polícia, trabalhando como vice-xerife no condado de Meriwether, na Geórgia, até sua morte. Além do mais, ele também palestrou sobre o caso em diversas universidades do país.

Richard Jewell morreu no dia 29 de agosto de 2007, aos 44 anos, vítima de complicações relacionadas à diabetes.