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O contrabandista que continuou lucrando com a escravidão mesmo após a proibição

É estimado que ele tenha trazido cerca de 11.584 homens, mulheres e crianças como escravos à Bahia

Paola Orlovas, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 28/11/2021, às 09h00

Foto da estátua de Joaquim Pereira Marinho, traficante de escravos, em Salvador, na Bahia
Foto da estátua de Joaquim Pereira Marinho, traficante de escravos, em Salvador, na Bahia - Acervo da Fundação Gregório de Mattos

Joaquim Pereira Marinho foi um contrabandista de escravos português que passou a fazer parte da alta sociedade da Bahia após acumular uma grande fortuna com o tráfico de africanos cativos, que se deu até mesmo depois das declarações de leis como a Lei Feijó, conhecida como 'Lei para Inglês Ver' e a Lei Eusébio de Queiroz. 

A primeira vez que Pereira Marinho foi registrado no estado da Bahia, onde teve grande influência, foi no ano de 1928, como um dos funcionários de navios na costa do estado, sendo chamado de marítimo.

Apenas dois anos mais tarde, a figura polêmica já possuía navios próprios, e que faziam trajetos na África, onde hoje se localizam Angola, Congo, Benin, Togo e Nigéria.

Segundo o historiador Carlos da Silva Jr, que foi entrevistado pela BBC News Brasil e é professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, Joaquim Pereira Marinho foi diferente de outros traficantes de escravos porque ele “realmente entrou no negócio depois que ele já era proibido no Brasil".

Na época em que Joaquim atuava, a Lei Feijó entrava em vigor, proibindo a importação de africanos como escravos no Brasil. Mas, ainda segundo Carlos da Silva Jr, a lei ficou conhecida como 'Lei para Inglês Ver', e não ajudou a longo prazo, porque logo após o ano de 1835, o número de africanos escravizados voltou a aumentar, com o apoio do Estado.

Além disso, dados registrados no projeto Banco de Dados do Tráfico de Escravos Transatlântico revelam que os navios de Joaquim Pereira Marinho fizeram, ao todo, 33 viagens entre o Brasil e países africanos durante o período entre os anos de 1839 e 1850.

O historiador Carlos da Silva Jr. ainda afirma que é estimado que Pereira Marinho tenha trazido cerca de 11.584 homens, mulheres e crianças como escravos à Bahia, cerca de até 10% deles tendo morrido durante o trajeto. 

O contrabandista de escravos não parou com a prática nem mesmo com a Lei Eusébio de Queiroz, em 1851, e uma historiadora que escreveu sobre Pereira Marinho e é especialista na História transnacional da escravidão, a professora de Howard, Ana Lúcia Araújo, explicou para a BBC News Brasil como ele fez para se manter ativo em uma entrevista.

Acontece que no ano de 1858, ele encontrou uma maneira de realizar um comércio legalizado com a África: fundou a Companhia União Africana. Contudo, o que garantiu o contrabando foi a proximidade com nomes em Cuba, onde a insólita prática não fora proibida, assim conseguindo manter o 'negócio'. 

Acredita-se que a opinião pública sobre a escravidão no Brasil começou a mudar a partir da década de 1850, e já em 1860 os contrabandistas de escravos, como Joaquim Pereira Marinho, deixaram de ser vistos como heróis e passaram a receber críticas. 

A partir de então, a figura polêmica passa a fazer grandes doações, ajudar vítimas de tragédias e secas dentro de estados do Nordeste, financiar reparos em bairros de Salvador, e até mesmo se tornou patrono da Santa Casa de Misericórdia, uma instituição tradicional que vinha de Portugal. 

Pereira Marinho faleceu no ano de 1887, com uma fortuna acumulada de 8 mil contos de réis, montante equivalente a 1 bilhão de reais atualmente. Além disso, deixou 227 imóveis que estavam em seu nome apenas em Salvador, e no seu testamento alegava ter "a consciência tranquila de passar para a vida eterna sem nunca haver concorrido para o mal de meu semelhante".