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O conturbado e polêmico exorcismo de George Lukins, o Demônio de Yatton

Sempre tranquilo e constante frequentador da Igreja, o alfaiate viu sua vida mudar após, supostamente, ter recebido um "tapa divino" durante uma apresentação

Fabio Previdelli Publicado em 21/06/2020, às 10h00

Pintura de Francisco Goya mostrando São Francisco de Borja executando um exorcismo
Pintura de Francisco Goya mostrando São Francisco de Borja executando um exorcismo - Wikimedia Commons

Em 1788, George Lukins tinha 44 anos e morava na vila de Yatton, nos arredores de Bristol. Apesar de ter trabalhado a maior parte de sua vida como alfaiate, também exerceu a função de cantor, ator e até mesmo de ventríloquo. Sempre calmo, era descrito por seus vizinhos por ser “extraordinariamente bom caráter desde a infância, além de ser um frequentador constante da igreja”.

Nessa altura, as coisas já não estavam indo bem para ele, mas, sem dúvida alguma, elas iriam piorar ainda mais. Lukins, que também viria a ser conhecido como o Demônio de Yatton, era — supostamente — assombrado por demônios e, consequentemente, teve de passar por uma controversa sessão de exorcismo que gerou grande repercussão na Inglaterra.

O início da possessão

Tudo teria começado duas décadas antes, em 1769, quando George passou a sofrer de “ataques de natureza alarmante”, o que muitos dizem que eram epilepsia. Porém, o rapaz alegou que estava tudo bem até se apresentar em uma peça teatral natalina, quando sentiu um “tapa divino” que o derrubou no chão. A partir daí, seu corpo havia se tornado o antro de demônios.

Segundo testemunhas que presenciaram a cena, Lukins estava se exibindo na casa do Sr. Love quando foi lhe oferecido algumas cervejas. Assim, teria ficado tão embriagado que teve de ser escoltado até sua casa por dois amigos: Avery e Read.

Depois daquela noite, passou a sofrer convulsões que o deixava impossibilitado de falar no momento — apenas conseguia emitir alguns sons de animais, como o latido de um cachorro. Além do mais, se auto interpelava de maneira agressiva. Esses ataques sempre começavam quando George sentia uma “forte agitação na mão direita”.

Espectadores também dizem que Lukins não conseguia ouvir nenhuma expressão virtuosa ou positiva sem expressar dor ou horror, e passou a ser caracterizado como uma figura macilenta e exausta.

Apesar dos ataques violentos, continuou trabalhando como alfaiate, porém, cada vez mais, se viu obrigado a fazer tratamentos médicos. De acordo com o reverendo Wake, cujo falecido tio havia sido vigário da cidade vizinha de Backwell, em 1775, a paróquia enviou George para realizar exame no Hospital St. George, em Londres, por quase 20 semanas. Segundo os registros médicos, o rapaz foi internado no dia 3 de maio de 1775 e teve alta no dia 8 de outubro daquele mesmo ano.

Enquanto esteve internado, recebeu várias visitas e não sofreu mais nenhuma convulsão. Porém, os médicos do hospital não conseguiram tratar seu problema de epilepsia, que foi diagnosticada como incurável.

Assim, à medida que sua condição piorava, Lukins foi levado para ficar sob os cuidados de um cirurgião de Wrington chamado Smith. Infelizmente, o médico também não conseguiu melhorar a saúde do alfaiate, que foi encaminhado novamente para outro exame, desta vez com outros doutores, que disseram que ele era “afligido por um grave distúrbio hipocondríaco”.

Porém, em determinado momento, suas dores cessaram por um certo período, mas tudo piorou novamente em 1787. Desta vez, ao invés de alegar que esses ataques haviam sido provenientes de bruxaria, Lukins afirmou que tudo não passava de um caso de possessão demoníaca.

Assim, Sarah Barber, membro da Igreja do Templo por nove anos, que conhecia a condição de Lukins porque seu marido morava na mesma vila que ele, se aproximou de seu vigário anglicano, o reverendo Joseph Easterbrook, no sábado, 31 de maio de 1788, e pediu-lhe ajuda.

O reverendo se reuniu com Lukins várias vezes na igreja para determinar se ele estava realmente possuído. Com a certeza por parte de Joseph, o anglicano solicitou uma reunião para discutir se o exorcismo seria feito.

Apesar da primeira petição ser rejeitada, Easterbrook continuou em suas tentativas de curá-lo e contatou o padre anglicano, o reverendo John Wesley, um dos fundadores do movimento metodista. Apesar de sua recusa, outros seis padres concordaram em realizar o exorcismo. Com isso, um comitê de ministros Wesleyanos foi reunido para fazer os preparativos.

O controverso exorcismo

Às 11 horas da manhã da sexta-feira, 13 de junho de 1788, Easterbrook reuniu sete testemunhas e seis ministros wesleyanos para realizar o exorcismo na sala de sacristia da igreja do templo. O ritual consistia em pedidos e ordens para o demônio partir, assim como o cântico de hinos e orações.

Quando o padre começou a cantar hinos, o rosto de Lukins se distorceu, seu corpo começou a ter espasmos e ele começou a sentir "estranhas agitações". Às vezes, o alfaiate falava em um "tom profundo, rouco e vazio", alegando estar sob a influência de um agente invisível.

Em outras, George gritava blasfemas em outras vozes (masculinas e femininas), além de cantar e rir —periodicamente, também declarava ser o diabo. Lukins então "jurou vingança eterna aos presentes por ousarem se opor a ele e ordenou que seus “servos fiéis e obedientes” aparecessem para exterminá-los

O homem logo se tornou violento e difícil de ser controlado. Enquanto o padre orava, Lukins cantava em diferentes vozes: "Nós te louvamos, ó Diabo, nós te reconhecemos como o governador supremo ...".

Os sacerdotes ordenaram em nome da trindade que o mal partisse. George, em contraponto, também juraria "por sua cova infernal" que não iria embora. Enquanto o padre continuava suas orações, Lukins gritou: "Nosso mestre nos enganou! ... Para onde iremos?". "Para o inferno, e não volte mais para atormentar esse homem", respondeu Easterbrook.

Após duas horas de orações repetidas, o alfaiate anunciou em sua própria voz: "Abençoado Jesus". Então ele louvou a Deus pela libertação e fez a oração do Senhor. Depois desse ponto, Lukins parecia não ter outros problemas.

As controvérsias do exorcismo

Apesar do aparente sucesso, muitos escritores afirmaram que Lukins era um impostor. Um deles, o cirurgião Samuel Norman, escreveu e imprimiu um panfleto chamado "Anedotas autênticas de George Lukins, o demoníaco de Yatton". Por sua vez, Norman liderou uma oposição vocal que ridicularizava o clero que havia sido enganado pelo alfaiate, chegando a reunir testemunhas que tudo não passava de casos de embriaguez de George.

Em contra partida, outros religiosos, como o reverendo John Wesley, afirmaram que o caso era um milagre e uma prova da providência divina. Em defesa do exorcismo, Easterbrook escreveu que a posse era autêntica e negar sua realidade seria reivindicar que o poder do Senhor havia diminuído desde os tempos bíblicos.


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