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Matérias / Mundo

O coronel russo que criticou a invasão na TV estatal: 'O mundo inteiro está contra nós'

Mikhail Khodaryonok surpreendeu a Rússia e o mundo ao revelar opiniões francas a respeito da guerra com a Ucrânia

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 22/05/2022, às 08h00

Trecho de entrevista de Mikhail Khodaryonok - Divulgação/ Rossiya-1
Trecho de entrevista de Mikhail Khodaryonok - Divulgação/ Rossiya-1

A televisão estatal russa tem sido alvo de críticas desde o início de seu confronto com a Ucrânia, que é divulgado pela imprensa do país invasor como uma "operação militar especial", em vez de uma invasão à nação vizinha. 

Assim, a entrevista dada porMikhail Khodaryonok, um coronel veterano, ao programa Rossiya-1, que realiza a cobertura da guerra contra o território ucraniano, causou perplexidade ao contar com uma franqueza que desafia a narrativa divulgada até então pelos canais televisivos controlados pelo Kremlin.

A apresentadora do quadro, em particular, Olga Skabeyeva é conhecida por uma postura de explícita defesa das ações do governo russo, conforme informações repercutidas pela CNN. 

Olga Skabeyeva no programa / Crédito: Divulgação/ Rossiya-1

Em total contraste com as informações normalmente veiculadas pelo meio, todavia, o militar aposentado revelou que o território ucraniano não está próximo de ser derrotado, e a situação da Rússia frente ao restante do globo é motivo de preocupação. 

Futuro incerto

A principal deficiência de nossa posição político-militar é que estamos em plena solidão geopolítica e — por mais que não queiramos admitir — praticamente o mundo inteiro está contra nós... e precisamos sair dessa situação", afirmou Khodaryonok, que durante sua atuação no exército russo era um analista de guerra. 

O coronel, que tem inúmeras condecorações, também deu a previsão de que as circunstâncias deles iriam apenas declinar dali para frente, ainda de acordo com a CNN.

Ele apontou que, caso o governo ucraniano assim quisesse, ele teria condições de mobilizar e armar mais um milhão de pessoas para lutar contra as tropas russas. 

Existe na Ucrânia um desejo de defender a pátria — realmente existe — e eles pretendem lutar até o fim (...) Precisamos tratar esse milhão de soldados ucranianos como uma realidade no futuro próximo”, alertou o veterano. 

A âncora do programa, Skabeyeva, procurou argumentar que as forças da Ucrânia não seriam tão eficientes, porém Khodaryonok foi enfático em seu posicionamento de que era preciso "evitar tranquilizantes informativos" e "ver a realidade". 

Mikhail Khodaryonok no programa / Crédito: Divulgação/ Rossiya-1

Coragem

No início de março deste ano, meros dias após o início da invasão da nação ucraniana pela Rússia (que atualmente já beira três meses de duração), o Kremlin aprovou leis proibindo a realização de protestos contra o conflito e coberturas do evento que "descreditassem as forças armadas russas", segundo apurado pela CNBC. 

As restrições levaram manifestantes e jornalistas a serem alvos de processos judiciais que poderiam render até 15 anos de prisão. 

A existência da forte censura a narrativas alternativas àquela oferecida pelo governo da nação torna as declarações de Mikhail Khodaryonok em plena rede estatal incrivelmente impactantes. 

Um detalhe importante é que esta não foi a primeira vez que o coronel se manifestou de forma contrária ao conflito: de acordo com a Reuters, três semanas antes do adentramento das tropas em território ucraniano, ele já havia publicado um artigo argumentando que o ato militar não estaria dentro dos interesses da Rússia. 

Naquele período, alguns políticos afirmavam que a vitória sobre a nação vizinha aconteceria em questão de horas, uma previsão contestada firmemente pelo analista de guerra.

Khodaryonok explicou em seu texto que o exército da Ucrânia contaria com equipamentos e armamentos enviados por aliados ocidentais, um fator que se provou realidade mais tarde.

A ajuda internacional não deve ser subestimada, e, até o momento, as forças russas não alcançaram grandes conquistas. Em vez disso, o confronto se estende, consumindo vidas e recursos materiais de ambos os lados. 

O principal em nosso negócio é ter um senso de realismo político-militar: se você for além, a realidade da história virá com tanta força que você não saberá o que o atingiu”, concluiu o militar na entrevista televisiva veiculada para toda a população da Rússia. 

Confira abaixo um trecho do programa: