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O correio veio do céu: a curiosa história do serviço postal militar brasileiro

Em Coluna, Ricardo Lobato conta como dois jovens com a primeira mala postal aérea inauguraram o Correio Aéreo Nacional (CAN)

Ricardo Lobato Publicado em 29/06/2020, às 17h13

Avião da década de 50 utilizado  pelo Correio Aéreo
Avião da década de 50 utilizado pelo Correio Aéreo - Arquivo Nacional

Já era noite quando, em 12 de junho de 1931, dois jovens desceram de um táxi e entregaram uma mala postal na estação central dos Correios de São Paulo. Seria apenas mais um fato corriqueiro, não fosse esse acontecimento a inauguração da primeira linha brasileira de transporte aéreo militar.

O táxi fora a última etapa de uma longa jornada que começara a centenas de quilômetros dali, no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro. Essa viagem marcou o início do Correio Aéreo Nacional (CAN).

Nas décadas de 1920 e 1930, o uso comercial da aviação ainda se encontrava em seus primórdios. Mais que um novo instrumento de combate — como no caso da Primeira Guerra — o aeroplano passava, pouco a pouco, a interligar distâncias antes imensuráveis.

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Mapa da rota aérea do Correio Aéreo Nacional, em 1961 / Crédito: Arquivo Nacional

Não era apenas o início de uma nova fase de explorações, era também o início das companhias de transporte, de correspondência e de passageiros.

Aproximando as distâncias e encurtando o tempo de viagem, a aviação se firmava como um serviço cada vez mais necessário. O Brasil contava com um correio aéreo desde 1927, porém, era parte de uma rede maior da companhia francesa Aéropostale, que operava na América do Sul desde o ano anterior, tendo como parte de sua rota as cidades de Natal e do Rio de Janeiro.

A Aéropostale fora, inclusive, precursora nesse tipo de serviço. Entre seus pilotos, havia diversos ases da aviação, como o piloto escritor Antoine de Saint-Exupéry, diretor de sua filial sul-americana. No entanto, por problemas financeiros ocasionados pela crise de 1929, a companhia encerrou suas atividades na América do Sul no início da década de 1930.

Com um corpo aéreo militar desde 1919, as Forças Armadas não estavam alheias aos progressos aeronáuticos. E para dar um retorno à sociedade, em 1931 o então ministro da Guerra, general Leite de Castro, atendeu ao apelo de um grupo de jovens aviadores militares que ansiava partir da teoria para a prática.

O ministro autorizou a criação do Correio Aéreo Militar (CAM), que tinha o objetivo de “auxiliar na integração nacional”. O comando da nova Unidade Aérea foi entregue ao major Eduardo Gomes, que confiou a dois de seus pilotos, os tenentes Casemiro Montenegro e Nelson Lavenére-Wanderley, sua primeira missão: iniciar um serviço aéreo entre as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo.

A bordo de uma aeronave Curtiss “Fledging” de matrícula K263, apelidada de “Frankenstein”, partiram com uma mala postal — apenas duas cartas — rumo a São Paulo. A autonomia de voo era de cinco horas e meia. Optaram por uma rota que passava por cima das altas montanhas do litoral.

Apesar do céu claro, encontraram uma forte corrente de ar, obrigando-
os a diminuir a velocidade. A viagem durou cinco horas e vinte minutos, fazendo com que chegassem com o tanque quase vazio e com as luzes da cidade já acesas. Para completar, tiveram dificuldades de localizar o Campo de Marte, onde deveriam pousar, tendo de aterrissar, então, na antiga sede do Jockey Club, na Mooca.

Com o local deserto (mas uma missão a cumprir), pularam o muro e tomaram um táxi, que os levou finalmente ao destino, entregando o malote nos Correios da Avenida São João. Três dias depois, retornariam ao Rio de Janeiro com mais correspondência, desta vez optaram pela “rota do Vale do Paraíba”, mais curta e rápida. A missão fora cumprida e o primeiro passo fora dado.

Baseado nesse sucesso, nos meses seguintes o Correio Aéreo se espalhou pelo país, consolidando-se como um instrumento da tão almejada integração nacional brasileira.


Ricardo Lobato é Sociólogo e Mestre em economia pela UNB, Oficial da Reserva do Exército brasileiro e Consultor-chefe de Política e estratégia da Equibrium – Consultoria, Assessoria e Pesquisa. 

**Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Aventuras na História


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