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Grimod de La Reynière, o crítico gastronômico que forjou o próprio funeral

Obcecado pelo fúnebre, o especialista tinha um motivo específico para o evento macabro

Daniela Bazi Publicado em 04/07/2020, às 08h00

Grimod de La Reynière (1758 - 1837)
Grimod de La Reynière (1758 - 1837) - Getty Images

Grimod de La Reynière, um dos primeiros críticos gastronômicos da história, nasceu em 1758, Paris, cresceu num ambiente luxuoso — seu pai era um rico coletor de impostos. Todavia, desprezava seus familiares por escondê-lo quando criança: o jovem Grimod tinha uma condição rara que deformava seus dedos, que o levou a usar próteses de metal escondidas por luvas brancas.

Quando tinha 20 anos, começou a estudar para se tornar advogado, mas passou a se envolver em crítica de teatro. Quando se formou, chegou a atuar na profissão, mas percebeu que sua verdadeira paixão era a arte teatral.

No o mês de fevereiro de 1783, aproveitando que seus pais estavam fora de casa, Grimod organizou seu primeiro jantar mórbido em sua enorme casa para 300 convidados. Ao chegarem no evento, todos deveriam responder a mesma pergunta: se eles estavam lá para ver o “defensor do povo”, ou o “opressor do povo”?

Os banquetes de Grimod normalmente ocorriam em sua casa / Créditos: Wikimedia Commons

 

Apenas cerca de 20 convidados responderam de forma correta, e foram levados para um salão de banquetes, que contava com um caixão decorativo atrás de cada assento, e era iluminado por 365 lâmpadas.

Aqueles que responderam erroneamente não tiveram permissão para entrar, e foram obrigados a assistir os escolhidos por Grimond jantar. Eles não podiam sair e nem fazer uma refeição adequada, sendo forçados a observar o banquete enquanto comiam alguns biscoitos. A partir de então, o jovem de La Reynière tornou-se assunto na cidade e passou realizar outras festas sem a presença de seus pais.

Não existem confirmações sobre a frequência dos encontros ou sobre o tempo de ausência de seus pais. Todavia, quando voltaram, estavam extremamente bravos com a travessura do filho, e o enviaram para um mosteiro no campo por dois anos.

Ao voltar para sua cidade natal, após a morte de seu pai, Grimod encontrou as finanças de sua família arruinadas, e aproveitou de seu interesse pela gastronomia para dar a volta por cima. Foi então que de La Reynière, em 1803, escreveu seu primeiro livro com resenhas de restaurantes e críticas gastronômicas.

Nos nove anos seguintes da estreia de seu primeiro livro, Grimod escreveu mais sete, com a mesma temática, e cada um acabou vendendo milhares de cópias, o gerando um bom dinheiro. Todavia, a sua carreira como um verdadeiro crítico gastronômico começou a partir de seus jantares mórbidos.

Capa de um dos livros de Grimod de La Reynière / Créditos: Wikimedia Commons

 

Em 1812, de La Reynière fez uma edição inédita de seu bizarro evento, mas dessa vez forjando sua própria morte. Grimod pediu para que sua esposa enviasse convites para a alta sociedade parisiense, e marcasse para o horário do jantar, às 16h.

Chocados com a suposta morte, muitos de seus amigos, e até mesmo pessoas que ele criticava, aceitaram o convite para prestar respeito ao falecido. Quando entraram na casa, a encontraram escura, com um caixão sendo iluminado por duas fileiras de tochas.

Enquanto esperavam o momento de levar o corpo para o sepultamento, um barulho inusitado chamou a atenção de todos ali presentes. Duas portas foram abertas, revelando Grimod à frente de um grande banquete. Após se recuperarem do susto, todos foram jantar e não paravam de expressar o alívio pela falsa morte do colega.

Eventualmente, Grimod revelou o motivo de ter organizado o evento. Ele disse: “Eu queria saber quem eram meus verdadeiros amigos - não há maneira melhor de testar isso do que ver quem iria ao meu funeral, mesmo que isso significasse perder o jantar”. Após organizar seu próprio funeral, de La Reynière e sua esposa se mudaram para o campo, onde viveram até o fim de suas vidas.


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