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O Desastre de Orly: quando uma bituca de cigarro explodiu um avião

Um incêndio causado pelo objeto matou mais de cem passageiros antes do pouso de emergência, incluindo o famoso torturador Filinto Muller

André Nogueira Publicado em 15/06/2020, às 08h00 - Atualizado às 08h45

Voo Varig 820 após queda
Voo Varig 820 após queda - Wikimedia Commons

Em 1973, um avião brasileiro se viu numa situação delicada de tragédia, e seu comandante partiu de um importante dilema moral para salvar muitas vidas — potencialmente.

Em um avião em chamas, com diversas pessoas morrendo sufocadas pela fumaça, o piloto Gilberto Araújo Silva, chefe da tripulação de uma aeronave da Varig que chegava a Paris, optou por não adentrar ao perímetro urbano da capital francesa, para impedir mais uma tragédia. Acontece que o avião já estava comprometido, por conta de um acidente improvável.

O evento, conhecido como Desastre de Orly, teve início numa vigem comercial entre Rio de Janeiro e Paris, e o incêndio foi relatado poucos minutos antes do pouso. O piloto paraibano e mais 134 ocupantes já sonhavam com a Cidade Luz quando uma passageira saiu do banheiro do veículo tossindo, relatando fuligem. Era o início de um trágico incêndio.

Acontece que as chamas teriam começado por conta de uma bituca de cigarro deixada no banheiro do local e mal apagada. Na época, assim como foi até meados dos anos 1990, não era proibido fumar no interior de voos depois que a aeronave já havia decolado. Muito pelo contrário, era bastante comum o consumo de cigarros nas viagens, mas o descuido de manter uma bituca acessa ceifou diversas vidas.

Comissárias de bordo correram para pegar o extintor de incêndio, mas quando chegavam próximas ao banheiro, a fumaça e as chamas já tomavam o corredor da aeronave. Sufocados, muitos passageiros caíram e, rapidamente, a cabine de comando foi tomada pela emanação também.

Aeronave do tipo Boeing 707 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Quando relatou o acontecimento, Araújo tomou a decisão de não adentrar Paris e tentar pousar na área rural ao redor da cidade, para não aumentar o acidente. “Já que vamos morrer, ao menos não mataremos mais pessoas lá embaixo”, afirmou ele no rádio, quase sufocando.

Então, ele deu início ao procedimento de emergência para pousar num campo de cebolas na aldeia de Saulx-les-Chartreux. Com a cabine totalmente cheia de fumaça, os pilotos tomaram uma decisão extrema: quebraram o vidro da cabine e jogaram suas cabeças para fora, conseguindo ver o lado de fora e respirar. O avião caiu bruscamente no campo, o que lesionou o piloto no crânio e na coluna.

Gilberto conseguiu pousar o avião com certo cuidado. A aeronave estava parcialmente destruída e seu copiloto também sofreu lesões pelo impacto com uma árvore. Porém, a grande maioria dos passageiros morrera durante o procedimento, sufocada pela fuligem do incêndio. Em poucos minutos, o oxigênio das máscaras de segurança acabou e 122 pessoas sufocaram até falecerem.

Entre as vítimas, havia importantes famosos, como o cantor Agostinho dos Santos, a atriz Regina Lecléry e o torturador e policial Filinto Muller, na época políticos e presidente do Senado, que inclusive fazia aniversário naquele 11 de julho. A maioria da tripulação sobreviveu, mas apenas um passageiro saiu vivo: o jovem de 19 anos Ricardo Trajano.

Filinto Muller, um dos mortos no acidente / Crédito: Divulgação

 

Bombeiros realizaram buscas no local do pouso e só encontraram Trajano vivo, levando-o rapidamente para um hospital, estando ele com sérias queimaduras e fraturas. Depois, o ministério de Transportes do país revelou que a provável origem do acidente fora a bituca deixada no banheiro.

Décadas depois, um comissário de bordo conhecido como Carmelino relatou que a versão do cigarro era falsa e que uma fumaça preta que tomou o avião depois da branca teria origem em um incêndio inicial grado pela combustão de algo no porão da aeronave. Porém, nenhuma das versões foi oficialmente provada.

O piloto Gilberto Araújo, responsável por salvar diversas vidas ao impedir um acidente no coração da capital francesa, recebeu condecorações da França e da Força Aérea Brasileira. Porém, isso criou uma polêmica, depois que Antônio Fuzimoto, o copiloto, alegou ter sido ele o responsável pela decisão.

A versão de Fuzimoto é endossada pelo engenheiro de voo Claunor Bello, membro da tripulação, mas as revelias dadas ao piloto não foram retiradas. Gilberto demonstrou importante cautela e capacidade de atuação com aquele perigoso pouso que poderia ter salvado vidas de passageiros, se não fosse a fumaça que tomou todo o veículo.

O piloto, que morrera em 1979 por conta de outro acidente, que até hoje não teve explicações, no Oceano Pacífico, tinha grande experiência e adorava a vida à bordo.


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