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O homem que bateu de frente com a repressão sexual dos Estados Unidos

Na década de 1950, o sexólogo Alfred Kinsey expôs a intimidade da sociedade americana em uma pesquisa que gerou polêmica

Alana Sousa Publicado em 28/03/2021, às 11h00

O sexólogo Alfred Charles Kinsey
O sexólogo Alfred Charles Kinsey - Wikimedia Commons

Alfred Charles Kinsey iniciou sua vida como biólogo. Nascido em 1894, nos Estados Unidos, era filho de pais extremamente religiosos, apesar disso, tal crença não foi passada para o filho, que se declarava ateu.

Seu primeiro livro foi publicado em 1926, intitulado ‘An Introduction to Biology’ (Uma Introdução à Biologia, em tradução para o português). Com esta obra, o cientista passou a dar aulas na Universidade de Indiana.

Além de lecionar biologia, Kinsey foi convidado para ser o professor do curso de educação sexual do campus, que era chamado na época de Curso de Higiene. Sem hesitar, aceitou o convite; algo que mudaria o rumo de sua carreira.

Sexólogo de renome

Suas aulas eram ousadas e cativavam os estudantes, com fotos explícitas de genitálias e o estudo dos órgãos reprodutores, Alfred encontrou ali sua paixão de vida: o estudo da sexualidade. Traçou a meta ambiciosa de coletar 100 mil testemunhos para sua futura pesquisa referente à vida intima dos jovens. Ainda que o objetivo não tenha sido alcançado, os resultados o colocaram sob um holofote jamais visto antes.

Alfred Kinsey / Crédito: Divulgação/Instituto Kinsey

 

No ano de 1941, a Fundação Rockefeller se interessou pela ideia de Kinsey e decidiu lhe garantir uma bolsa para a realização do estudo. A quantia foi suficiente para ampliar o questionário de 521 perguntas a outras cidades dos EUA.

James H. Jones, um dos biógrafos de Alfred afirmou que a pesquisa era uma forma do cientista entender sua própria sexualidade. Sempre negando polos como “hetero” e “homo”, Kinsey buscava entender um pensamento mais extenso dos desejos humanos.

No primeiro momento, o estudo contava com voluntários que respondiam ao seu longo questionário, a equipe, então, analisava as questões de maior interesse, como a reação humana em situações de prazer.

Entretanto, apenas as respostas coletadas já não satisfaziam os colaboradores de Kinsey; o sexólogo elevou sua pesquisa para outro patamar e passou a gravar seus amigos mais íntimos tendo relações sexuais.

Os atos aconteciam no porão de sua residência e contavam, entre muitas coisas, com troca de casais e experiências entre pessoas do mesmo gênero. Conforme o tempo foi passando, os voluntários passaram de seus colegas mais íntimos para outros curiosos que buscavam se aventurar e ainda contribuir para a sexologia.

Kinsey era um biólogo. Ele usou seu treinamento científico para fazer perguntas importantes sobre a biologia sexual dos humanos e sua maneira de pensar era essencialmente classificatória”, afirmou o sociólogo Edward Laumann, em entrevista repercutida pela revista Superinteressante, em 2005.

Poucos anos depois, em 1948, a pesquisa foi publicada sob o título ‘Sexual Behavior of Human Male’ (em tradução livre, ‘Comportamento Sexual do Homem’). A obra foi um sucesso e vendeu mais de 200 mil cópias, tornando Alfred em uma figura famosa.

Porém, com a fama veio o choque da sociedade americana, que jamais tinham se deparado com assuntos considerados tabus de forma tão escancarada. Críticos e leitores se espantaram com alguns tópicos, os dados do livro começaram a ser duvidados.

O sexólogo, Kinsey / Crédito Wikimedia Commons

 

Temas controversos

Entre alguns levantamentos feitos por Kinsey, estavam que 90% dos cidadãos americanos se masturbavam; 11% faziam ou tentaram sexo anal com suas parceiras; e ainda, 37% dos entrevistados afirmaram terem passado por experiências homossexuais.

O tópico mais controverso, no entanto, foi o que envolveu orgasmos infantis. Alfred escreveu que uma menina de sete anos teria tido 3 orgasmos em um período de uma hora, enquanto um garoto de 13 anos, teria tido 19 no mesmo intervalo de tempo.

As conclusões geraram um debate sobre como o cientista teria conseguido tais informações. Foi revelado cerca de 40 anos mais tarde que o autor teria entrevistado um pedófilo, que cometera tais crimes antes do estudo e revelara em depoimento como fonte anônima.

Kinsey estava mais preocupado em legitimar a nascente ideologia gay do que em esboçar um amplo painel sobre a sexualidade nos EUA”, afirmou Judith Reisman, chefe do Restore Sexual Virtue and Purity to America, em fala reproduzida também pela Superinteressante.

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Kinsey / Crédito: Divulgação

Após o polêmico livro, em 1953, foi lançado o ‘Sexual Behavior of Human Female’ (em tradução para o português, ‘Comportamento Sexual da Mulher’). Assim como seu antecessor, sofreu com críticas graves.

Desta vez, as acusações envolviam a utilização em excesso de presidiárias e prostitutas que, para os críticos, não representavam de forma fiel a sociedade americana da década de 50. A obra ainda causou outro efeito negativo, Kinsey perdeu a bolsa que ganhara dos Rockefellers.

Morte e legado

Apenas 3 anos depois, em 1956, o sexólogo veio à óbito, a causa da morte foi complicações cardíacas. Embora sua saúde já estivesse bastante afetada por seus experimentos particulares. Mesmo que tenha causado polêmica em vida, não é possível retirar a importância de seus estudos contra a repressão sexual de seu país, em uma época tão conservadora.

Alfred lutou para entender os diferentes tipos de desejos humanos e escancarou para sua nação que o sexo, além de ser natural, pode envolver aspectos diversos. O Instituto Kinsey continua a ser valioso para o mundo, trazendo artigos de relevância científica e social ainda nos dias atuais.

A Escala de Kinsey é usada por estudiosos para entender o comportamento sexual dos humanos, provando, mais uma vez, o pioneirismo do sexólogo. O primeiro passo que foi dado ainda na década de 1940 continua repercutindo, com inúmeras pessoas lutando pela liberdade sexual na sociedade contemporânea.


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