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O homem que desistiu de se matar e causou um dos maiores acidentes dos EUA

"Foi como frear de 50 km/h para zero em dois segundos", disse uma das sobreviventes da tragédia que marcou o ano de 2005

Fabio Previdelli Publicado em 02/03/2021, às 17h30

Os trens descarrilhados após a colisão
Os trens descarrilhados após a colisão - Wikimedia Commons

Juan Manuel Alvarez tinha 26 anos quando tudo começou. Na verdade, não seria um começo, mas sim o fim de tudo. O rapaz já havia cortado seus pulsos e se esfaqueado algumas vezes na altura de seu peito.  

O fim de sua dor teria requintes brutais. Para isso, encharcou seu carro, um Jeep Cherokee Sport, com gasolina, que explodiria após a colisão com um metrolink num trecho da linha ferroviária em Glendale, em Los Angeles.  

Porém, na última hora, acabou desistindo de tudo. Mesmo poupando sua vida, outros padecerem. De tão assustadora, a história acabou sendo repercutida por muitos veículos como New York Times, BBC e LA Times.

O acidente 

Era 26 de janeiro de 2005 quando Juan Manuel Alvarez decidiu que se mataria. Sabe-se que ele havia planejado ser atropelado pelo metrolink, que é o sistema ferroviário do Sul da Califórnia. Assim, estacionou na região norte da Área Industrial do centro de Los Angeles.  

Naquele trecho, na parte da manhã, quando seu plano foi posto em prática, o trem Norte 901 (que saia de LA) transportava entre 30 e 50 passageiros. No caminho oposto, o trem 100, que vinha do Sul, levava cinco vezes mais passageiros: entre 200 e 250. Ali seria a zona de conflito. 

Pouco antes das 6h03 da manhã, no horário local, quando tudo aconteceu, Alvarez esperava em seu carro a colisão que o mataria. No entanto, ele desistiu.

Seu carro, entretanto, foi deixado nos trilhos, enxarcado de gasolina. Quando o metrolink 100 colidiu com o veículo utilitário, descarrilhou e acabou atingindo o 901, que vinha na direção oposta. Ouviu-se um estrondo absurdo. "É o pior acidente de trem que eu já vi", disse o capitão dos Bombeiros de Los Angeles Rex Vilaubi

Entre mortos e feridos  

Ao todo, 11 pessoas morreram e cerca de 200 ficaram feridas com a colisão. Como imaginado, parte dos trens começaram a pegar fogo. A mega operação de resgate mobilizou 300 membros do departamento de bombeiros. 

“Eu escutei um estrondo, que foi se tornando cada vez maior”, recorda a sobrevivente Diane Brady, conforme matéria repercutida pela Folha de S. Paulo na época. "Quando dei por mim o trem já tinha tombado e todos gritavam. Esperei um tempo que pareceu uma semana até poder sair. Foi um pesadelo”, completou a senhora que tinha 56 anos quando o acidente aconteceu.  

Para o xerife do condado de Los Angeles, o que havia acontecido era “ultrajante”. Seu sofrimento se tornou ainda maior depois que descobriu que um de seus assessores foi uma das vítimas da colisão. 

A angústia também pairava em George Touma, de 19 anos, que foi até o local procurar sua mãe, que estava em um dos trens e havia conversado com o filho após o choque. "Ela me disse que estava sangrando na cabeça e que sentia dores no braço”, conta. Estou muito preocupado, pois ela sofre de vertigem e eu não consigo localizá-la”. 

Para se ter uma ideia de como foi a tragédia, as equipes de resgate passaram horas procurando sobreviventes. Além disso, inúmeras vítimas foram lançadas a metros de distância após a colisão.

"Foi como frear de 50 km/h para zero em dois segundos", disse uma das sobreviventes, que estava indo para o trabalho, no centro de Los Angeles. "De repente o trem freou e as luzes se apagaram. Andei entre muitas pessoas que não conseguiam se levantar”. 

Os desdobramentos 

Todo aquele evento catastrófico foi visto por Juan, que saltou do veículo antes do caos, conforme descrito pelas autoridades em matéria do New York Times. Quando a polícia chegou ao local, ele estava atônito olhando para tudo e dizendo “me desculpem, me desculpem” sem parar. Além disso, as autoridades o descreveram como mentalmente “perturbado”. 

“Ele estava lá e, do nada, basicamente viu uma luz”, explicou Carmelita Alvarez, segundo o NYT, que era casada com o homem. "Não é a luz do trem. Ele disse que sentiu como se houvesse uma presença de Deus lhe dizendo para ir embora".

Posteriormente, as investigações concluíram que o metrolink 100 colidiu com o Jeep, o que fez com que algumas peças do carro atingissem uma chave de trilhos e ficassem presas sob o vagão da frente, o que causou o descarrilhamento.  

Assim, o trem perdeu o controle e atingiu a locomotiva do 901. Isso fez com que os vagões traseiros do trem que seguia para o norte descarrilassem. Pelo menos um vagão tombou de lado. Já um incêndio, envolvendo um ou mais carros de passageiros, foi causado por óleo diesel derramado. 

Assim, a causa raiz do acidente foi atribuída a Alvarez, que já tinha um histórico suicida. Além disso, outras testemunhas disseram que ele era conhecido por ser usuário de metanfetamina. 

Caos familiar

Na época do acidente de trem, Juan Manuel era pai de dois filhos pequenos e estava passando por dificuldades conjugais. Sua esposa, Carmelita Ochoa, havia entrado com uma ordem de restrição contra ele meses antes do incidente, alegando que o marido havia se tornado errático e ameaçador para ela e os filhos, além de ser extremamente controlador. 

Em 7 de julho de 2008, teve início a audiência de condenação de Juan Manuel Alvarez, sendo que no mesmo ano, Alvarez foi condenado a prisão perpétua, conforme divulgado pelo LA Times.


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