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O homem que é contratado para 'não fazer nada'

Cansado dos empregos tradicionais, Shoji Marimoto decidiu criar uma profissão inusitada

Ingredi Brunato, sob supervisão de Fabio Previdelli Publicado em 27/03/2022, às 09h00

Fotografia de Shoji Morimoto
Fotografia de Shoji Morimoto - Divulgação/ Redes Sociais

O ano era 2018, e Shoji Morimoto, então aos 34 anos de idade, estava desempregado. Ele já havia atuado em inúmeras profissões, mas nenhuma a satisfez. Foi então que o homem japonês teve a ideia para um emprego diferente: "Concluí que talvez fazer algo não fosse bom para mim", relatou ele em uma entrevista à BBC em 2021. 

Em seguida, Morimoto criou uma conta no Twitter em que permite que pessoas o aluguem durante algum número de horas. O serviço oferecido pelo profissional é bem simples: ele não faz nada; apenas come, bebe e dá respostas simples, sem iniciar conversas. 

Apesar dessa descrição limitada de especialidades, o homem logo começou a receber solicitações de clientes. Frequentemente, as pessoas que o procuram desejam simplesmente companhia para fazer compras, ir a algum evento, passear ou fazer uma refeição em algum restaurante

Fotografia de Morimoto durante seu trabalho / Crédito: Divulgação/ Youtube/ CBS

"Algumas pessoas são solitárias. Algumas sentem que é uma pena ir a algum lugar (interessante) sozinhas — elas querem alguém para compartilhar suas impressões", relatou à CBS News em 2022. 

Outro detalhe é que a maior parte das pessoas que o contratam são mulheres, o que ocorreria devido a uma questão cultural, conforme explicado por ele: "As mulheres japonesas tendem a se preocupar com o que os outros pensam e em não sobrecarregar os outros. É exaustivo. Então, ser libertado dessa obsessão é valioso", explicou. 

Outro uso comum para os serviços oferecidos pelo profissional, e, nesse caso, um uso que involve menos interações humanas, é contratá-lo para guardar o lugar em uma fila de um evento lotado. 

Fazendo sucesso no ramo do ócio

A popularidade de Marimoto aumentou ao longo dos anos, chamando atenção tanto da imprensa japonesa quanto da internacional. Em 2021, ele já recebia entre dois e três pedidos por dia. Suas experiências, por sua vez, o inspiraram a escrever quatro livros diferentes e um mangá.

De vez em quando, Shoji recebe um pedido inusitado: certa vez, por exemplo, ele foi contratado para encontrar um homem na linha de chegada de uma maratona do qual ele estava participando, de forma que o cliente se sentiria mais motivado a terminar a corrida. 

Fotografia de Morimoto com o maratonista / Crédito: Divulgação/ Redes Sociais/ Arquivo Pessoal

Em outra ocasião, por sua vez, ele foi chamado para fazer companhia a um homem de negócios que queria se sentar no balanço de um parquinho após o expediente. A presença calma e ociosa de Marimoto também já deu apoio moral a alguém que estava em um processo de divórcio, e serviu de confidente para pessoas que queriam desabafar.

Também em entrevista à CBS, Tamami Miyazaki, um cliente do japonês, explicou porque gostava de contratá-lo para tomar umas bebidas

"Com um amigo, você tem que se preocupar se eles gostam ou não do bar. Mas com o Rental-san [como ele chama Shoji], ele apenas diz, de forma direta, 'sim' ou 'não'. É menos drama do que sair com um amigo", explicou. 

Apesar da variedade de solicitações, que sem dúvida tornam a profissão de Marimoto uma caixinha de surpresas, vale lembrar que ele está alugando seu tempo, acima de tudo, para não fazer nada — de forma que pedidos que incluem muitas tarefas são recusados. 

Entre os exemplos de solicitações rejeitadas pelo profissional, estão ajudar alguém a limpar a casa ou lavar suas roupas; ser um amigo de aluguel; e até mesmo visitar uma casa mal-assombrada. 

Propósito de vida

Em entrevista à BBC, Shoji relatou que estava feliz com a maneira como ganhava a vida, e também achava que fazia seus clientes felizes. 

"Até agora, os clientes parecem viver uma mudança mental positiva depois de me contratar. Eles me dizem que é libertador poder falar com alguém sobre coisas que eles não são capazes de dizer aos outros. Fico surpreso ao ver que tantas pessoas encontram satisfação em contratar alguém que não faz nada”, concluiu. 

Vale dizer que a profissão de não fazer nada inventada pelo japonês já conta com inúmeros imitadores, mas não é um problema: o mercado de não fazer nada tem espaço para todos.