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Matérias / Mundo

O homem que recolocou uma vila 'fantasma' italiana no mapa

Borgo di Ciacca, que um dia fora a casa dos avôs de Cesidio di Ciacca, já estava abandonada havia meio século quando o advogado decidiu reconstruí-la

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 18/06/2022, às 16h51

Fotografia de trecho da vila - Divulgação/ Cesidio di Ciacca/ Arquivo Pessoal
Fotografia de trecho da vila - Divulgação/ Cesidio di Ciacca/ Arquivo Pessoal

Em 1969, faleceu a última moradora de Borgo Di Ciacca, um vilarejo italiano localizado na província de Prosinone, oficializando a situação do local como uma vila fantasma congelada no século 20.

A localidade passou as cinco décadas seguintes inteiramente abandonada antes de um advogado escocês chamado Cesidio di Ciacca decidir torná-la seu projeto pessoal por volta de dez anos atrás.

A iniciativa foi, em parte, para que resgatasse as próprias origens, uma vez que o homem vinha da família cujo nome batizara a vila. Seus avós, Cesidio e Marietta, mudaram-se da aldeia italiana para a Escócia no século 20 em busca de melhores oportunidades de vida.

Havia árvores crescendo dentro de algumas das estruturas. Era impossível aproximar-se muito porque estava completamente coberta de vegetação. E muitas pessoas na cidade vizinha..., na verdade esqueceram que ela sequer existia", relembrou o advogado a respeito do estado do lugar quando o encontrou, conforme repercutido pela CBC. 

O abandono, porém, não desencorajou Cesidio, que conduziu do início ao fim a revitalização de Bordo Di Ciacca, sendo responsável por colocá-la de volta no mapa. 

Burocracia

Para iniciar a reforma, o escocês precisou primeiro comprar a propriedade de 2500 metros quadrados que formava o vilarejo. O terreno contava com 50 residências, tendo servido como lar de 6 famílias no passado, porém a legislação da Itália relativa às propriedades de terra complicou a tarefa do advogado. 

Isso pois a constituição do país termina que terrenos devem ser divididos igualmente entre os filhos dos donos, fazendo com que os herdeiros de um local se multipliquem de geração em geração. 

A aldeia estava fragmentada e dividida entre tantos herdeiros que muitas vezes possuíam apenas um canto de uma casa, um pouco de pasto, floresta ou fazenda, ou apenas uma oliveira”, afirmou ele em entrevista ao programa "As It Happens", da CBC. 

Os 2500 metros quadrados de Bordo di Ciacca estavam fracionados entre 140 proprietários, e Cesidio precisou rastrear um a um para comprar os pedaços de terra.

Por incrível que pareça, embora nenhuma dessas pessoas estivesse fazendo uso do local, nem sempre a oferta do advogado foi aceita imediatamente, uma vez que alguns demonstraram apego emocional à herança abandonada. 

Revitalização

Montagem mostrando o antes e depois de um trecho da aldeia / Crédito: Divulgação/ Cesidio di Ciacca/ Arquivo Pessoal

A restauração em si do local foi a parte mais cara do processo, levando o escocês a questionar seu projeto, descrito por ele como uma "iniciativa maluca", em inúmeras ocasiões. 

Eu me sinto estúpido de certa forma. Por que me incomodei em fazer isso? Mas, na verdade, eu sei que estou realmente orgulhoso. Porque o que foi feito — o que ainda está sendo feito, e, eu suspeito, continuará sendo — é dar esperança para muitas pessoas que, de outra forma, teriam pensado que esse era um lugar esquecido", relatou Cesidio ao programa da CBC. 

Eventualmente, o profissional relatou perceber que aquilo que havia se iniciado como um hobbie precisava se tornar em um negócio para que fosse financeiramente sustentável. 

Assim, ele usou parte do terreno para criar uma fazenda produtora de vinho, azeite de oliva extra virgem, mel e geleias, tudo de forma ecologicamente consciente. Ela é administrada por Sophie di Ciacca, a filha do escocês, que é comprometida com "um futuro orgânico e sustentável", segundo revela o site oficial da vila italiana. 

Fotografia de Cesidio com esposa e filhos / Crédito: Divulgação/ Cesidio di Ciacca/ Arquivo Pessoal

Entre 2017 (o ano da primeira colheita) e 2022, Bordo di Ciacca chegou a ganhar três prêmios internacionais devido ao seu vinho, atraindo a atenção de outros países, que passaram a exportar a bebida produzida no vilarejo. 

Além das plantações, as reconstruções foram renovadas e remobiliadas com móveis de estilo antigo, tendo sua decoração original mantida. O local conta ainda com um centro cultural com biblioteca, um pomar social e uma cantina.

Ainda segundo as informações da CNN, existe ainda uma ampla cozinha onde o advogado pretende que ocorram as aulas voltadas para a culinária tradicional italiana da escola gastronômica que quer abrir. 

Dessa forma, a aldeia tornou-se ideal para abrigar pessoas querendo fugir da civilização durante algum tempo, abraçando o estilo de vida bucólico. Este grupo, aliás, inclui o próprio Cesidio, que criou o hábito de passar a maior parte do ano morando na localidade, juntamente de sua esposa, filhos e netos.