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Depressão, injustiça e oposição: As tragédias da Rainha Maria I

Enquanto governava Portugal, a monarca realizou grandes feitos, mas acabou sofrendo com as mentiras dos opositores

André Nogueira Publicado em 06/04/2020, às 08h00 - Atualizado em 13/08/2021, às 08h00

Retrato da Rainha Maria I
Retrato da Rainha Maria I - Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Enquanto a Europa era inundada por ideais contrários ao absolutismo, a então monarca de Portugal, Dona Maria I, liderou um estrondoso império em decadência. Com forte princípio na tradição bragantina de uma monarquia e dona de uma crença católica fervorosa, Maria foi, por exemplo, uma das maiores oposições a Napoleão no início.

Com o passar dos anos, contudo, a mulher assistiu aos seus atos serem sobrepostos pela depressão e por narrativas criadas pela oposição. Com isso, ela entrou para a história com um apelido injusto e que pouco lhe representava: o de 'Rainha Louca'. 

Primogênita de Dom José I, Maria tornou-se rainha em 1777, com a morte de seu pai. Nascida em 1734, ela era Princesa da Beira e teve uma formação aristocrática. Quando seu pai assumiu, em 1750, a herdeira passou a ter o título de Princesa do Brasil.

Seu governo, desde a coroação, foi comparativamente curto. Ligada à defesa da aristocracia clássica, Maria assistiu o momento em que seu reinado entrou em choque com as reformas que Portugal enfrentou durante a ascensão do Marquês de Pombal

Maria I quando ainda jovem / Crédito: Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

Intriga da oposição

O atrito entre a aristocracia representada por Maria I e o despotismo esclarecido de Pombal pressionava por uma mudança do quadro político, coisa que a rainha claramente não aceitava. Por isso, no fim de seu governo e depois que ela foi derrubada em 1792, a Corte Portuguesa a impediu de participar de assuntos políticos.

Maria passava por dificuldades psicológicas. Segundo Mary del Priori, autora de 'D. Maria I: As perdas e as glórias da rainha que entrou para a história como “a louca"', a rainha passava por um complexo quadro de depressão na época. Após enfrentar, em pouco tempo, a morte do marido, do tio, da filha D. Mariana, do genro, do filho mais velho José e do amigo Frei Inácio — a quem ela confessava — sua cabeça não foi mais a mesma.

A imagem que ficou deles [Maria, Dom João e Dom Pedro] foi obra dos republicanos, tanto em Portugal quanto no Brasil. Queriam enxovalhar a família imperial. Por isso, essas figuras acabaram tão ridicularizadas", narra a historiadora.

"Ainda sabemos muito pouco sobre elas, mas à medida que documentações e arquivos vão sendo descobertos, constatamos que essas pessoas realmente tiveram grande importância na nossa história”, afirma del Priori, em entrevista ao portal UAI.

Longe de ser louca, a rainha fora prejudicada por seu quadro, que foi usado pela oposição, que já se sentia incomodada com uma mulher no poder absoluto do Império. Abalada, retiraram a monarca dos negócios públicos e colocaram seu filho, Dom João, na administração do governo (até 1799, quando passou a governar como Príncipe Regente).

Maria I ao lado de Pedro III, Rei de Portugal e Algarves / Crédito: Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

Uma das figuras na Corte mais aliadas a Maria era a consorte do Regente, Carlota Joaquina, com quem a rainha conversava por horas, trocando experiências. Além da convicção em relação ao absolutismo, ambas compartilhavam frustrações em relação ao mundo patriarcal monárquico e âmagos em relação ao respeito que não tinham por elas. Porém, diferente de Carlota, a mãe de D. João tinha sentimentos reais pelo marido.

Dona Maria I tinha todos os sintomas da depressão: tristeza constante, profunda e incapacitante, perda de autoconfiança, sentimento de vazio, irritabilidade, distúrbios do sono, fadiga, isolamento, e, o mais importante, sentimento de culpa e de inutilidade”, reafirma Mary del Priori. "Dona Maria ficou muito desesperada quando perdeu o companheiro."

Governo de louco?

Maria I governou com base em três compromissos: mobilizar a vida pública (ao modernizar o Estado), criar melhorias no campo em favor do progresso e realinhar a relação da sociedade portuguesa com Deus, reparando as ofensas que sofreu.

Seu governo passou por um momento diplomático apertado: ela assumiu enquanto Portugal estava em guerra com a Espanha no sul do Brasil e quando as relações entre o país, Inglaterra e as colônias estavam complicadas.

Ambas as questões foram solucionadas, primeiramente com os Tratados de Santo Ildefonso (1777), em que realinhou as relações com a monarquia espanhola, e depois, assumindo uma posição neutra em relação à Independência dos EUA, entrando em acordo com a Rússia em favor de uma Neutralidade Armada.

Maria I em um de seus vestidos extravagantes / Crédito: Getty images

 

Com suas reformas, mudanças internas chegaram a níveis até radicais, como, por exemplo, todos os presos que pareciam dignos de soltura foram perdoados. 

Foram postas restrições ao monopólio da Companhia do Vinho do Porto e abolida a Companhia do Grão-Pará e Maranhão. Foi colocada no lugar a Junta da Administração de Todas as Fábricas deste Reino e Águas Livres, que fomentou a manufatura.

Fato é que Maria I foi muito popular, e sua queda foi muito sentida pela população, tal qual a fuga da Família Real em 1807. Segundo del Priori, “ela não era uma rainha Elizabeth, que ficava passeando de carruagem dourada pelas ruas. Dona Maria gostava do povo, fazia questão de circular entre as pessoas e de participar de manifestações religiosas como procissões, missas”. Desde criança, a rainha tinha uma boa relação com os pobres, distribuindo moedas pela capital lusitana.

Seu governo também foi responsável por um relevante impulso à cultura. Entre as diversas instituições fomentadas pela Coroa, podemos destacar a Real Academia das Ciências de Lisboa, a Aula Pública de Debucho e Desenho, a Aula Régia de Desenho de Lisboa, a Real Casa Pia de Lisboa, a Academia Real de Marinha e a Real Biblioteca Pública de Lisboa, além de hospitais na Europa e no Brasil.

Os seus últimos dias foram trágicos. Extremamente religiosa, ficou obcecada pela ideia de que estavam no inferno. Dormia só de três a quatro horas por noite e corria de madrugada pelo palácio. Acabou parando na camisa de força e tratada com banhos de água gelada. Morreu em 1816, no Rio de Janeiro, o que possibilitou seu filho se tornar Dom João VI, rei de Portugal.


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D. Maria I - A vida notável de uma rainha louca, de Jenifer Roberts (2012) - https://amzn.to/2QIljbe

A fundação da monarquia portuguesa, de Antônio A. T. Vasconcelos (2012) - https://amzn.to/2QH1jWD

Carta à rainha louca, de Maria Valéria Rezende (2019) - https://amzn.to/3aYLFwU

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