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O inferno de Dona Maria I, a rainha portuguesa que nunca foi louca!

A figura lusitana teve um governo marcado por melhorias incomparáveis, entretanto, uma depressão e as calúnias dos opositores a prejudicaram imensamente

André Nogueira Publicado em 06/04/2020, às 08h00

Retrato da Rainha Maria I com a Coroa, de um artista desconhecido do século 18
Retrato da Rainha Maria I com a Coroa, de um artista desconhecido do século 18 - Getty Images

Maria I foi monarca de Portugal, liderando um estrondoso império em decadência, em pleno surgimento dos ideais contrários aos absolutismos na Europa. Com forte princípio na tradição bragantina de monarquia e católica fervorosa, Maria foi, por exemplo, uma das maiores oposições a Napoleão no início, e passou para história, injustamente, como a Rainha Louca.

A soberana era primogênita de Dom José I, e se tornou rainha em 1777, com a morte de seu pai. Nascida em 1734, ela era Princesa da Beira e teve uma formação tipicamente aristocrática. Quando seu pai assumiu, em 1750, passou a ter o título de Princesa do Brasil.

Seu governo foi comparativamente curto. Ligada à defesa da aristocracia clássica, o reinado de Maria entrou em choque das reformas que Portugal enfrentou durante a ascensão do Marquês de Pombal

A princesa da Beira, em 1739 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Intriga da oposição

O atrito entre a aristocracia representada por Maria I e o despotismo esclarecido de Pombal pressionava por uma mudança do quadro político, coisa que a rainha claramente não aceitava. Por isso, no fim de seu governo e depois que ela foi derrubada em 1792, a Corte Portuguesa a impediu de participar de assuntos políticos.

Maria passava por dificuldades psicológicas. Segundo Mary del Priori autora de D. Maria I: as perdas e as glórias da rainha que entrou para a história como “a louca", a rainha passava por um complexo quadro de depressão na época: após enfrentar, em pouco tempo, a morte do marido, do tio, da filha D. Mariana, do genro, do filho mais velho José e do amigo Frei Inácio — a quem ela confessava. Sua cabeça não foi mais a mesma.

 “A imagem que ficou deles [Maria, Dom João e Dom Pedro] foi obra dos republicanos, tanto em Portugal quanto no Brasil. Queriam enxovalhar a família imperial. Por isso, essas figuras acabaram tão ridicularizadas. Ainda sabemos muito pouco sobre elas, mas à medida que documentações e arquivos vão sendo descobertos, constatamos que essas pessoas realmente tiveram grande importância na nossa história”, afirma del Priori em entrevista ao portal UAI.

Longe de ser louca, a rainha fora prejudicada por seu quadro, que foi usado pela oposição, que já se sentia incomodada com uma mulher no poder absoluto do Império. Abalada, retiraram a monarca dos negócios públicos e colocaram seu filho, Dom João, na administração do governo (até 1799, quando passou a governar como Príncipe Regente).

Dona Maria I de Portugal / Crédito: Wikimedia Commons

 

Uma das figuras na Corte mais aliadas a Maria era a consorte do Regente, Carlota Joaquina, com quem a rainha conversava horas afins, trocando experiências. Além da convicção em relação ao absolutismo, ambas compartilhavam frustrações em relação ao mundo patriarcal monárquico e âmagos em relação ao respeito que não tinham por elas. Porém, diferentemente de Carlota, a mãe de D. João tinha verdadeiros sentimentos pelo marido.

"Dona Maria I tinha todos os sintomas da depressão: tristeza constante, profunda e incapacitante, perda de autoconfiança, sentimento de vazio, irritabilidade, distúrbios do sono, fadiga, isolamento, e, o mais importante, sentimento de culpa e de inutilidade”, reafirma Mary del Priori. "Dona Maria ficou muito desesperada quando perdeu o companheiro”.

Governo de louco?

Maria I governou com base em três compromissos: mobilizar a vida pública (modernizando o Estado), criar melhorias no campo em favor de um maior progresso e realinhar a relação da sociedade portuguesa com Deus, reparando as ofensas que sofreu.

Seu governo passou por um momento diplomático apertado: ela assumiu enquanto Portugal estava em guerra com a Espanha no sul do Brasil e quando as relações entre o país, Inglaterra e as colônias estavam complicadas. Ambas as questões foram solucionadas, primeiramente com os Tratados de Santo Ildefonso (1777), em que realinhou as relações com a monarquia espanhola, e depois, assumindo uma posição neutra em relação à Independência dos EUA, entrando em acordo com a Rússia em favor de uma Neutralidade Armada.

Marquês de Pombal / Crédito: Wikimedia Commons

 

Com suas reformas, mudanças internas chegaram a níveis até radicais, como, por exemplo, todos os presos que pareciam dignos de soltura foram perdoados. 

Foram postas restrições ao monopólio da Companhia do Vinho do Porto e abolida a Companhia do Grão-Pará e Maranhão. Foi colocada no lugar a Junta da Administração de Todas as Fábricas deste Reino e Águas Livres, que fomentou a manufatura.

Fato é que Maria I foi muito popular, e sua queda foi muito sentida pela população, tal qual a fuga da Família Real em 1807. Segundo Del Priori, “ela não era uma rainha Elizabeth, que ficava passeando de carruagem dourada pelas ruas. Dona Maria gostava do povo, fazia questão de circular entre as pessoas e de participar de manifestações religiosas como procissões, missas”. Desde criança, a rainha tinha uma boa relação com os pobres, distribuindo moedas pela capital lusitana.

Seu governo também foi responsável por um relevante impulso à cultura. Entre as diversas instituições fomentadas pela Coroa, podemos destacar a Real Academia das Ciências de Lisboa, a Aula Pública de Debucho e Desenho, a Aula Régia de Desenho de Lisboa, a Real Casa Pia de Lisboa, a Academia Real de Marinha e a Real Biblioteca Pública de Lisboa, além de hospitais na Europa e no Brasil.

Os seus últimos dias foram trágicos. Extremamente religiosa, ficou obcecada pela ideia de que estavam no inferno. Dormia só de três a quatro horas por noite e corria de madrugada pelo palácio. Acabou parando na camisa de força e tratada com banhos de água gelada. Morreu em 1816, no Rio de Janeiro, o que possibilitou seu filho se tornar Dom João VI, rei de Portugal.


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D. Maria I - A vida notável de uma rainha louca, de Jenifer Roberts (2012) - https://amzn.to/2QIljbe

A fundação da monarquia portuguesa, de Antônio A. T. Vasconcelos (2012) - https://amzn.to/2QH1jWD

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