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Raya e Sakina, as irmãs que aterrorizaram o Egito

No início do século 20, enquanto o mundo passava pela Primeira Guerra Mundial, as duas mulheres se cercaram de prostituição e assassinatos

Pamela Malva Publicado em 25/05/2020, às 08h00

As irmãs assassinas
As irmãs assassinas - Divulgação

Para muitos moradores de al-Labban, em Alexandria, no Egito, o perfume de incensos era algo comum. Ainda mais se passassem na frente da casa de Raya. A mulher era conhecida por essa prática e sempre infestava sua rua com os mais diversos odores.

Não se imaginava, no entanto, que o motivo para todos aqueles incensos era muito mais obscuro do que o rosto tranquilo da mulher indicava. Em pouco tempo, descobriu-se que Raya e sua irmã, Sakina, estavam envolvidas em uma história insólita.

As duas foram criadas pela mãe narcisista em um bairro pobre no Alto Egito. Raya nasceu por volta de 1875 e Sakina veio na década seguinte. As duas tiveram o gostinho das responsabilidades muito novas e, ainda adolescentes, tinham que contribuir com a renda da casa.

De vez em quando, quando tinha vontade, a mãe trazia algum dinheiro proveniente de roubos e pequenos furtos. Conforme o tempo passava, assim ela decidia sair às ruas para saquear pessoas da alta burguesia, as meninas iam com ela.

Sakina e Raya, respectivamente / Crédito: Wikimedia Commons

 

Com o dinheiro curto e poucas possibilidades de emprego, Sakina começou a se prostituir. Em pouco tempo, no entanto, cansada com sua vida miserável, ela se casou e mudou-se para a cidade de Tanta.

Entre idas e vindas, relacionamentos fracassados, prostituição e uma internação por doenças venéreas, Sakina casou-se mais duas vezes. O último casório, em 1916, foi com Muhammad ‘Abd al-’Al.

Nesse meio tempo, Raya continuava em casa. Ela se casou uma vez e, quando o marido morreu, foi viver com seu cunhado, Hasab Allah — coisa pouco comum na época. As duas, unidas novamente, decidiram começar a vida em Alexandria, a Pérola do Mediterrâneo.

A origem das duas mulheres, no entanto, dificultou que elas conseguissem um emprego comum. As irmãs eram consideradas Sa’idis, pessoas mais pobres e com menos oportunidades que as naturais de Alexandria, por sua pele mais escura e o sotaque acentuado.

Imagem meramente ilustrativa de pessoas andando em uma rua / Crédito: Getty Images

 

Com essa discriminação e a Primeira Guerra Mundial explodindo lá fora, as duas perceberam que sua melhor chance de conseguir qualquer renda era através da prostituição. Assim, uma vez estabelecidas em al-Labban, construíram um bordel.

As duas aproveitaram que um acampamento britânico ficava nas proximidades e sabiam que os militares estariam loucos por bebida, drogas e mulheres. Logo, o prostíbulo das irmãs — que funcionava em segredo — ficou famoso e recebeu o apelido de O Acampamento.

Por três anos, as duas ganharam dinheiro fazendo as próprias regras — já que seus maridos estavam servindo na guerra. As meninas que trabalhavam com Raya e Sakina ganhavam tanto dinheiro que andavam pelas ruas com largas pulseiras de ouro e colares de pedras.

Com o fim da Guerra, o mundo inteiro comemorou, menos as duas irmãs. Para elas, o fim do conflito significava que os militares iriam embora e o bordel cairia no esquecimento. E pior ainda: seus maridos voltariam para casa e tentariam assumir o negócio.

Logo que os maridos colocaram as mãos no Acampamento, ele foi fechado devido a seus tempos de clandestinidade. Raya e Sakina se aliaram a Amina bint Mansur, a dona de um café com um acordo simples: enquanto Amina vendia haxixe no primeiro andar, as irmãs tentavam atrair clientes para o segundo.

Assim que esse segundo negócio também foi fechado, as irmãs passaram a trabalhar em suas próprias casas. A essa altura, as prostitutas viraram devedoras, já que o dinheiro era pouco e o acordo funcionava como uma troca de serviços. Tudo isso enquanto impunham respeito na vizinhança, tendo o apoio dos futuwwa, uma espécie de máfia da época.

Foi apenas no final de 1920 que os famosos incensos de Raya começaram a chamar atenção de seus vizinhos. Não porque seu cheio era enjoativo, mas porque eles já não desempenhavam seu papel direito. A polícia começou a receber diversas queixas de um odor forte e pútrido vindo da casa da irmã mais velha.

Um pouco longe dali, no início de novembro, um jovem chamado Ahmad começava obras de esgoto na casa de sua tia, em Makoris. Enquanto cavava o piso de um dos quartos, sua pá bateu em algo duro e, ao investigar melhor, se deparou com um braço humano.

Imagem meramente ilustrativa de incenso / Crédito: Getty Images

 

Quando a polícia chegou, Ahmad os informou que a antiga moradora da casa chamava-se Sakina. Ela tinha sido despejada um mês antes. Quase ao mesmo tempo, outros oficiais investigavam a fonte do odor na casa das irmãs, em al-Labban. Debaixo das tábuas do assoalho, os oficiais encontraram vários cadáveres enterrados.

Em seu testemunho, Sakina tentou mentir, como sempre fazia. No entanto, em outra sala, Raya, ao saber que corpos foram encontrados em seu quarto, assumiu todos os crimes e as duas irmãs foram presas. Ao todo, dezessete cadáveres foram ligados as duas, incluindo corpos encontrados na propriedade de Amina bint Mansur.

Os assassinatos

Durante muito tempo, imaginou-se que Raya e Sakina ceifavam vidas por dinheiro e joias. Todavia, o o mais provável é que elas simplesmente matavam quem fosse contra as opiniões de Raya, que era quem tomava as decisões. O modus operandi da dupla era simples e contava com mais algumas ajudinhas.

Quando elas decidiam matar alguém, as irmãs davam à pessoa um cálice lotado de vinho e drogas e contavam com a ajuda dos maridos e dos futuwwa. Uma pessoa colocava um pano molhado na boca da mulher desacordada, duas seguravam seus membros e a quarta estrangulava a vítima até a morte.

A partir das investigações e dos interrogatórios, o tribunal determinou que a gangue era formada pelas duas irmãs, seus maridos e dois futuwwa, chamados ‘Urabi Hassan e ‘Abd al-Raziq Yusuf. Em seu testemunho, própria filha de Raya com Hasab testemunhou que, por vezes, viu seu pai misturando um pó branco nas bebidas que oferecia aos visitantes.

Imagem meramente ilustrativa de copo de vinho envenenado / Crédito: Getty Images

 

O julgamento

Todos os envolvidos foram a julgamento em maio de 1921. Depois de longas discussões sobre o destino que as duas teriam, o tribunal chegou a uma decisão. Mesmo que nenhuma mulher tivesse recebido a pena de morte anteriormente, seis delas foram proferidas no caso: para as duas irmãs, seus maridos e os dois futuwwa.

Na manhã de 21 de dezembro e 1921, os policiais foram buscar Sakina em sua cela. Quando ouviu sua sentença ser proferida, a mulher vociferou: “Eu matei. Mas tudo bem, porque eu enganei o governo de al-Labban”. Em seguida, enquanto era entregue ao carrasco, ela proferiu palavras que ficariam marcadas em sua história: “Fiz coisas que nem mesmo homens são capazes de fazer”.

De repente, mesmo depois de serem enforcadas, as duas irmãs deixaram de ser assassinas e, aos olhos da população, viraram heroínas que iam contra o sistema. Nos anos que se seguiam, as duas foram retratadas em peças, filmes, livros e programas de TV. Hoje, no entanto, elas voltaram a representar o medo dos egípcios e seus rostos voltaram a aterrorizar crianças.

A prisão das duas irmãs inflamou diversas discussões morais no Egito. Enquanto muita gente pensava que elas mostravam como a polícia não estava presente da forma que prometia estar, outros problematizavam a independência feminina, dizendo que, caso as mulheres não estivessem pelas ruas, trabalhando, elas não teriam caído nas garras de Raya e Sakina.


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