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O legado da União Soviética

Da influência durante a Segunda Guerra Mundial, até o regime personalista de Putin, entenda os bastidores da política russa

Diego Antonelli Publicado em 05/12/2021, às 10h00

Lenin, Trotsky e Kamenev comemorando o 2º aniversário da Revolução de Outubro
Lenin, Trotsky e Kamenev comemorando o 2º aniversário da Revolução de Outubro - Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Criada em 1922, a União Soviética exerceu papel decisivo na vitória contra o nazifascismo durante a Segunda Guerra Mundial. “Já no pós-guerra, ao mesmo tempo em que intervinha, inclusive militarmente, para a manutenção dos regimes aliados no Leste Europeu, foi uma voz importante na luta anticolonialista, especialmente na África e na Ásia”, considera César Albuquerque, doutorando em História Social na Universidade de São Paulo — USP. O especialista ressalta ainda a notoriedade dos soviéticos no século 20.

“Seus esforços foram decisivos para o desenvolvimento de diversas áreas científicas e tecnológicas”, lembra, mencionando como exemplo conquistas aeroespaciais, em que a URSS rivalizava com os Estados Unidos durante a Guerra Fria.

Para Vicente Ferraro, também da USP, apesar da política autoritária, o Estado socialista contribuiu especialmente para o pluralismo da ordem mundial e a difusão do sistema de bem-estar social. “Foi um contrapeso à hegemonia norte-americana intervencionista”.

Segundo o estudioso, as elites socioeconômicas de países capitalistas temiam o alastramento de revoluções comunistas com o auxílio da União Soviética em seus territórios e passaram, portanto, a consentir com um modelo de Estado que não se restringia a direitos políticos e civis, mas também incorporava direitos e políticas sociais voltados à amenização de contradições sistêmicas, da pobreza e das desigualdades.

Em outras palavras, parte dos avanços do sistema de bem-estar social no mundo teve relação com a ‘ameaça soviética’”, comenta.
Fotografia de Vladimir Putin / Crédito: Getty Images

 

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O que mudou?

A transição foi conturbada. “Apenas nos anos 2000, no governo de Vladimir Putin, é que a Rússia apresentou uma recuperação econômica, beneficiada pela valorização do petróleo e do gás no mercado internacional, e restabeleceu parte de seu papel como potência militar”, revela Vicente Ferraro.

O historiador, contudo, não deixa de destacar as tensões da década, quando o país adotou um posicionamento mais contundente e belicoso frente ao Ocidente, evidenciadas no conflito com a Geórgia em 2008 e na crise da Ucrânia em 2014, além da sua atuação em regiões fora do entorno imediato, como na Síria, Venezuela e em alguns conflitos africanos. Em relação à política interna, houve uma nova concentração de poder, com reformas centralizadoras, antiliberais e autoritárias.

“Assim como na URSS, em que o Partido Comunista estava acima de todos, hoje, a figura do presidente é, por vezes, concebida como um metapoder. Antes, havia um regime partidário, com a legitimação na ideologia comunista. Hoje, há um regime personalista, em que o próprio Putin, com o argumento da manutenção da ordem e estabilidade, é a fonte de legitimação", narra o historiador.

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Para César Albuquerque, é importante reforçar que a Rússia atual é um país capitalista integrado à economia mundial e com forte presença do setor privado. “Não existe mais um regime de partido único ou qualquer vinculação ideológica oficial ao socialismo — o Partido Comunista nem sequer fez parte do poder executivo russo desde 1991”, diz.

Já a Igreja Ortodoxa, alvo de intensa propaganda contrária por parte dos líderes soviéticos, vem ganhando espaço e protagonismo nos debates políticos e sociais do país, com anuência das lideranças atuais.

“Muitos oligarcas, como são conhecidos os membros da elite econômica que controlam as grandes empresas russas desde seu polêmico processo de privatização, ocuparam no passado posições de liderança na burocracia da URSS”, revela César.