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O legado de Fidel Castro no aniversário de 4 anos de sua morte

Conversamos com o especialista em América Latina Alexandre Barbosa para entender a herança que o líder revolucionário deixou para o continente e para o mundo; afinal, a história o absolverá?

Isabela Barreiros Publicado em 25/11/2020, às 11h00

O líder cubano Fidel Castro
O líder cubano Fidel Castro - Getty Images

Entre as diversas interpretações do livro Cem anos de solidão de Gabriel García Márquez, publicado em 1967, uma é a de que o autor escreveu uma metáfora para a situação da América Latina como um todo. Repleta de corrupção e dominada por capital estrangeiro, todos os ciclos da região pareciam acabar em uma eterna solidão.

Esse parecia ser o destino da América Latina: a solidão. Desde quando o continente foi “conquistado”, integrado à engrenagem mundial, ele sempre tentou escapar de seu destino, aparentemente inevitável, de ser a periferia do mundo. Nesta tarefa, ele sempre foi derrotado. 

O horizonte de perspectivas mudou completamente quando Cuba tentou traçar um caminho diferente, liderada por um grupo revolucionário composto por muitas pessoas, mas em especial por Fidel Castro e Che Guevara. A pequena ilha caribenha tentou “escapar dessa eterna solidão latinoamericana”. 

Che Guevara e Fidel Castro em Havana, em 1958 / Crédito: Getty Images

 

É o que explica Alexandre Barbosa, Doutor em Ciências da Comunicação e especialista em América Latina, em entrevista à Aventuras na História. Para ele, a Revolução Cubana de 1959 foi responsável por inspirar outras revoluções na América Latina e continua influenciando muitas ações no continente até os dias de hoje.

Fidel Castro é o expoente desse movimento”, esclarece. Há quatro anos, o líder cubano faleceu aos 90 anos de idade e sua morte causou um turbilhão de pensamentos em Cuba e no mundo: aquele poderia ser o fim de um capítulo longo na história na ilha caribenha. Segundo Barbosa, foi “um misto de sentimentos”. 

“É muito difícil falar como os cubanos viam Fidel Castro”, afirma o pesquisador. “Ele já sofria o desgaste pelo longo tempo que estava no poder, mas ainda assim a visão de quem viveu Cuba antes da revolução e de quem já nasceu dentro dela eram diferentes”. Enquanto os primeiros geralmente tinham uma imagem mais positiva do líder, entusiastas dos ganhos da revolução, os segundos já apresentavam mais críticas ao regime.

O cenário era ambíguo, com “muita gente triste pela passagem de uma pessoa que foi uma liderança tão importante para a história de Cuba e outros pensando nas possibilidades de Cuba ir além de Fidel Castro”. Apesar disso, Fidel se apresentava como algo maior que um homem: ele era um dos representantes de um momento importante na história da América Latina.

Os grandes líderes da Revolução Cubana, como Camilo Cienfuegos, Che Guevara, — que não sobreviveram muito tempo após a conquista —, e Castro se tornaram personagens quase míticos da história da ilha. Guevara, por exemplo, é uma figura muito mais mitológica para os cubanos do que o próprio Fidel, e sua imagem romântica, de um homem que morreu jovem, lutando por seus ideais, continuará por muito tempo.

Fidel Castro / Crédito: Wikimedia Commons

 

Fidel viveu até seus 90 anos de idade e realizou muitas ações ao longo de sua vida. Por sua experiência na ilha caribenha, fez-se uma figura a qual todos se voltariam para uma opinião em situações difíceis. “Não no sentido de Fidel, a pessoa em si, mas no sentido de o que Cuba faria diante de uma situação como essa”, explica Barbosa.

“Concordemos ou não com tudo o que Fidel fez, não há como negar que ele foi uma das figuras mais importantes do século 20”, diz o pesquisador. Para ele, isso é um fato porque o líder revolucionário “moveu corações e mentes” e que “durante um período em que o mundo ficava dividido entre os mocinhos e bandidos, ele era um farol para quem se julgava o mocinho”. 

Onde o cubano se encontra nessa régua de mocinhos e bandidos? É uma pergunta difícil de se responder. Como elucida o especialista, Fidel é uma figura histórica importante cujas ações e pensamentos devem ser estudados. “Ele não tem que ser apedrejado nem endeusado, tem que ser estudado, lido”, afirma.

“Você pode ter críticas à forma como a economia cubana é gerida, à forma como o Partido Comunista cubano governa, mas mesmo quem é muito crítico a essas medidas cubanas a vê como um exemplo de coisas que a América Latina tentou fazer e não conseguiu”, explica Barbosa. “Ela ainda é, mesmo após a morte de Fidel Castro, uma espécie de farol do sentimento de solidariedade, de fraternidade, do que seria a América Latina unida”.

Fidel foi uma das pessoas que acendeu esse farol — mas não a única. É por isso que o especialista afirma que temos que olhar para o legado não exatamente dele, mas sim para a herança deixada por esse ciclo pelo qual países latinoamericanos e da periferia do mundo passaram. 

“Nós, latinoamericanos personalizamos muito, para o bem e para o mal, o que faz muito parte da nossa historiografia. Olhamos muito para nomes e datas”, explica. Para ele, é preciso perceber o líder como parte de um movimento em um período da história da América Latina em que ela tentou andar com as suas próprias pernas, passível de críticas e elogios. 

A América Latina ainda é um continente de veias abertas, como afirmava Eduardo Galeano em 1971, mas o que Fidel fez na ilha choca até mesmo quem não gosta dele. Cuba tem índices elevados de educação, em que quase 100% da população é alfabetizada, é um gigante nos esportes e tem uma resiliência enorme para um país que sobrevive a um bloqueio econômico de décadas. No entanto, existem muitas críticas sobre o regime ainda vigente. A história o absolverá? Quatro anos após sua morte, ainda é impossível responder.


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