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“O maior erro da justiça e imprensa”, diz filho de donos da Escola Base, 26 anos depois

Em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História, Ricardo Shimada relembra o escândalo que acabou com a vida de seus pais, Maria Aparecida e Icushiro Shimada

Fabio Previdelli Publicado em 18/11/2020, às 17h00

Paula Milhin, Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada durante entrevista sobre o caso Escola Base
Paula Milhin, Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada durante entrevista sobre o caso Escola Base - Divulgação

O ano letivo parecia começar como qualquer outro naquele março de 1994. Logo pela manhã, Maurício Monteiro Alvarenga passava de casa em casa recolhendo as crianças para levar até a Escola de Educação Infantil Base, localizada no bairro da Aclimação, em São Paulo. 

O colégio era gerido pelo casal Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada, que haviam assumido o controle do centro de ensino quando o mesmo ainda estava em decadência, em 1992, com apenas 17 alunos, sendo que a grande maioria já havia decidido não renovar suas matrículas para o ano seguinte. 

Passados dois anos, entretanto, a Escola Base, como era popularmente conhecida, já contava com 72 estudantes. O colégio, então, passou a ser visto com apreço pelos pais dos alunos. Conforme o número de matriculados crescia, os proprietários planejavam mais investimentos no local, como reformas e a compra de equipamentos.  

Fachada da Escola Base / Crédito: Divulgação/ Documentários Escola Base 20 anos depois

 

Tudo parecia estar indo tudo bem. O magistério era o grande sonho e a vocação de Maria Aparecida. Formada em letras, ela achou que era hora de depender do seu próprio negócio quando decidiu entrar de cabeça na gestão da Escola Base.  

Para ajudar na educação dos alunos, ela convidou sua prima, Paula Milhin de Monteiro Alvarenga para lecionar no espaço. Paula, que era casada com Maurício — o motorista — já dava aulas em uma escola infantil, foi nesse momento que surgiu a oportunidade de construir uma sociedade com Shimada

No entanto, as coisas logo mudaram de cenário quando Lúcia Eiko Tanoue e Cléa Parente de Carvalho denunciaram Icushiro e Maria Aparecida por abusarem sexualmente de seus filhos. “A primeira reação deles foi de surpresa”, conta o filho do casal, Ricardo Shimada, em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História. 

Manchete sobre o caso Escola Base / Crédito: Divulgação/ Documentários Escola Base 20 anos depois

 

“Como não tinham nada a esconder, deixaram que os policiais entrassem na escola. Logo depois que os policiais saíram, ficaram abismados com acusação”, revela. “Para eles, aquilo havia sido um engano que se esclareceria rápido”. 

As acusações 

Segundo acusações de Lúcia e CléaIcushiro, Maria Aparecida, Paula e Maurício faziam orgias com as crianças de quatro anos de idade no apartamento de Saulo e Mara Nunes, pais de um dos alunos da Escola Base.  

O caso foi investigado pelo delegado Edélcio Lemos, que decidiu levar as crianças para um exame no Instituto Médico Legal (IML). Além disso, Lemos também conseguiu um mandato de busca e apreensão para averiguar o apartamento onde as crianças estariam sendo molestadas. Mas, nada foi encontrado.  

Indignadas, as mães foram até a Rede Globo. O caso explodiu. A mídia não parava de falar sobre o assunto, que virou referência nacional. Apesar do laudo inconclusivo do IML, Edélcio deu declarações dúbias à imprensa. Naquele momento, os olhos populares já condenavam o grupo.  

A casa de Mauricio, um dos acusados, foi alvo de depredação / Crédito: Divulgação

 

“A justiça brasileira tem falhas e brechas que se usadas por pessoas de má índole acabam prejudicando sempre as pessoas com menos conhecimento nas leis, como no caso dos meus pais”, fala Ricardo. “Eles foram assistidos por um advogado criminal e um cível excelentes, caso contrário, nas mãos do delegado usando a ‘Justiça’, meus pais teriam sido mais massacrados do que já tinham sido”. 

Péssima cobertura

Antes mesmo de uma certeza sobre a condenação ou absolvição, a mídia parecia ter seu veredito. “Kombi era motel na escolinha do sexo”, dizia a chamada do Notícias Populares.  

Shimada acredita que a cobertura do caso foi um tanto inocente e ingênua, se deixando levar somente pelas declarações do delegado. "Alguns veículos de impressa foram com muita sede ao pote”.

A manchete do Notícias Populares sobre o caso/ Crédito: Divulgação

 

Pare ele, a falta de apuração da versão de sua família foi crucial para o desdobramento do caso. “A imprensa não foi verificar, de fato, se era ou não verdade. Fazendo isso, acabaram com a vida, literalmente, não só dos seis acusados (meus pais, o casal de sócios, e o casal de pais), mas também com a dos filhos, tios tias e irmãos de todos eles”. 

Ricardo acredita que todo esse sensacionalismo aconteceu pois, na época, a imprensa estava há um bom tempo sem cobrir qualquer reportagem de impacto midiático. Assim, eles preferiram seguir a “o egocentrismo do delegado, que queria se aparecer ou talvez estivesse em busca de uma promoção. Quem sabe?”. 

Após o desastre

Apesar de todo o julgamento popular, as provas que inocentavam os envolvidos começaram a aparecer. Após a prisão preventiva de Saulo e Mara, seus advogados de defesa tiveram acesso ao laudo do IML e constaram o quão inconclusivo ele era.  

No relatório, a mãe de uma das supostas vítimas relatava que o filho sofria de constipação intestinal, o que explicaria as lesões na criança que anteriormente haviam sido atribuídas a atos sexuais forçados. Além disso, funcionários do colégio e pais de alunos saíram em defesa dos acusados.  

Após três longos meses de investigações, em junho daquele ano, todos foram inocentados por Gérson Carvalho, que assumiu as investigações após as polêmicas envolvendo Edélcio Lemos

O delegado Edélcio Lemos dando entrevista / Crédito: Divulgação/ Arquivo/ TV Cultura

 

“Foi uma sensação de alívio”, revela Ricardo. “Neste caso, em especifico, meus pais tiveram que provar que não eram culpados, foi totalmente ao contrário”. Mas, apesar do desafogo, o estrago já estava feito, o caso havia deixado sequelas que Maria Aparecida e Icushiro carregaram até o fim de suas vidas.  

“A vida não foi mais a mesma, minha mãe por exemplo, não podia escutar uma chamada da Globo", explica Shimada. "Ela ficou depressiva até o fim de sua vida, mesmo comigo e meu pai tentando reanimá-la. Mas a maioria das vezes, tudo foi em vão”. Maria Aparecida faleceu em decorrência de um câncer, em 2007.  

“Meu pai também sofreu por causa disso. Em diversas ocasiões ele sofreu de microinfartos, o que acabou em duas cirurgias para o coração”, conta ao relembrar de seu pai que morreu em 2014. “Eles até que conseguiram ter uma vida meio que normal [após o caso], mas as sequelas os acompanharam para o resto de suas vidas”. 

Maria Aparecida e Icushiro Shimada / Crédito: Divulgação/ Instagram/ Ricardo Shimada

 

Os veículos de comunicação que cobriram o caso foram acusados de não retratar a verdade dos fatos, declarando, apenas que, as investigações foram encerradas por falta de provas, sem ao menos dizerem que os acusados foram inocentados.  

“Na minha opinião, a retratação só não aconteceu porque os ‘acusados’ envolvidos não eram filhos ou parentes, ou não tinham nenhuma ligação com pessoas desta Justiça. Então a ‘Justiça’ se contentou em dar um tapinha nas costas, falar que o caso foi encerrado por falta de provas. Para eles estava tudo de bom tamanho”, diz Ricardo.  

Além de seus pais, Paula nunca mais conseguiu lecionar. As dívidas e a paranoia incontrolável que Maurício desenvolveu após a acusação fizeram com que o casal se divorciasse. Já Saulo e Mara, também enfrentaram diversos problemas financeiros.  

Fake News 

Após o ocorrido, para Rodrigo, não há outro pensamento a não ser: “As Fake News podem não só mudar vidas como acabar, literalmente, com as pessoas”. "Depois de uma Fake News, as coisas nunca voltam a ser como era antes”, diz. 

Questionado sobre o motivo para as pessoas continuarem compartilhando e fomentado a desinformação, ele é enfático. “Porque o mundo gosta disso, gosta de discussões bobas, o mundo vive na mentira, o mundo quer ser visto e as vezes as pessoas não medem esforços para isto, nem que custe a vida de outras pessoas. Por isso temos que buscar sempre estar em evolução, buscar a verdade, buscar à Deus. Este é o princípio de tudo”. 

Ricardo Shimada / Crédito: Divulgação/ Instagram/ Ricardo Shimada

 

Agora, após mais de 26 anos do caso, Ricardo Shimada está finalizando um livro sobre o caso Escola Base e sobre a vida de seus pais. “Este caso tem que ser mostrado sempre como o maior erro de justiça e imprensa”, declara sobre a importância de reviver seu passado.  

Ricardo conta que seu livro, que chamará "O Filho da Injustiça", vai abordar não só as investigações, como o dia a dia de seus pais e até assuntos mais delicados, como a tentativa de suicídio de um de seus familiares. “Quero mostrar para as pessoas o lado que elas não conheciam dos meus pais, antes, durante e depois do caso Escola Base”. 


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