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O médico do século 19 que acreditava que a imunidade do corpo poderia combater o câncer

A imunoterapia é considerada hoje uma técnica inovadora para lutar contra o câncer. Ela foi criada, todavia, há muito tempo atrás - e rejeitada em sua época

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 30/01/2021, às 10h00

Fotografia do médico William Coley
Fotografia do médico William Coley - Wikimedia Commons

William Bradley Coley foi um homem à frente de seu tempo. Durante sua carreira, o cirurgião especializado no tratamento de tumores ósseos ousou ir além das abordagens já consolidadas em sua época, realizando sua própria pesquisa e experimentos. O resultado desse trabalho vanguardista - que, porém, sofreu oposição em sua época - foi o campo de estudo que hoje chamamos de imunoterapia.

O motivo da oposição, no caso, era que William acreditava que causar infecções severas no organismo de pacientes sofrendo com câncer poderia ajudá-los a curar-se.

Isso porque, segundo ele, isso estimularia o sistema imunológico do doente, fazendo com que o corpo passe a combater os tumores por conta própria. Mesmo hoje, entretanto, não é difícil perceber o quão a abordagem soa pouco ortodoxa. 

Assim, naturalmente, a sociedade médica norte-americana do século 19 não via com bons olhos essa nova técnica criada pelo cirurgião, com muitos questionando sua eficácia e chamando Coley de “charlatão”. Em 1894, ele chegou a ser criticado pelo próprio Journal of the American Medical Association, um periódico científico de grande autoridade na época. 

Atualmente, todavia, a imunoterapia ressurgiu como uma abordagem inovadora e efetiva. “Hoje já se indica imunoterapia para câncer de pulmão, tumores de cabeça e pescoço e para alguns tumores gastrointestinais, entre outros”, comentou Clarissa Mathias, Presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc), segundo divulgado pelo site da ONG Instituto Oncoguia. 

A imunoterapia 

O Cancer Institute Research documenta uma das primeiras pacientes com câncer tratadas por William Coley: era Bessie Dashiell, uma jovem de apenas 17 anos de idade. Na época, o profissional de saúde era ainda um estagiário, inclusive. Esse evento ocorrido no início de sua carreira, contudo, foi fundamental para torná-lo o cirurgião que seria no futuro. 

Isso porque Bessie foi diagnosticada com um tumor ósseo maligno em sua mão, e mesmo depois de ter seu braço amputado, o câncer acabou se espalhando pelo seu corpo.

Para ela, o avanço da doença foi rápido e fatal - o que, de acordo com o site da Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA, comoveu profundamente o médico. 

Coley queria que houvesse algo mais que pudesse fazer em casos graves como o de Dashiell. Então, um dia, ouviu a história de um paciente que tinha um tumor inoperável no pescoço, porém após apresentar uma infecção bacteriana de Streptococcus, curou-se espontaneamente e permaneceu em remissão desde então. 

Imagem meramente ilustrativa de streptococcus / Crédito: Wikimedia Commons 

 

O cirurgião ficou fascinado pelo caso, e passou a pesquisar outros semelhantes na literatura médica. Após anos de estudo, decidiu fazer um teste com um paciente que também tinha um tumor ósseo agressivo e inoperável. 

Era o ano de 1891, e William decidiu injetar streptococcus nele. Seus resultados foram promissores, provocando a diminuição do nódulo e marcando o início de muitos outros testes. 

O cirurgião pesquisou a técnica durante toda a sua vida, ainda que não tenha tido muito reconhecimento enquanto estava vivo.

“(...) Coley acreditava que a infecção estimulava o sistema imunológico a lutar contra o câncer e então desenvolveu um coquetel de bactérias Streptococcus pyogenes e Serratia marcescens, que injetava diretamente no tumor”, relatou Ignacio Lopez-Goñi, professor de Microbiologia da Universidade de Navarra em artigo do The Conversation. “No entanto, as críticas e principalmente o sucesso dos novos tratamentos de quimioterapia e radioterapia fizeram com que as toxinas de Coley caíssem no esquecimento. No entanto, agora foi provado que o princípio básico do tratamento de Coley estava correto e que alguns tipos de câncer são sensíveis a um estímulo do sistema imunológico”.

Cura acidental?

Tumores de homem britânico antes e depois de pegar covid-19 / Crédito: Divulgação/ British Journal of Hematology

 

Uma curiosidade é que, em 2020, um homem britânico sofrendo com linfoma de Hodgkin, que é um câncer que ataca o sistema imunológico, acabou passando por uma experiência imunoterapêutica espontânea. 

Isso porque ele acabou infectado pelo novo coronavírus e assim desenvolvendo covid-19. Após recuperar-se da doença, todavia, o homem descobriu que seus tumores haviam desaparecido. Quando seu corpo reagiu ao vírus, também acabou combatendo as células cancerosas. O caso foi divulgado pelo British Journal of Hematology.

"Nossa hipótese é que a infecção pelo Sars CoV-2 tenha desencadeado uma resposta imune contra o tumor, como já foi descrito em outras infecções no contexto de um linfoma de Hodgkin", explicam Sarah Challenor e David Tucker, do Departamento de Hematologia do Royal Cornwall Hospital, no Reino Unido, e autores do estudo. 

Segundo a pesquisa, devido à contaminação da Covid-19, o sistema imunológico do paciente começou a produzir células responsáveis pela defesa do organismo contra agentes desconhecidos, que podem ter ativado células T, ou linfócitos T, que possuem antígenos tumorais e células que “matam” o tumor. 

Apesar desse quadro, a situação do paciente ainda precisa ser investigada. Ainda não foi comprovado que a Covid-19 é capaz de “curar” o linfoma.

"Ninguém deve se expor à Covid porque tem um linfoma. Esse caso é muito raro", declarou Nelson Hamerschlak, coordenador do Programa de Hematologia e Transplantes de Medula Óssea do Hospital Israelita Albert Einstein, em entrevista ao G1. 


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