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O menino que vivia em uma bolha: A triste história de David Vetter

Diagnosticado com uma doença que enfraquece o sistema imunológico, o garoto foi obrigado a passar a vida em uma eterna quarentena e serviu de inspiração para filmes

Penélope Coelho Publicado em 04/08/2020, às 12h35

David Vetter dentro de sua bolha
David Vetter dentro de sua bolha - Wikimedia Commons

O dia 21 de setembro de 1971 mudou para sempre a história de David Joseph Vetter Jr e Carol Ann Vetter, não somente pelo nascimento do filho do casal, mas, também pela longa trajetória de luta que eles teriam que enfrentar com o menino.

Quando David Phillip Vetter veio ao mundo, seus pais partilhavam de certo medo de que a triste história de seu primeiro filho se repetisse. Tratava-se de David Joseph Vetter III, nascido com uma patologia rara chamada de imunodeficiência combinada severa (SCID na sigla em inglês) a criança não resistiu e faleceu aos sete meses.

Após a morte do bebê, os Vetters foram avisados pelos médicos que se no futuro tivessem mais filhos do sexo masculino, a possibilidade de que ele também tivesse a doença era de 50%. O casal tinha uma filha saudável e decidiram arriscar outra gravidez. Com a chegada de David em setembro de 1971, eles tiveram a certeza de que o menino tinha SCID.

A enfermidade genética causa uma desordem no sistema imunológico — o que gera uma resposta agressiva, ou seja, uma pessoa diagnosticada com SCID é mais suscetível a enfrentar infecções e outras doenças. E infelizmente, essa exposição pode ser fatal.

Isolado

David com traje da NASA / Crédito: Wikimedia Commons

 

Para conviver com a doença hereditária, o nascimento do menino já havia sido planejado pensando no pior. Assim, uma cama esterilizada foi montada especialmente para o momento. Assim que saiu do útero de Carol, o bebê foi levado para um ambiente de plástico aonde nenhum germe chegava. Esse tipo de bolha foi sua casa do início ao fim de sua vida.

Os pais do garoto achavam que iriam conseguir realizar um transplante de medula óssea em David, a candidata principal era sua irmã, Katherine, contudo, o medo de algo desse errado na cirurgia foi maior.

Para evitar que o menino se contaminasse, seus anos seguintes foram de extremo cuidado. No início da vida ele passou a maior parte de seu tempo em um hospital no Texas. Quando ficou mais velho, pôde se mudar para sua casa, porém, seguindo condições de limpeza e isolamento jamais vistas antes.

Casa bolha

O local onde David ficava era uma espécie de câmera estéril, tudo deveria ser devidamente limpo antes de entrar em contado com o menino: água, alimentos, fraldas, roupas. Os objetos e itens de higiene eram colocados em esterilização por pelo menos quatro horas e depois passavam pelo menos sete dias em um local arejado e só assim poderiam ser enviados à Vetter.

Mesmo que a vida do menino não fosse nada comum, seus pais tentavam fazer com que ele pudesse viver da forma mais normal dentro do possível e respeitando suas restrições. David foi alfabetizado e educado, tinha uma TV e uma sala de jogos dentro de sua bolha.

Poucos tinham contato com o garoto além de seus pais, irmã e o médico Dr. John Montgomery. A criança só podia ser tocada através de uma luva especial, colocada na parede de sua câmera estéril.

No início o menino tentou burlar o sistema da bolha a fim de ter mais contato com o mundo exterior. Porém, quando atingiu idade o suficiente para entender sua condição, apenas entendeu que nunca poderia sair dali. Contudo, demonstrou interesse em participar de tudo que fosse possível dentro daquela câmera.

A história de David já era famosa nos EUA e no ano de 1977, a NASA se comoveu com a trajetória do garoto. Por isso, pesquisadores experientes fabricaram um traje especial para que o menino pudesse sair um pouco da bolha sem o risco de contaminação.

Inicialmente, o menino ficou com muito medo e não quis tentar usá-lo, porém, com o passar dos anos ele aceitou a ideia, após inúmeros testes ainda dentro da câmera o menino conseguiu deixar a bolha algumas vezes.

Legado

Depois de gastarem uma verdadeira fortuna para conseguirem manter os cuidados de David, a comunidade médica achou que o transplante de medula óssea poderia ser uma solução para o garoto e a doadora foi sua irmã.

Apesar de não ter rejeitado o transplante, após a cirurgia o garoto foi diagnosticado com mononucleose infecciosa e morreu 15 dias depois do procedimento, em 22 de fevereiro de 1984, aos 12 anos.

Após uma análise minuciosa na autópsia foi detectado que a medula de Katherine possuía indícios de um vírus dormente, conhecido como Epstein–Barr, também chamado herpesvírus humano. O diagnóstico dessa condição não foi detectado na triagem realizada antes do transplante.

Pôster do filme O Menino da Bolha de Plástico (1976) / Crédito: Wikimedia Commons

 

Com a morte de David, os Vetter’s não aguentaram a pressão e se separaram. Contudo, a história do menino serviu como inspiração para diversas produções audiovisuais que se tornaram famosas na história do cinema e da televisão norte-americana.

Por exemplo, o filme O Menino da Bolha de Plástico — que virou um clássico estrelado pelo ator John Travolta. Além de Jimmy Bolha, um filme de comédia com Jake Gyllenhaal no papel principal.  


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