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O milagre de Chaguinhas: Capela de Santa Cruz das Almas dos Enforcados

Mesmo após 3 tentativas fracassadas de ser enforcado, o cabo Chaguinhas ainda vivia e, em meio ao murmurinho da multidão, já era divinizado pela persistência com que desafiava a morte

M. R. Terci Publicado em 09/11/2019, às 08h00

Capela de Santa Cruz das Almas dos Enforcados
Capela de Santa Cruz das Almas dos Enforcados - Divulgação

Quem anda pela parte oriental da Capital paulista talvez não note a capela no número 238, da famosa praça que deu nome à região. Poucas pessoas sabem o motivo de sua macabra nomenclatura. Em parte, o nome veio da prática, que havia no Brasil,de se aplicar a pena capital para certos crimes. Mas o que mistifica o nome é a história de Francisco José das Chagas.

Tudo aconteceu cerca de um ano antes da declaração da independência. No ano 1821, o quartel da rua Santa Catarina, protagonizou a Revolta Nativista.Venham comigo, pelos caminhos mais escuros da história, contar-lhe-ei sobre a Capela dos Enforcados e o cabo Francisco José das Chagas, o Chaguinhas.Conta-se queele e outros militares se insurgiram contra o comando do batalhão por causa de salários atrasados.

Sufocada a rebelião, Chaguinhas teria assumido a culpa com o intuito de livrar os outros companheiros da forca. O cabo Francisco foi lançado no mesmo local e com a mesma corda que um de seus companheiros revoltosos, o soldado paulistano Contindiba, já havia sido executado.

A corda em torno de seu pescoço se rompeu.

“Liberdade! ” – Gritou o povo a uma só voz.

Em todo o Largo, ocupada por mais de dez mil pessoas, ressoaram vivas ao cabo e protestos contra Portugal que se repetiram por todas as ruas e vielas circunvizinhas à forca.

Seus carrascos viram, então, o quanto a cidade provinciana amava esse tal Chaguinhas, quão vívidaera a memória do menino querido, do guri pobre, sem ofício, sempre às ordens para pequenos labores, nascido na Rua das Flores, próximoà Igreja do Carmo, que corria pelas vielas enlameadas da provinciana e colonial São Paulo.

Jogando seus jogos nas ruazinhas estreitas da ensimesmada vila, nadando no preguiçoso Ribeirão do Anhangabaú, brincando com os amigos nos penumbrosos bosques, até que cresceu e partiu para Santos para seu consequente engajamento militar.

Sonhava lutar em nome da justiça e voltar com histórias para sua amada São Paulo. Mirava no futuro, urgia cavalgar em sua direção, libertar o solo pátrio desses covardes e vis, valente e bravo soldado que para a refrega partiu.

Foi-se, lutou em nome de tudo que é justo, inclusive, os direitos de seu quartel, voltou desdouro, com pena capital imposta por reivindicar o pagamento dos salários atrasados de 5 anos e equiparação de condições entre a caserna brasileira e a portuguesa.

Naquele dia, os soldados portugueses providenciaram nova amarradura e após rígida averiguação içaram o condenado.E essa segunda corda também arrebentou.

Chaguinhas / Crédito: Wikimedia Commons

 

“Milagre! Milagre!” – Sussurravam entre si enquanto se benziam e apontavam para o cadafalso.

Não apenas era o costume daquele tempo perdoar o condenado ou comutar-lhe a pena em casos semelhantes, como parecia ser a vontade de Deus. Como dizia o bom padre, infinitamente mais justa e poderosa que o alvitre dos homens.

Mas algum chavelhudo, entre demônios portugueses, trouxera consigo uma terceira corda que, para dignificar a península, em honra à El Rei de Portugal e do Brasil, de aquém e além-mar, não haveria de ser desperdiçada. 

E o valente Chaguinhas, mesmo após ter sido suspenso por vários minutos, ainda vivia e em meio ao murmurinho da multidão, o cabo já era divinizado pela persistência com que desafiava a morte. Dizem que o amor pela sua terra o mantinha.

Mas para horror e desespero de todos os presentes, o cabo foi morto pelos portugueses a pauladas. Esperava-se que o castigo exemplar infundisse temor à população e evitasse futuras manifestações radicais.

O povo voltou para seus lares. Esse sentimento de injustiça e impotência, essa tristeza e sofrimento leva tempo para ser digerido e consumado. Tudo isso a menos de um ano da declaração da independência.

Não por acaso erigiu-sedignificante cruz no local de sua execução, ao pé da qual acendiam-se velas conforme o costume da época. Em 1887, em memória do cabo Chaguinhas, do soldado Contindiba e dos outros cinco soldados enforcados nas vergas de um navio, ergueu-se a belacapela.

Hoje chamam esse sítio de Largo da Liberdade. Muito antes, na circunvizinhança da capela, havia um marco de cemitério atrás das árvores, nas proximidades da Rua da Glória, que se prestava a receberos frutos do cadafalso. Não somente revoltosos do período, mas escravos fujões e também os delinquentes ainda estão ali.

Pobres deserdados da justiça! Arrastados à praça para morrer morte inglória e mesquinha, inumados em campa incerta, sem estremadura, para que até os fantasmas se esquecessem de seus nomes e de onde vieram.

A tradição diz que quem vê alguma dessas almas penadas, espíritos confusos perambulando pela praça ou parados, sempre atraídos pelas velas acesas, deve contar a história de Chaguinhas para assegurarde que o povo não se esqueceu.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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