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O mito do "pigmeu" e o Neocolonialismo

O imperialismo na África Central contribuiu para a propagação do mito

Joseane Pereira Publicado em 26/03/2019, às 13h15

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- Reprodução

Quando pensamos em "pigmeu", logo nos vem à mente pequenos homens que vivem nas florestas. Essa imagem, presente em filmes e desenhos animados e que foi construída a partir do neocolonialismo no continente Africano, revela a mentalidade que os próprios exploradores tinham ao entrarem em contato com as culturas do continente.

Baseados na noção de darwinismo social, os exploradores europeus de fins do século XIX situavam as sociedades da floresta centro-africana no nível mais abaixo de uma suposta escala evolutiva, frequentemente considerando-as como não humanas e usando essas afirmações como justificativa para a exploração. Mas a ideia de "pigmeu" é anterior às ideologias do século XIX, estando presentes em relatos da Antiguidade e Idade Média. 

Para os egípcios, o nanismo era uma condição que trazia sorte e prosperidade, por estar associada aos deuses anões Ptah e Bes. As primeiras representações conhecidas de anões entre os egípcios são figuras de marfim encontradas ao longo do Médio Rio Nilo e datadas de 3000 a.C., e em textos em que reis egípcios eram caracterizados como anões performando danças sagradas em frente ao deus sol Rá. O culto aos deuses Ptah e Bes se espalhou pelo mediterrâneo no primeiro milênio antes de Cristo, provavelmente levando à criação de lendas gregas sobre seres em miniatura: textos do período greco-romano tardio indicam que os anões eram usados como símbolos para caracterizar os deuses.

> Pigmeus em lendas antigas / Reprodução

Durante a Idade Média, o termo Pigmeu foi usado para caracterizar o elo entre humanos e animais. Pensadores medievais consideravam os pigmeus "os mais humanos das raças monstruosas", e lendas eram difundidas acerca de viajantes que se encontravam com seres pequenos em suas aventuras. Existiam referências a homens e mulheres selvagens e monstruosos, que se encontravam com os viajantes para amedrontá-los e expulsá-los de suas terras. Essas histórias geraram repercussões em livros e iconografias, repertórios aos quais os viajantes dos séculos XVIII e XIX tinham acesso.

Apenas no contexto do neocolonialismo é que o termo foi associado aos povos indígenas das florestas tropicais Africanas, de forma pejorativa e estabelecendo conexões entre estes povos e os macacos. Os pigmeus seriam novamente classificados como um elo perdido entre homem e animal, em estudos que mesclavam evolucionismo biológico e teorias raciais e debatiam o lugar do ser humano na natureza. Desta forma justificava-se a escravidão e destruição dos modos de vida desses povos da floresta.

Imperialismo / Reprodução

Hoje em dia, podemos compreender quem são os povos considerados "pigmeus" pelos exploradores: grupos que apresentam línguas e tradições de caça diversas, como o Twa, Aka, Baka e Mbuti, e que vivem hoje em países como República Centro-Africana, Ruanda, Uganda e Camarões. As maiores características que esses povos têm em comum são a baixa estatura e o uso da floresta como fonte de remédios, subsistência e identidade cultural, e até hoje esses povos vêm resistindo no continente Africano à constante exploração por parte de outras culturas.