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Fora Vintém, parte II: O episódio mais sangrento de todo o Segundo Reinado

Na segunda parte da reportagem, veja como o imposto sobre transportes representou o fim do governo de Dom Pedro II

Coluna — Branco Di Fátima, jornalista e escritor Publicado em 20/02/2021, às 10h00 - Atualizado em 27/08/2021, às 09h00

Pintura de Dom Pedro II
Pintura de Dom Pedro II - Delfim da Câmara via Wikimedia Commons

No final de 1879, a mídia brasileira decidiu fazer uma pressão ainda maior em cima do imperador e do altivo João Sinimbu, presidente do Conselho de Ministros e responsável pelo imposto do vintém. A Gazeta da Noite, principal órgão opositor, por exemplo, pedia “união” para mostrar “ao governo que ele não é quando o povo não quer”.

Enquanto isso, outros veículos de imprensa divulgaram a data, o horário e o local do próximo encontro: 1 de janeiro de 1880, ao meio-dia, no Campo de São Cristóvão.

Com as ruas fortemente vigiadas por agentes secretos, Lopes Trovão escreveu um manifesto com ajuda de outros dois republicanos bons de pena — Joaquim Pedro da Costa e Ferro Cardoso. O texto ácido frisava que “a nossa dignidade foi desrespeitada pela força policial”, em alusão aos eventos na Quinta da Boa Vista.

Moedas de 20 réis já circulavam embrulhadas em papel com a frase “esmola para os mendigos de casaca”. Com o ambiente político inflamado, panfletos contra o imposto se multiplicaram. Ao invés de exigirem a suspensão da tarifa, pregavam a desobediência civil: boicotar a taxa. Neste ponto, a própria lei era omissa. Como punição ao infrator, previa “pagar a passagem” ou “deixar o carro”.

Não havia legislação que sustentasse uma pena mais dura. E, na surdina, companhias de bonde instruíam os seus cocheiros a fazerem vista grossa ao vintém. A lei era para cumprir, mas ninguém queria perder.

Na manhã nublada de quinta-feira, 1º de janeiro de 1880, nenhum indício sugeria que aquele seria um dos dias mais sangrentos do Segundo Reinado. Enquanto os cariocas ainda se recuperavam das festanças de Réveillon, a nova lei entrava em vigor. Os bondes circulavam normalmente e poucos passageiros recusavam-se a pagar. Por via das dúvidas, o governo imperial convocou 700 de seus melhores soldados de infantaria.

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Lopes Trovão discursa no centro do Rio de Janeiro / Crédito: Revista Ilustrada, Ano 1880, Ed. 189.

 

 

Por volta do meio-dia, sob calor de 27 graus, milhares reuniram-se na praça D. Pedro II (atual praça 15 de Novembro). O número de manifestantes é bastante impreciso. Alguns jornais divulgaram cinco mil pessoas, uma cifra considerável. Outros falaram de seis a sete mil, a soma provável. Periódicos simpáticos à causa publicaram mais de oito mil, um cálculo bem exagerado para a altura.

Certo é que naquela tarde de verão, nenhum republicano conseguiria conter o movimento, que ganharia o nome de Guerra do Vintém, Motim do Vintém ou, simplesmente, O Vintém.

Diante da multidão de terno e cartola, Lopes Trovão fez um discurso incendiário. Defendeu que o imposto não deveria ser pago. “Era ilegal”, frisava. O levante já não era “pelo valor do vintém”, como alertara 'O Mequetrefe', que teve entre seus colaboradores o poeta Olavo Bilac e o contista Artur Azevedo (irmão mais velho de Aluísio Azevedo).

Já a publicação conhecida como 'O Conservador', publicada semanalmente, analisaria que “não foi a iniquidade do imposto a causa principal da agitação, mas o profundo descontentamento que todos, sem distinção de classes e sem seleção de partidos, sentem por esta detestável situação”.

As palavras de Lopes Trovão só deitaram mais lenha na fogueira. Com adesão de moradores dos cortiços, a multidão se espalhou pelas principais vias do centro, em grupos com milhares de pessoas cada.

Um bando tomou a rua do Ouvidor dando vivas aos jornais e morte ao imperador. Outro foi para a rua Uruguaiana, altura da igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, n.º 77. Um terceiro, mais volumoso, capturou o largo de São Francisco de Paula, onde já existia a estátua em homenagem a José Bonifácio, patriarca da Independência. O último bando andou quatrocentos metros e ocupou a rua da Carioca. Estava montado o cerco.

Levados pela ira, os manifestantes começaram por virar bondes e arrancar trilhos. Logo, passariam a atacar cocheiros e a esfaquear burros. Na rua Uruguaiana, entre a 7 de Setembro e a Ouvidor, carros tombados serviam de barricada contra a polícia. Em meio ao caos, uma bandeira branca tremulava no alto de um dos veículos.

Por volta das 14h, o comércio baixou as portas para evitar os saques, enquanto os primeiros focos de incêndio podiam ser vistos em lojas de retalho. Senhoras da sociedade fugiam do centro, deixando chapéus, bolsas e guarda-chuvas ao léu. Há vários relatos de passageiros esbofeteados só pela suspeita de pagar o aumento.

Em meio à guerra, o governo imperial acionou o Exército. O 1º Regimento de Cavalaria, todavia, não parecia capaz de deter os diferentes grupos. Liderados pelo tenente-coronel Antônio Eneias Gustavo Galvão, os militares do 7º Batalhão de Infantaria entraram pela Ouvidor em direção à rua Uruguaiana e ao largo de São Francisco de Paula.

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Exército abre fogo contra manifestantes na rua Uruguaiana / Crédito: Revista Ilustrada, Ano 1880, Ed. 189.

 

Com fuzis e carabinas, os soldados avançaram e foram recebidos com pedras atiradas das barricadas e dos sobrados. No confronto corpo a corpo, acabaram feridos por facas e por fundos de garrafa. Por ironia do destino, um calhau teria atingido o tenente-coronel. Em um gesto de insanidade e que custaria algumas cabeças no futuro, Galvão deu ordem para abrir fogo. Bang... Bang... Bang...

Os disparos afugentaram parte dos manifestantes, mas a grande maioria resistiu à ofensiva. No final da tarde, uma chuva com fortes trovoadas e descargas elétricas pôs fim aos confrontos.

Entre os civis, os dados oficiais falaram em seis feridos por arma de fogo: um francês, dois brasileiros e três portugueses. Na época, os jornais cogitaram entre 15 e 20. Do lado dos militares, os registros indicaram oito feridos com diferentes gravidades, alguns por arma de fogo. Todos deram entrada no hospital da Santa Casa da Misericórdia.

Os rumores também apontavam de cinco a oito mortes, porém, o governo imperial só reconheceu três — um verdadeiro milagre, já que o Exército atirara a esmo. De acordo com o relatório do 1º delegado Carlos Alberto de Bulhões Ribeiro ao chefe de polícia da Corte: “nas paredes de quase todas as casas, desde a embocadura da rua do Ouvidor até o [teatro] Alcazar, viam-se sinais de bala”.

Por volta das 22h30, enquanto alguns curiosos ainda circulavam nas vielas mal iluminadas do centro, soldados recolheram os corpos vergados pelo chumbo grosso: O polonês de origem judaica Bernardo Foglebam, 30 anos, 1,60 metro de altura, bigode louro e olhos azuis. Usava paletó, colete e calças de casimira quando foi atingido.

O pernambucano Affonso Faria de Andrade, entre 26 e 28 anos, 1,65 metro de altura, branco, cabelo castanho e anelado, quase sem barba. Vestia calças sociais e paletó pretos quando foi alvejado. O francês Carlos Minetti, entre 23 e 25 anos, 1,48 metro de altura (o mais franzino deles), olhos azuis, cabelo preto e barba rala. Usava calças de casimira com riscas e paletó preto quando foi abatido.

Relatos da época especularam, sem fontes confiáveis, que o governo imperial teria mandado enterrar corpos para esconder o saldo real de mortes. Lenda urbana ou ocultação de cadáveres, pouco importava à parte da imprensa e da opinião pública.

Jornais acusaram o imperador de ser o único culpado pelos assassinatos no largo de São Francisco de Paula. E, nos dias seguintes, D. Pedro II chegou a ouvir insultos relacionados ao trágico evento. O tenente-coronel Galvão chegou a argumentar, sem sucesso, que só autorizara o uso de armamento letal em resposta aos disparos que vinham das barricadas. Se os manifestantes tinham espingardas, eram péssimos de pontaria. Nenhum militar foi morto.

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Confrontos do Fora Vintém no dia 1º de janeiro de 1880 / Crédito: O Mequetrefe, Ano 1880, Ed. 1.

 

Para os republicanos, o Exército avançara contra “cidadãos pacíficos” — o que não era de todo verdade. Com a destruição de bondes, avaria de trilhos e ataque a animais de tração, o prejuízo calculado pelas empresas de transporte passava dos 593 contos de réis. O montante era significativo. Equivalia a ganhar, naquele ano, seis vezes o maior prêmio das Grandes Loterias da Corte.

Comerciantes das ruas do Ouvidor, Carioca e Uruguaiana também cogitaram levar a fatura ao imperador. Afinal, o estrago era enorme. Mesmo que o imposto vingasse, seguramente faltaria dinheiro para pagar os malfeitos. A arrecadação prevista era de 600 contos de réis. Com a economia estagnada, o fantasma do déficit e os gastos da Grande Seca, o país estava à beira da bancarrota.

Aconteceram pequenos distúrbios até 5 de janeiro de 1880, mas nada comparável à batalha do primeiro dia do ano. O governo imperial considerou declarar Estado de Sítio, hipótese rechaçada por D. Pedro II. Houve ataques a bondes e confrontos pontuais com a polícia. Dezenas de prisões foram decretadas, entre elas a do magricela Lopes Trovão.

O diretor do Jornal do Commercio, Luiz de Castro, foi vaiado em plena rua do Ouvidor por apoiar o vintém. Já a Gazeta da Noite — principal adversário do imposto — esteve suspensa por ordens reais. A repercussão internacional foi negativa. O influente New York Evening Post publicou uma longa notícia intitulada "Trabalho sangrento no Brasil".

Temia-se uma insurreição popular. O evento mais grave ocorreu em 2 de janeiro, com o assalto e incêndio na loja de armas Viúva Laport, na rua dos Ourives (atual Miguel Couto). Prejuízo calculado: 150 contos de réis. Por precaução, outras lojas de armas fecharam.

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D. Pedro II representava um regime fatigado, incapaz de ouvir o povo / Crédito: Revista Illustrada, Ano 1887, Ed. 450.

 

O vintém era o assunto dos cafés, e os bondes continuavam sendo atacados. A Polícia Municipal ainda registrava agressões contra passageiros, animais esfaqueados e trilhos arrancados. A partir daí, as próprias empresas de transporte imploraram a revogação do aumento, já quase facultativo na altura. Pagava quem quisesse, e pronto.

O motim acelerou a queda do Conselho de Ministros, a 28 de março. Davam adeus ao poder o presidente João Sinimbu e o autor intelectual do vintém, o ministro da Fazenda Afonso Figueiredo. Frente às ofensivas republicanas, a Coroa viu seu prestígio despencar ladeira abaixo. O imperador já era insultado nas ruas.

Para desabafar, D. Pedro II escrevera no dia 3 de janeiro uma carta breve ao amigo Joseph Arthur de Gobineau, ex-embaixador francês no país. “Tendes lido notícias do Rio? Esses acontecimentos afligem-me profundamente. É esta a primeira vez que isto sucede desde 1840. Há quase quarenta anos que aqui presido o governo sem que fosse preciso atirar contra o povo. Felizmente, parece que tudo volta ao seu estado normal", escreveu. Outra vez o imperador estava errado. Os ânimos não voltariam ao normal.

Durante boa parte do ano, a imprensa criticou a cobrança da nova taxa. Nos classificados, anúncios tentaram tirar proveito da atenção mobilizada pelo tema: “Um vintém! Tanto barulho por causa de 20 réis, no entanto os leques japoneses de 28 vendem-se agora a 18 cada um, no armazém do largo de São Francisco de Paula, n.º 12”.

A revolta também rendeu músicas de sucesso, como 'Sô Zé Povinho', de Faustino Manoel Soares, 'O imposto do vintém', de J. P. da Silveira e a bela polca 'Gentes? O imposto pegou!', de Ernesto Nazareth. É provável que elas tenham animado o Carnaval de 1880.

O imposto caiu a 5 de novembro, sob a Lei Nº 3.018. O preço da passagem ficaria congelado por 74 anos, até quando o Cruzeiro substituiu o Réis. Após o motim, clamores de “abaixo a realeza” ganharam adeptos nas camadas mais pobres. O imperador passou a representar um regime fatigado, incapaz de ouvir o povo.

Seria exagero falar que o vintém provocou o colapso da monarquia, contudo, minou a autoridade tradicional. Deu ignição a uma década tumultuada, com o fortalecimento das vozes abolicionistas, que findaria na Proclamação da República. D. Pedro II, ou como era ironizado nas páginas dos jornais — Pedro Banana —, foi deposto a 15 de novembro de 1889. O Segundo Reinado vingara por 49 anos, 3 meses e 22 dias.


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+Sobre Branco Di Fátima

Nasceu em Diamantina, Minas Gerais, em 1983. É Jornalista e escritor. Doutor em Comunicação pelo Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE). Tem trabalhos publicados em veículos nacionais e estrangeiros, como HuffPost, Portal Uai, Público e Jornal Record. É autor do livro-reportagem Dias de Tormenta (Geração Editorial, 2019).


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