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O apocalipse da vida real: o desastroso set de filmagem de Apocalypse Now

As gravações da famosa obra de Francis Ford Coppola enfrentou obstáculos com cadáveres, desastre natural, drogas e até mesmo a morte

André Nogueira Publicado em 23/11/2019, às 08h00

No set de Apocalypse Now, filme que teve o mesmo custeio que Star Wars
No set de Apocalypse Now, filme que teve o mesmo custeio que Star Wars - Getty Images

16 semanas, esse era o prazo para o fim das filmagens de Apocalypse Now, filme de Francis F. Coppola. Entretanto, uma maré de azar atingiu o set de gravações e a produção ficou pronta em 15 meses. 

No cenário de recém-derrota dos EUA no Vietnã, o diretor de O Poderoso Chefão teve que rodar meio mundo para conseguir financiamento para sua obra, acessando investidores, estúdios e a distribuidora United Artists para tanto. O filme custou o mesmo valor do primeiro Star Wars.

No set, nas Filipinas / Crédito: Getty Images

 

O problema é que a obra foi desnecessariamente ousado. Além da derrubada de um helicóptero, e a representação da maior explosão gerada fora de uma guerra na História, o filme é de uma extravagância particular. O diretor de fotografia, V. Storaro, definiu: “Apocalypse Now era um quadro da imposição de uma cultura sobre a outra e da vontade que os americanos têm de transformar tudo em espetáculo”.

Esse problema se agravava com o fato de que Coppola não investiu no desenvolvimento de um roteiro, tendo como principal referência de enredo o livro O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, desenvolvendo cada cena no mesmo dia da filmagem.

Só teve tragédia nos 15 meses de gravação / Crédito: Getty Images

 

Todo o improviso foi possível graças ao ditador Ferdinando Marcos, das Filipinas: permitindo que Coppola realizasse o filme no arquipélago em troca de dinheiro, Marcos também ofereceu equipamentos pesados do exército filipino (como helicópteros e fuzis) para as cenas, que incluíam gravações de combates e até de acidentes reais.

Quando as frotas que estavam nos sets eram convocadas à batalha contra a guerrilha, a opção única de Coppola era esperar o retorno das máquinas. Muitas vezes, os soldados trocavam de posição, então o helicóptero voltava com outra pessoa e a cena estava arruinada.

Em 1976, então, o tufão Olga tomou o país, destruindo todo o cenário do filme. Coppola até tentou incorporar o fenômeno a produção, mas não foi simples como ele provavelmente imaginava ser.

Logo depois, um novo obstáculo surgiu: o antagonista do filme, coronel Kurtz, foi feito por Marlon Brando, que chegou às Filipinas sem ter lido uma vez o roteiro, pesando 130 kg e se recusando a interagir com Dennis Hopper. Mais uma vez, foi necessário adiar as filmagens. Brando enganou Coppola e outras ocasiões, conseguindo até um monólogo de 18 minutos, mas acabou deixando o diretor na mão logo depois.

Coppola em reunião com Ferdinando Marcos / Crédito: Domínio Público

 

Além disso, em pouco tempo surgiram outros obstáculos ainda maiores. Um dos mais bizarros foi o caso do cheiro forte de necrose no set, que vinha de uma pilha de cadáveres que estavam sendo guardados para uma das cenas.

Porém, o que mais abalou a equipe foi o fato de que o fornecedor dos corpos tinha roubado o material de um cemitério, o que levou a polícia aos sets. As filmagens foram novamente impedidas e todos os funcionários foram interrogados. Ninguém divulgou o que foi feito com os restos. Todavia, a situação se agravaria novamente

Em 1977, o ator Martin Sheen acordou no meio da noite com uma dor no peito. Então, saiu do acampamento e se arrastou por quilômetros atrás de ajuda: sofrera um ataque cardíaco. Ao descobrir o episódio, Coppola também passou mal, tendo um ataque epilético.

Pôster do filme / Credito: Wikimedia Commons

 

No meio das florestas do Sudeste Asiático, as gravações tiveram que lidar com animais selvagens, chuvas e infiltrações, a farra da equipe durante a noite e funcionários drogados (incluindo atores). A única certeza era: não dava mais tempo de desistir, e o filme seria encerrado.

“Éramos sujeitos com acesso a dinheiro demais e material demais, e pouco a pouco fomos ficando loucos. Meu filme não é sobre o Vietnã; meu filme é o Vietnã”, disse Coppola no Festival de Cannes. Com o lançamento oficial em 1979,  ofilme arrecadou cinco vezes mais do que o orçamento homérico total.


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