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Matérias / Nazismo

O nazismo e a ideia deturpada do que seria liberdade de expressão

Professor e filósofo Pablo Jamilk rebate falas nazistas de Monark

Redação Publicado em 13/02/2022, às 06h00

Sobrevivente de Auschwitz relembra os horrores do Holocausto - Getty Images
Sobrevivente de Auschwitz relembra os horrores do Holocausto - Getty Images

Na última semana, os brasileiros se depararam com um debate esdrúxulo ocorrido no Flow Podcast. Com apresentação de Monark, apelido de Bruno Aiub, o episódio foi parar nos assuntos mais comentados do Twitter após o apresentador sugerir o reconhecimento de um partido nazista no Brasil e dizer que 'um cara' tem direito de ser 'anti-judeu'. 

Rebatido por Tabata Amaral, Tabata Amaral, PSB-SP, Monark não mudou de opinião e seguiu com o debate que resultou em sua demissão do programa e uma investigação conduzida pelo MP. 

“Liberdade de expressão termina onde a sua expressão coloca a vida do outro em risco. O nazismo é contra a população judaica. Isso coloca uma população inteira em risco", disse Amaral.

“(...) se um cara quisesse ser anti-judeu, eu acho que ele tinha o direito de ser”, diz ele. Em seguida, o apresentador questiona: “Você vai matar quem é anti-judeu? (...) Ele não está sendo anti-vida, ele não gosta dos ideais [dos judeus]". 

Uniforme de vítima do Holocausto /Crédito: Getty Images

É preciso ter ciência

No Brasil do século 21, falas esdrúxulas são mascaradas com 'liberdade de expressão'. Pablo Jamilk, doutor em letras e graduando em Direito, comentou a respeito do episódio.

"Muitas pessoas comentam que a liberdade é assegurada na constituição, e de fato você é livre para pensar o que quer, e exprimir o seu pensamento, mas é vedado o anonimato. Mas por quê?", questiona ele.

Pablo explica que isso acontece, pois, ao falar algo, emitimos uma opinião, assim, estamos sujeitos a 'um corolário jurídico'. 

"O anonimato é vedado, porque cada indivíduo quando fala, professa algo, emite uma opinião, está sujeito a um corolário jurídico, que diz que você é responsável civil, juridicamente, civilmente e até penalmente pelas opiniões que você emite."

Após Monark ter justificado o episódio colocando a culpa na embriaguez, o graduando também ressalta que somos responsáveis pelo que falamos 'sóbrios ou embriagados'. 

"Ou seja, você é responsável por tudo o que diz, estando sóbrio ou embriagado, e irá responder por suas falas se forem criminosas, é óbvio que sob o efeito de entorpecentes a pessoa pode ter uma penalidade “menor”, mas este nunca será eximido de suas responsabilidades", explica. 

Os arames de Auschwitz /Crédito: Getty Images

Além disso, Pablo ressalta que apologia ou incentivo ao regime de Adolf Hitler é crime.

"O cidadão não é proibido de falar o que pensa, mas é preciso ter ciência de que tudo que é falado tem uma repercussão jurídica, e a partir do momento que a fala é uma apologia ou incentivo a algo tão tenebroso quanto foi o nazismo, deve haver punição, principalmente no Brasil, onde a apologia as práticas nazistas é um crime", diz ele. 

Intolerância

O professor, filósofo e graduando também cita Karl Popper ao relembrar que não podemos 'tolerar qualquer tipo de opinião que seja intolerante'. 

"O grande filósofo da ciência chamado Karl Popper já estabeleceu em uma das suas obras o chamado “Paradoxo da Tolerância”, que não se pode tolerar qualquer tipo de opinião que seja intolerante, porque quando se tolera a intolerância, o que cresce não é a tolerância e sim a intolerância. Porque a intolerância é fundamentalmente a negação da tolerância".

Para Pablo, "este paradoxo se aplica à fala do podcaster Monark, porque quando uma pessoa faz uma apologia aberta ao nazismo, ela está defendendo a intolerância, e não podemos tolerar que essa pessoa defenda a intolerância, pois o que virá disso é uma onda de sentimentos intolerantes". Além de ressaltar que "um paradoxo é pensamento, proposição ou argumento que contraria os princípios básicos e gerais que costumam orientar o pensamento humano, ou desafia a opinião consabida, a crença ordinária e compartilhada pela maioria".

O professor também ressalta que o paradoxo criado pelo apresentador após sua fala sobre o nazismo é algo 'aberrante'. 

"Portanto, é preciso combater esse paradoxo criado por Monark em cima do nazismo que é algo aberrante. O nazismo foi um movimento horrendo o qual nunca se viu nada igual em toda a estruturação política e ideológica de forma tão pungente como se viu no nazismo", diz Pablo.