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O negro no futebol: protagonista ou mercadoria esportiva?

Muito além das quatro linhas, o futebol engloba questões econômicas, sociais e políticas, quase sempre, influenciadas por um racismo velado e estrutual

Fabio Previdelli | @fabioprevidelli_ Publicado em 23/01/2022, às 00h00

O jogador Juan Cuadrado segurando um flamula de campanha antirracista da FIFA
O jogador Juan Cuadrado segurando um flamula de campanha antirracista da FIFA - Getty Images

George Weah, Roger Milla, Sadio Mané, Mohamed Salah, Abedi Pelé, N’Golo Kanté, Zinedine Zidane, Kylian Mbappé, Didier Drogba, Riyad Mahrez…, a lista de jogadores africanos, ou que possuem descendência em países do continente, é extensa e vitoriosa. 

Porém, além do fato de serem ídolos em seus respectivos clubes, esses atletas possuem um outro fator que os une: o preconceito contra suas origens. Além dos marcadores dentro de campo, jogadores negros e africanos têm que driblar adversários muito mais desleais fora deles, reflexo de uma sociedade que explora o continente, visto como berço da humanidade, há séculos. 

Tal desprezo pode ser visto, se tratando de um assunto mais recente, com a Copa Africana de Nações (CAN), que começou no último dia 9 de janeiro e agora caminha para sua fase final. Por aqui, o torneio de nações, um dos mais antigos do mundo, não goza do privilégio de ser acompanhado em cada lance, como as competições europeias e sul-americanas são — embora muitos dos melhores jogadores do mundo em suas posições desfilem seus talentos por lá. 

Além do mais, diversos clubes europeus, onde os principais jogadores destas seleções atuam, já se demonstraram reticentes em liberar seus atletas. Algo não muito contestado em outras ocasiões. 

“Há de fato um desprezo muito forte contra um torneio tão tradicional e que representa muito para um continente de 1,2 bilhão de pessoas”, explicam os jornalistas Aurélio Araújo e Carlos Massari, criadores e idealizadores do podcast ‘Copa Além da Copa’, em entrevista exclusiva à equipe do site do Aventuras na História. 

Um dos principais entraves colocados pelos clubes europeus, que perderam essa ‘queda de braço’, é que o torneio acontece no meio da temporada do Velho Continente. Porém, explicam Aurélio e Massari, isso sempre ocorreu. 

“É um pouco chocante ver jornalistas esclarecidos tratando a CAN como um campeonato qualquer, sem sequer buscar saber da sua relevância histórica. Não dá para dissociar isso do pouco caso feito com a África como um todo, não apenas no futebol”, comentam. 

Basta pensar que nossa imprensa cobre até as prévias de eleições presidenciais dos EUA, mas pouco fala sobre a situação política dos países africanos”, completa a dupla.

Africanos são bem-vindos na Europa?

A Crise Migratória é um problema que ainda reverbera na Europa. Apesar do preconceito europeu em relação às pessoas vindas de outros continentes, especialmente os africanos, muitos emigrantes fazem sucesso em clubes/seleções no Velho Continente, como o caso da França, atual campeã do Mundo.

Para se ter uma ideia, na Seleção Francesa campeã da última Copa do Mundo, em 2018,  14 dos 24 jogadores têm sua origem familiar ligada à África, sendo a imensa maioria filhos de emigrantes que se refugiaram na França, conforme aponta matéria do El País. 

Mesmo com esses jogadores se tornando heróis nacionais, é possível dizer que o país, e até mesmo a Europa como um todo, se torna cada vez mais aberta à chegada de refugiados?

Jogadores de Chelsea e Southampton durante protesto antirracista na Inglaterra/ Crédito: Getty Images

“É difícil dizer que o futebol gere uma aceitação dos emigrantes negros na Europa”, contestam os criadores do ‘Copa Além da Copa’, que relembram que muitos atletas, ainda hoje, são vítimas de xenofobia. 

O político Jean-Marie Le Pen, nome tradicional da extrema-direita, chegou a dizer mais de uma vez que a seleção francesa não representava a França devido ao excesso de africanos e de árabes”, relembram Araújo e Massari.

A dupla cita que casos assim não acontecem apenas com negros, mas os brancos africanos também sofrem em virtude de suas origens.“Várias estrelas do futebol também, mais de uma vez, já falaram sobre como suas origens são lembradas constantemente. Karim Benzema [de origem argelina], que se afastou por muito tempo da seleção francesa, disse que ‘quando eu jogo bem, sou francês, quando jogo mal, sou um árabe filho da puta’". 

Outro episódio recente lembrado pelos jornalistas diz respeito à Eurocopa 2020, disputada em 2021, em virtude do avanço da pandemia no continente. Na ocasião, a Seleção Inglesa perdeu a final do torneio em decisão nos pênaltis para a Itália. Os jogadores que desperdiçaram suas cobranças, Marcus Rashford, Jandon SanchoBukayo Saka, ambos negros, sofreram injúrias raciais por conta de seus “erros”. 

“O gravíssimo caso de racismo contra os jogadores ingleses que perderam seus pênaltis na final da Eurocopa, contra a Itália, mostra como a disposição dos setores conservadores e racistas das populações desses países de aceitar os negros ainda é muito mais condicionada às glórias dentro de campo”, salientam. 

O negro no esporte: protagonista ou mercadoria?

Com a discussão em torno das origens dos atletas, um outro questionamento é levantado nessa equação: será que podemos dizer que os atletas africanos são realmente protagonistas dentro do futebol ou são tratados apenas como mercadorias nas mãos de magnatas que comandam diversas instituições?

Araújo e Massari explicam esse tema através da visão de outros esportes, como a NFL e a NBA. Nos Estados Unidos, dizem, muitas pessoas tendem a chamar as grandes ligas, dominadas por negros, como “a escravidão contemporânea”. 

Os jornalistas apontam que, ainda hoje, jogadores atletas negros ainda são tratados muito mais com estereótipos físicos do que com características individuais. “O jogador negro ainda é muito associado a qualidades físicas, como força e velocidade, e pouco a qualidades intelectuais, como espírito de equipe, liderança, inteligência, visão de jogo, etc.”

“Peguemos como exemplo Luka Modric, meio-campista croata branco que foi destaque da seleção vice-campeã mundial em 2018. Ele sempre foi elogiado por sua inteligência e visão de jogo. Mas foi o jogador que mais correu na Copa do Mundo passada, com média de 10 km por partida”, ressaltam. 

A dupla destaca que muito desse estereótipo é fomentado, também, pelo despreparo de profissionais que cobrem essas competições, que recorrem a clichês para fazerem suas análises.

“A prova de que essa é uma visão racista é que não se mantém só no futebol, é generalizada, só ver o quanto quarterbacks negros (posição que é o cérebro da equipe) ainda precisam lutar muito por um espaço na NFL, por exemplo”, salientam. “No futebol, na posição de goleiro, por exemplo, onde correr muito e ter força física não são características mais preponderantes, mas sim a tomada de decisão rápida, ainda há grande resistência a contar com jogadores negros”.

O quaterback Colin Kaepernick protestando durante partida da NFL/ Crédito: Getty Images

Para se ter uma ideia, o racismo é algo tão estruturado na sociedade, ainda hoje, que muitos desses clichês racistas também são repetidos por negros. Em 2018, o ex-atacante Edilson Capetinha, campeão mundial em 2002, declarou que goleiros negros são mais propensos a falharem. 

“A gente tava jogando, Guarani e Palmeiras, e jogando, jogando, jogando, e o goleiro fazendo milagre, pegando cada bola. Aí eu passo por ele [Zinho] dentro do jogo: ‘Zinho, tu não vai fazer gol hoje?’ Aí ele falou: ‘Esse goleiro é negão, daqui a pouco ele erra’. Aí 43 [minutos], chutaram uma bola de longe, a bola entrou, e ele passou por mim correndo, comemorando: ‘Tá vendo o que eu falei? É goleiro negão. Goleiro negão sempre toma um gol’”.

Racismo no futebol: Reflexo da sociedade ou universo particular?

Em 2014, durante partida entre Grêmio e Santos válido pela Copa do Brasil, o goleiro Aranha, da equipe santista, foi alvo de injúrias raciais por parte da torcida sulista que estava presente na Arena do Imortal Tricolor. 

Mais recentemente, em 2019, o Campeonato Italiano foi alvo de polêmicas após diversos casos de racismo. Acontece que a Federação italiana decidiu criar uma campanha antirracista usando as imagens de macacos com os rostos pintados. A frase “Não ao Racismo” ainda fazia parte da peça. 

Casos como os dois citados acima, infelizmente, acontecem aos montes e em diversas partes do mundo. O preconceito contra minorias e classes sociais mais desfavorecidas são constantes em arquibancadas e torcidas organizadas. Mas o esporte é apenas um reflexo da sociedade?

Campanha antirracista italiana que usou macacos como símbolo / Crédito: YouTube/Globo Esporte

Não acreditamos que o futebol exista isolado, no vácuo, sem influência de fatores sociais, políticos, econômicos”, dizem os idealizadores do Copa Além da Copa, que buscam mostrar que assuntos assim sempre estão relacionados. “É claro que acreditamos que o racismo no futebol é reflexo do racismo na sociedade”. 

A ausência de combate ao racismo no futebol também é consequência da ausência e da omissão no combate ao racismo como um todo”, dizem Aurélio e Carlos, que acreditam que, nesse quesito, de combate antirracista, o Brasil esteja um pouco à frente da Europa. 

Um exemplo citado pelos jornalistas é o caso do atacante marfinense Sébastien Haller, que demonstrou ter se sentido ofendido ao ser questionado se preferia servir seu país em detrimento do seu clube, o Ajax, dos Países Baixos. 

“Esta pergunta mostra a falta de respeito que você tem pela África. Você faria essa pergunta a um jogador europeu antes de um Euro?”, rebateu o atual artilheiro da Champions League. 

Massari e Araújo enxergam esse questionamento como consequência de séculos de exploração do continente africano. “É reflexo de como o olhar para a África é sempre de cima para baixo”.

Um faraó na Terra da Rainha

Na última segunda-feira,17, a FIFA anunciou que o atacante polonês Robert Lewandowski foi o grande vencedor do prêmio The Best, dado pela instituição ao melhor jogador da temporada. 

Lewa superou outros dois atacantes na disputa, o argentino Lionel Messi e o egípcio Mohamed Salah. O jogador do Liverpool, inclusive, é visto por Carlos e Aurélio como o principal jogador africano na atualidade. “Nesse momento, Mohamed Salah é o jogador africano que goza de mais prestígio”.

Não à toa, houve uma queda de braço entre europeus e africanos pela realização dessa CAN no meio da temporada europeia: nunca antes os clubes do Velho Continente foram tão desfalcados pelos jogadores convocados, o que é um sinal da evolução do futebol africano”, explicam. 

No caso de Salah, a dupla acredita que a representatividade do jogador é muito maior, visto que ele é um muçulmano e árabe vivendo, e sendo referência, num país com forte histórico colonialista como o Reino Unido, onde a sociedade tem uma discriminação significativa contra árabes. 

Finalizando, eles usam o exemplo do atacante do Liverpool para mostrar como o esporte pode influenciar na quebra de preconceitos.

“No ano passado, um estudo publicado pela Universidade de Cambridge mostrou que a exposição de britânicos a uma respeitada celebridade árabe, como é o jogador, ajudou a reduzir crimes de ódio na cidade de Liverpool e a diminuir o número de tweets preconceituosos no país”.


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