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O paradoxo de Freud: Um homem de seu tempo

Em sua teoria sobre a sexualidade feminina, o austríaco revelou-se um arquétipo de machista. Mas inventou a psicanálise para dar voz às mulheres

Alexandre Carvalho Publicado em 12/09/2019, às 05h00

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Antes de retratar Sigmund Freud como um ogro machista, é preciso contextualizar o pensamento do criador da psicanálise sobre as mulheres – tanto em seu tempo como no lugar onde ele criou suas teorias.

“A mulher freudiana, fundamentada pela observação clínica dele, pertence a um estado de tempo muito curto”, afirmou a psicanalista Maria Rita Khel na palestra Deslocamentos do Feminino.

“É o lugar da mulher no momento em que a família nuclear burguesa se forma. Ali é a passagem para a modernidade. A transição de um período em que a sociedade está mais organizada por um espaço monárquico – com a lei concentrada em um pai simbólico que é o rei – para uma sociedade mais horizontal, com mais democracia, quando as mulheres começam a se alfabetizar.”

Freud tentou entender e explicar as mulheres num período em que elas próprias estavam em busca de se conhecer, com uma vontade imensa de abraçar as possibilidades que os direitos democráticos e as inovações tecnológicas traziam (o cinema nasceu junto da psicanálise), mas ainda eram reprimidas.

E o machismo do pensador era o pensamento-padrão na Viena da época – como em tantos outros lugares.

“Na sociedade vienense, as mulheres estavam sujeitas à interdição e intervenção masculinas. Todos nelas mandavam: pais e irmãos”, explica José Artur Molina em O Que Freud Dizia sobre as Mulheres.

Muitas das operetas que faziam sucesso na cidade retratavam as personagens femininas como frívolas, infiéis, maliciosas. Claro, um gênio como Freud poderia ter se desviado desses estereótipos. Mas não foi assim.

“Freud era o típico burguês oitocentista, ninguém mais certinho e mais século 19 do que ele”, define Maria Rita Khel.