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O perigo real de uma segunda onda de contaminação pandêmica

"Infelizmente parece que aprendemos muito pouco com os erros”, diz arqueóloga portuguesa ao comparar medidas adotadas no combate ao coronavírus em relação a outras epidemias do passado

Joana Freitas e Fabio Previdelli Publicado em 20/05/2020, às 14h00

Soldados doentes de gripe espanhola nos EUA
Soldados doentes de gripe espanhola nos EUA - Wikimedia Commons

Ao longo da história, diversos acontecimentos marcaram a trajetória humana. Acompanhando esse desenvolvimento, os vírus também sempre se fizeram presentes e quase foram responsáveis pelo fim desse processo de evolução da sociedade.

Seja a peste bubônica no século 14, ou a Gripe Espanhola na fase final da primeira grande guerra — além, é claro, da atual pandemia do novo coronavírus —, uma coisa é clara: a história já nos mostrou diversas vezes que esses minúsculos agentes infecciosos são capazes de catástrofes em grandes proporções se não foram combatidos adequadamente.

Além do choque de um primeiro impacto, essas doenças também são devastadoras quando atingem novas ondas de contaminação, como foi com a Gripe Espanhola no início do século 20.

Policiais americanos com máscara durante a pandemia de Gripe Espanhola / Crédito: Wikimedia Commons

 

"O panorama de sermos alvo de novas ondas de contaminação é algo muito real. Durante a pneumónica [Gripe Espanhola] o globo foi atingido por três surtos separados da doença, sendo que, em muitos locais, a segunda onda foi a mais letal.", explica Joana Freitas, formada em história na vertente de arqueologia pela faculdade de letras da Universidade do Porto, em Portugal.

Apesar desse conhecimento, a forma como a humanidade se previne dessas epidemias parece não ter se alterado com o passar dos anos, muito pelo contrário, é como se insistíssemos em cometer os erros do passado. "Infelizmente parece que aprendemos muito pouco com os erros”, argumenta a arqueóloga.

“Um exemplo específico que gosto de dar para compreendermos o que ocorre quando relaxamos as medidas sem estudo prévio e o que acontece quando a possibilidade de uma segunda onda é esquecida, foi a segunda onda que passamos de Gripe Espanhola quando a Primeira Guerra Mundial estava para chegar ao fim”.

Na ocasião, o prefeito de Denver, William Fitz Randolph Mills, pactuou com as pressões de grandes nomes do mercado e reduziu o isolamento entre as pessoas. Assim, o Dia do Armistício, que marcava o fim da Primeira Guerra, foi a ocasião especial para a vida voltar ao normal nas ruas da cidade americana.

Desse modo, no dia 11 de novembro de 1918, após cinco semanas de confinamento, o secretário da Saúde de Denver, William H. Sharplay, acreditava que tudo já estava “sob controle”.

“No entanto, mal foi verificado uma diminuição de casos e de mortes que as autoridades já adotaram outro extremo de medidas. Os cuidados foram completamente descartados e as máscaras de proteção pessoas eram jogadas no lixo como símbolo de liberdade, enquanto a população se reunia na rua e em cafés”, diz Joana.

“Era uma comemoração em dose dupla, final da guerra e final da epidemia. Em poucas semanas ficou evidente que haviam cometido um erro e o número de infecções e mortes aumentaram drasticamente”, explica.

Mas o estrago já estava feito. Cinco dias depois, as manchetes do Denver Post divulgaram as más notícias: “Todos os recordes de mortes foram estabelecidos em Denver nas últimas 24 horas", alegando que mais moradores de Denver morreram de Gripe Espanhola do que os coloradenses morreram na Primeira Guerra Mundial. “A história existe para ensinar, para servir de guia quando algo semelhante ocorre. Infelizmente nem sempre é o que acontece”, diz Freitas.

Enfermeira e paciente infectado, durante surto da gripe espanhola / Crédito: Wikimedia Commons

 

"Hoje ou há cem anos ou mesmo mais atrás no tempo o ser humano é resistente à mudança. Mesmo cumprindo durante algum tempo as medidas de prevenção chega a uma altura que é difícil continuar a aceitar tudo o que é proposto. As medidas de desconfinamento devem ser graduais e bem pensadas. Há lições que precisamos efetivamente de aprender. O vírus continua a circular mesmo quando o número de casos diminui e não devemos derrubar por terra todos os esforços feitos até então. Não é uma cura milagrosa que eliminará os perigos de um dia para o outro", reitera. 

Segundo a arqueóloga, devemos ainda estarmos preparados para a constante mutação do vírus, e que uma dessas pode se tornar mais agressiva e, por consequência, mais letal. Além do mais, há a possibilidade do vírus se tornar mais contagioso devido a uma mudança climática.

"No hemisfério norte temos de estar atentos à chegada do inverno e observar desde cedo o comportamento e a evolução do número de casos. A segunda onda já não será algo inesperado e, por essa razão, temos que, obrigatoriamente, estarmos melhores preparados. Todos, absolutamente todos numa sociedade têm o dever de ajudar a controlar este tipo de surto", concluí Joana Freitas.


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