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O poema de Che Guevara a Fidel Castro

Conheça o poema escrito pelo argentino a seu amigo cubano antes da Revolução

André Nogueira Publicado em 14/06/2019, às 10h00

Fidel Castro e Ernesto "Che" Guevara
Fidel Castro e Ernesto "Che" Guevara - Wikimedia commons

Ernesto Guevara era um estudante de medicina argentino que saiu à deriva pela América Latina. Fidel Castro era um jovem advogado cubano exilado por protestos contra a ditadura em que vivia. Essas duas figuras centrais da Revolução Cubana se conheceram no México e juntos articularam a invasão da ilha de Cuba e a tomada da capital Havana, o que fizeram em 1959.

Estas duas polêmicas figuras criaram laços de amizade que ultrapassaram as relações profissionais e revolucionárias. Quando Guevara abriu mão da vida pública e ministerial em Cuba para prosseguir seus caminhos revolucionários no Terceiro Mundo, Fidel entristeceu-se não de perder um inteligente ministro, mas pela distância que a vida revolucionária de Che criou entre os dois colegas. O argentino também irá escrever uma linda carta de despedida ao cubano em 1965, em que se abre sobre a experiência revolucionária e o futuro de Cuba, além de sua experiência ao lado do líder revolucionário.

Guevara tentava ser, além de comandante de guerrilha, um artista. Já tentou escrever poesias, praticar filosofia e alguns diziam que até cantava nas selvas em que guerreava. Uma de suas obras foi uma homenagem pessoal ao amigo Fidel Castro, escrita em 1956, antes mesmo da Revolução. O poema foi criado no México durante os preparativos da expedição do iate Granma, que levou os revolucionários a Santiago de Cuba e chamou o poema de “Canto a Fidel”.

Conheça o poema em português:

Vamos,
ardoroso profeta da alvorada,
por caminhos longínquos e desconhecidos,
liberar o grande caimão verde que você tanto ama…
Vamos,
derrotando afrontas com a testa
plena de martianas estrelas insurretas,
juremos atingir o triunfo ou encontrar a morte.
Quando soar o primeiro tiro
e na virginal surpresa toda a floresta acordar,
lá, ao seu lado, calmos combatentes
você nos terá.
Quando sua voz proclamar aos quatro ventos,
reforma agrária, justiça, pão e liberdade,
lá, ao seu lado com sotaque idêntico,
você nos terá.
E assim que chegar o fim da jornada
A sanitária operação contra o tirano, ali, a
seu lado, aguardando a derradeira batalha,
você nos terá.

No dia em que a fera lamber o lado ferido
onde o dardo nacionalizador lhe acertar,
ali, a seu lado, com o coração altivo,
você nos terá.

Nem pense que possam minguar nossa integridade
as decoradas pulgas armadas de presentes;
pedimos um fuzil, suas balas e um rochedo.
Nada mais.

E se o nosso caminho for bloqueado pelo ferro,
pedimos uma mortalha de lágrimas cubanas
para cobrir nossos ossos guerrilheiros
no trânsito para a história da América.
Nada mais.

Ernesto Guevara de la Serna (Che)

Che Guevara / Crédito: Reprodução 

 

Você pode conferir o original abaixo:

Vámonos,
ardiente profeta de la aurora,
por recónditos senderos inalámbricos
a libertar el verde caimán que tanto amas.
Vámonos,
derrotando afrentas con la frente
plena de martianas estrellas insurrectas,
juremos lograr el triunfo o encontrar la muerte.
Cuando suene el primer disparo y se despierte
en virginal asombro la manigua entera,
allí, a tu lado, serenos combatientes,
nos tendrás.
Cuando tu voz derrame hacia los cuatro vientos
reforma agraria, justicia, pan, libertad,
allí, a tu lado, aguardando la postrer batalla,
nos tendrás.
El día que la fiera se lama el flanco herido
donde el dardo nacionalizador le dé,
allí, a tu lado, con el corazón altivo,
nos tendrás.
No pienses que puedan menguar nuestra entereza
las decoradas pulgas armadas de regalos;
pedimos un fusil, sus balas y una peña.
Nada más.
Y si en nuestro camino se interpone el hierro,
pedimos un sudario de cubanas lágrimas
para que se cubran los guerrilleros huesos
en el tránsito a la historia americana.
Nada más.