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O professor de História que trocou as salas de aula pelo Spotify

Com exclusividade ao site da Aventuras na História, Vítor Soares narrou os bastidores da decisão que levou a lançar seu próprio podcast, o 'História em Meia Hora'

Pamela Malva Publicado em 03/10/2021, às 10h00

Fotografia de Vítor Soares e logo de seu podcast
Fotografia de Vítor Soares e logo de seu podcast - Divulgação/ Arquivo pessoal/ História em Meia Hora

O trajeto durava cerca de cinco horas e, por isso, a ida e a volta da Universidade de Barra Mansa (UBM) tomavam muito tempo dos dias de Vítor Soares, então estudante de História. Por isso, ele preenchia as muitas horas com aulas que gravava em um MP3.

Todos os dias, o fluminense viajava de Angra dos Reis para Barra Mansa, a fim estudar no segundo curso que colocara em sua inscrição do ProUni — antes da História, ele havia marcado a caixinha da Psicologia. Uma decisão que mudou tudo.

Certo dia, já no curso de História, ele teve de estudar para um projeto sobre a Primeira Guerra Mundial e, assim, pensou em escutar alguma aula sobre o tema durante o longo trajeto de ônibus. Foi assim que o entusiasta conheceu o formato do podcast — e prometeu a si mesmo que criaria seus próprios episódios um dia.

Hoje, dez anos depois, Vitor Soares é mais conhecido pela sua voz, que, em um tom animado, apresenta o podcast ‘História em Meia Hora’. Em entrevista ao site da Aventuras na História, ele falou um pouco mais sobre os bastidores de sua narrativa.

Imagem meramente ilustrativa de microfone / Crédito: Divulgação/ Pixabay/ StockSnap

 

Nas salas de aula

“Foi a melhor decisão que eu tomei na minha vida”, narrou o, hoje, professor de história. “Não demorou muito pra eu perceber o quão incrível a História é.” Foi assim que, com a ajuda de uma colega, ele começou a lecionar no Rio de Janeiro, em meados de 2013.

Acontece que, com a experiência, também vieram frustrações de uma profissão que, segundo Vítor, passou a ser questionada naquele mesmo ano, devido ao contexto do Brasil na época. “Sou apaixonado pela docência, mas os problemas são inúmeros.”

Nesse momento, o professor trabalhava cerca de 62 horas semanais e sentia falta de um retorno financeiro justo. Anos se passaram e, em 2019, ao recordar do primeiro podcast que ouviu — um episódio do ‘Jovem Nerd’ sobre a Primeira Guerra —, Vítor também se lembrou do antigo sonho de narrar seu próprio podcast.

“Comecei a fazer uns testes. Fiz uns quatro episódios, mandei para os meus amigos e, em novembro, comecei a me organizar”, lembra o professor. “E aí nasceu, no dia 3 de janeiro de 2020, eu nunca esqueço, o podcast ‘História em Meia Hora’.”

 
 
 
 
 
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Novos horizontes

“Honestamente eu não sei como foi a decisão de trabalhar só com isso”, brinca. “Foi uma quebra de paradigma tão grande que eu estou digerindo até agora.” Isso porque, além da mudança de ambientes, Vítor ainda passou por bons bocados em sua trajetória.

Além da pandemia, período em que o professor lecionou apenas pelo computador, ele ainda teve de voltar para as salas de aula no começo de 2021, apesar das altas nos números de casos e da falta de vacinas. E, para piorar, Vítor ainda trabalhava em Angra dos Reis, uma região onde os índices de crime cresciam diariamente.

“Um dia”, ele lembra, “começou um tiroteio na rua da escola, durante minha aula. As crianças estavam assustadas, mas não podiam se aglomerar no meio da confusão. Eu me perguntei: estava preocupado com o vírus ou com os tiros? Daí tive que hierarquizar os perigos. Depois desse episódio, eu peguei minhas coisas e fui embora”.

Daquele dia em diante, o “desmame” — a mudança gradual de sua rotina, cujo objetivo era dedicar mais tempo ao podcast — que Vítor planejava foi acelerado rapidamente. No mesmo ano em que se casou, mudou de cidade e saiu das escolas, o professor ainda abriu uma vaquinha online para apoiar o projeto — que bateu metas em 24 horas.

 
 
 
 
 
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Críticas ao cenário

Lançado o ‘História em Meia Hora’, Vítor percebeu que existem muitos outros entusiastas da área. O público que pensava ser composto apenas por jovens estudantes, logo tornou-se uma comunidade curiosa, que gosta de saber.

Das portas abertas pelo podcast, ainda veio mais um título, o ‘História pros Brother’, gravado em São Paulo, junto de Alexandre Nickel. Em ambas as produções, Vítor coloca em prática uma das características que mais aprecia no formato: a possibilidade de entregar uma mensagem de forma mais íntima, como se estivesse conversando.

Mas as críticas ao sistema educativo do Brasil continuam, principalmente em relação às aulas de história. “Existe uma pseudo-intelectualidade no historiador que é chata pra caramba e afasta as pessoas. Eu acho que a academia em si tem que rever um pouco a forma que ela fala”, explica o professor, que preza pela irreverência em suas aulas.

“Vivemos um período onde a informação é tão veloz que as escolas não conseguiram entender”, explica Vítor. “O mundo é veloz demais para o método de ensino em geral. O ritmo do mundo é outro, mas o das salas de aula é o mesmo de décadas atrás.”

 
 
 
 
 
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Planos para o futuro

Agora, Vítor planeja “monopolizar o podcast de educação no Brasil”, como ele mesmo brinca. “Estou expandindo o universo ‘em meia hora’, já lancei o ‘Astronomia em Meia Hora’ e estou lançando outros, de outras áreas do conhecimento”, revela o professor.

Em meio aos seus planos, Vítor ainda fechou uma parceria para apresentar o novo projeto da Aventuras na História. Com sua paixão por contar “os perrengues” do passado, o professor irá apresentar o novo podcast da marca: o ‘Desventuras na História’.

“Para mim esse projeto é ótimo”, narra o professor. “Minha expectativa principal é fazer com que as pessoas entendam que a história não precisa ser maçante, pode ser bem descontraída. E acredito que o site da Aventuras na História já tem essa pegada.”

“Gerar esse interesse pelo conhecimento é tão importante quanto ter o conhecimento histórico em si”, reflete o docente. “Eu acho que meu trabalho em geral é ser essa porta de entrada”, brinca, fazendo referência ao seu papel como apresentador de podcasts.

Os planos, no entanto, não limitam uma das maiores paixões do professor: as salas de aula. “Estou doido para conseguir pegar uma turma de novo, eu quero voltar a trabalhar em sala de aula, porque é uma troca maravilhosa”, narra Vítor, por fim.