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O que é antropofagia? Entenda esse fenômeno social e sua diferença do canibalismo

Muita gente confunde a antropofagia indígena com canibalismo, mas a antropofagia era uma tradição de guerra particular e não tinha a ver com fome. Entenda o caso!

André Nogueira Publicado em 22/04/2019, às 14h00

Gravura portuguesa sobre a antropofagia tupinambá, baseada nos escritos de Hans Staden
Gravura portuguesa sobre a antropofagia tupinambá, baseada nos escritos de Hans Staden - Wikimedia Commons

Muita gente confunde antropofagia com canibalismo, principalmente pelo fato de que em ambas as situações há o consumo de carne humana... por humanos! Mas as duas coisas são bastante distintas, a ponto de serem categorias de análise de áreas completamente diferentes. Enquanto a antropofagia é um conceito das ciências humanas sobre as práticas religiosas e de guerra na América indígena, o canibalismo pertence ao campo da biologia e das práticas de consumo de alimentos.

O termo “antropofagia” é externo àqueles que a praticavam. A palavra é de origem europeia, vem do grego “anthropo”, que significa “homem” e “phagia”, que significa ”comer”. Literalmente, significa “comer o ser humano”, mas não pode se resumir a isso para entender a prática como pertencente ao mundo social.

Representação da antropofagia na Mesoamérica (Reprodução)

Isso porque a prática, minimamente comum na América antes das invasões europeias, não era uma forma que os indígenas encontraram de suprir suas necessidades alimentares. Ou seja, os índios não comiam carne humana porque estavam com fome nem praticavam antropofagia em tempos de escassez de alimento como forma limite de sobrevivência. Isso enquadraria canibalismo, que é comum no mundo animal.

A antropofagia era, antes de tudo, uma prática exotérica de guerra. Tratava-se de um rito religioso que ocorria após importantes batalhas, em que os índios da comunidade vencedora, em um rito com seus próprios protocolos e convenções, assavam e comiam os maiores guerreiros capturados da comunidade rival como forma de adquirir e interiorizar as capacidades e os poderes daqueles que foram ingeridos. Ou seja, um índio antropófago podia comer a carne de um prisioneiro muito forte para, assim, ganhar essa força. Ou inteligência, habilidades estratégicas, beleza, entre outras diversas qualidades que podem ser transmitidas, na visão religiosa dessas pessoas, através do consumo da carne.

Dessa forma, a antropofagia não parte de maneira alguma de uma necessidade biológica de subsistência ou de algum anseio alimentar ou vontade pessoal pelo consumo em si. Essa visão da antropofagia foi muito disseminada pelos europeus, principalmente os portugueses, como forma de animalizar os índios e provar a teoria forjada de superioridade moral e racial dos brancos sobre os indígenas.

Um aspecto de difícil análise sobre o tema é o nível de abrangência da prática no território americano. Sabemos pelos escritos de Hans Staden e Hernán Cortez que grupos como os tupinambás e os astecas praticavam a antropofagia, mas muitas outras comunidades historicamente associadas à prática podem muito bem nunca ter consumido carne humana. Isso está diretamente associado ao fato de que a prática da antropofagia era uma das principais cláusulas de exceção para a proibição da escravidão indígena. Como foi permitido por muito tempo que se escravizasse índios antropófagos, disseminou-se a falsa ideia de que a maioria dos índios do Brasil era praticante desse rito, para que se permitisse de forma desproporcional o uso de mão-de-obra escravizada indígena. Porém, não era a maioria das tribos na América Portuguesa que praticava a antropofagia.

Hans Staden, um dos primeiros a ter contato com a antropofagia na América Portuguesa (Wikimedia Commons)

 

A prática antropofágica era fortemente desaconselhada pelos católicos europeus nos aldeamentos indígenas, pois era vista como forma pecaminosa e pagã de tratar a guerra. Muito progresso foi feito no combate à antropofagia, mas a conversão forçada ao catolicismo criava uma confusão entre os indígenas antropófagos: como conciliar o fato de que é pecado se alimentar de carne humana e o fato de que uma das bases da eucaristia cristã é o consumo do “corpo de Cristo”.

Os índios do Brasil passaram por séculos de difamação e bestialização que tentaram reduzir as comunidades indígenas a quase-animais que não conheciam a civilização, narrativa esta que era base para o processo de dominação dessas comunidades e introdução forçada de indígenas à cultura e aos círculos sociais próprios dos europeus. Uma dessas formas de transformar indígenas em bestas foi à redução da antropofagia a prática do canibalismo.

É muito importante entender que existem diferenças brutais entre as duas práticas, principalmente para não cair na lógica evolucionista e racista que demoniza as práticas sociais indígenas e coloca a antropofagia como prática animalesca e inferior.