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O que explica os gigantes buracos da Sibéria?

Nos últimos anos, ao menos 17 crateras enormes foram encontradas no permafrost russo, mas pesquisadores não sabiam o que teria gerado tal fenômeno

Isabela Barreiros, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 19/03/2021, às 07h00 - Atualizado às 08h00

Fotografia de drone registra o buraco na Sibéria
Fotografia de drone registra o buraco na Sibéria - Divulgação/Igor Bogoyavlensky

Na Sibéria uma enorme cratera surgiu em meio ao gelo. O mais assustador? Os cientistas não faziam ideia de como ela tinha aparecido. A primeira vez que pesquisadores identificaram um buraco desse tipo foi em 2013, mas eles ainda não sabiam nada sobre a abertura.

Desde então, crateras no permafrost siberiano passaram a intrigar especialistas. Em julho do ano passado, outra foi descoberta na península de Yamal. O buraco foi percebido durante um voo de helicóptero e pesquisadores logo realizaram imagens aéreas do fenômeno. Agora, eles tinham como objetivo estudar as aberturas.

Um estudo que elucida questões importantes sobre o tema foi publicado em fevereiro deste ano na revista científica Geosciences. Igor Bogoyavlensky, do Instituto de Pesquisa de Petróleo e Gás da Academia Russa de Ciências, foi o principal autor do estudo, além de piloto do drone que adentrou a cavidade subterrânea.

Estudando a cratera

Fotografia da cratera / Crédito:  Divulgação/ BECTN

 

Os cientistas conseguiram obter mais ou menos 80 imagens por meio do drone, usado pela primeira vez em pesquisas desse tipo. Ele desceu cerca de 10 a 15 metros abaixo do nível do solo, dentro do buraco, para capturar seu interior. A cratera tem 20 metros de largura e 30 metros de profundidade. 

Assim, foi possível desenvolver um modelo 3D do objeto de pesquisa, o que facilitou o trabalho dos especialistas. O protótipo construído tem aproximadamente 30 metros de profundidade. Como explicado pela CNN Brasil, isso dá quase três ônibus empilhados. 

“A nova cratera está extremamente bem preservada, já que a água da superfície ainda não havia se acumulado nela quando a pesquisamos, o que nos permitiu estudar uma cratera ‘fresca’, intocada pela degradação”, explicou à CNN Brasil Evgeny Chuvilin, pesquisadora do Centro de Recuperação de Hidrocarbonetos do Instituto Skolkovo de Ciência e Tecnologia em Moscou.

Para a realização do estudo, a cavidade subterrânea foi nomeada de C17. Ainda assim, era desconhecido o motivo da existência de tal buraco no meio da região isolada. Em um comunicado, Sue Natali, do Woodwell Climate Research Center e coautora do artigo, disse: “As crateras representam um processo que era anteriormente desconhecido para os cientistas”. 

Por meio das imagens obtidas pelos drones, inteligência artificial e, finalmente, o molde em 3D do buraco, que revelou cavernas na parte inferior da abertura, foi possível identificar o que teria causado seu surgimento. 

Mistério desvendado

Fotografia registra cratera C17 por fora e dentro / Crédito: Divulgação/Igor Bogoyavlensky

 

Conforme explicado pelos pesquisadores no estudo, quando a camada permanentemente congelada da região começa a dar sinais de descongelamento, as placas congeladas de gás metano expandem em cavidades subterrâneas resultando em uma pressão que, posteriormente, se agrava em um estouro.

“É claro que as mudanças climáticas têm um impacto sobre a probabilidade de surgimento de crateras de explosão de gás no permafrost ártico”, afirmou Chuvilin. “É a época do ano em que há muito influxo de energia solar, o que faz com que a neve derreta e as camadas superiores do solo aqueçam, e isso causa mudanças em suas propriedades e seu comportamento”.

Com essa explosão de gás metano, partes de gelo e rocha são jogados para o ar, abrindo o grande buraco no permafrost. A cratera tem a saída redonda devido ao estrondo que acontece de dentro para fora de maneira perfeita em decorrência do degelo.

"As crateras e outras mudanças abruptas que ocorrem em toda a paisagem do Ártico são indicativas de um rápido aquecimento e degelo do Ártico, o que pode ter consequências graves para os residentes do Ártico e para o mundo”, explicou Natali.

Os pesquisadores identificaram 17 crateras nas penínsulas de Yamal e Gyda até agora, mas ainda não sabem quantas ainda podem eclodir no futuro. Como é um fenômeno até então desconhecido pelos especialistas, ainda não existem técnicas suficientes para tal previsão. Ainda assim, eles estão contando com a ajuda do Woodwell Climate Research Center, em Massachusetts, nos Estados Unidos.