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Diário do Beagle: De barco rumo ao sul

A bordo do HSM Beagle, Charles Darwin fez a viagem que o ajudou a criar sua teoria da seleção natural

Cláudia de Castro Lima Publicado em 22/05/2019, às 05h00 - Atualizado às 08h00

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Crédito: Reprodução

No dia 24 de outubro de 1831, 28 anos antes de publicar sua maior obra, A Origem das Espécies, o jovem Charles Darwin escreveu as primeiras linhas de um diário que se propôs a manter por cinco anos.

Nele, registraria toda sua viagem a bordo do navio inglês HMS Beagle. Aos 22 anos, o rapaz percorreu diversos países do hemisfério sul e deixou em suas anotações não apenas registros de fatos cotidianos, mas também suas observações e análises sobre o que presenciava.

A viagem da qual Darwin participou – e que, segundo ele, foi a mais importante de sua vida – foi a segunda de três expedições conduzidas pelo HMS Beagle. As viagens serviram para atualizar mapas litorâneos de locais como África, Oceania e América do Sul - incluindo o Brasil.

Ao longo de sua viagem, Darwin enfrentou tempestades, presenciou revoluções, sobreviveu a um terremoto, explorou terras inabitadas, conheceu grupos indígenas. E, principalmente, coletou muitos espécimes de vegetais e animais.

O HMS Beagle / Crédito: Wikimedia Commons

 

“A viagem fez o Darwin que viríamos a conhecer”, afirma o linguista Caetano Waldrigues Galindo. “O jovem que sai da Inglaterra no Beagle era um geólogo promissor, e os primeiros registros nos diários confirmam essa inclinação e esse talento. No entanto, as observações e coletas que ele faz durante a viagem vão tornando inevitável sua dedicação a questões de biologia.” complementa.

As impressões do inglês sobre o Brasil merecem destaque. Ao mesmo tempo em que Darwin se encantou com as maravilhas naturais daqui, sobraram críticas aos brasileiros. “Os brasileiros, até onde vai minha capacidade de julgamento, possuem somente uma pequena quantia daquelas qualidades que dão dignidade à humanidade”, escreve, em 3 de julho de 1832. 

A viagem também marcou a saúde de Darwin. Seu diário não registra uma só linha em todo o mês de outubro de 1834. Foi quando ele ficou doente, provavelmente infectado por um barbeiro, transmissor da doença de Chagas em Mendoza, Argentina.

Já o Beagle...

Em 1845, dois anos após a última expedição, já sem condições de navegação, o Beagle foi repassado à guarda costeira britânica, que o usou como entreposto militar no rio Roach, no condado de Essex (sudeste da Inglaterra). O objetivo era fiscalizar o contrabando de produtos na região, principalmente conhaque e tabaco. Enquanto serviu de entreposto militar, os guardas moravam a bordo com suas famílias. Isso incomodava os pescadores de ostras – para eles, a embarcação, que ficava no meio do canal, dificultava a navegação. 

O posto, então, foi transferido para a margem em 1850 e permaneceu ancorado próximo à vila de Paglesham até 1870, quando o Beagle foi leiloado como sucata para comerciantes locais.

A partir daí, o rastro dele se perdeu por mais de um século. Até que, no ano 2000, Robert Prescott, um dos mais prestigiados arqueólogos marinhos do mundo, anunciou ter encontrado madeiras e cerâmicas provavelmente da famosa embarcação – elas foram achadas sob 5 metros de lodo num pântano, perto da ilha de Potton.