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Por que Israel e Palestina são um território tão disputado?

Foram dezenas de conquistadores e donos de um pequeno trecho semiárido. Do que eles estavam atrás?

terça 17 abril, 2018
Entenda
Entenda Foto:Shutterstock

Parece só um trecho de terra seca, montanhosa e pedregosa. A mais notável vista natural é um lugar chamado Mar Morto. E, ainda assim, rei após rei, conquistador após conquistador, o território disputado entre Israel e a Palestina é um dos lugares mais cobiçados da História. Afinal, o que há de tão especial com essa terra?

O Mar Morto Wikimedia Commons

O nome original da região era Canaã, situada no Levante, bem no centro do Crescente Fértil, que é uma grande meia lua de áreas adequadas ao plantio, da Mesopotâmia até o Egito. Na Idade do Bronze, isso colocava Canaã num cabo de guerra entre o Egito e diferentes invasores da Mesopotâmia.

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Também é uma faixa de terra que liga três continentes: Ásia, África e Europa. Quem quisesse se expandir de um para outro tinha que passar por lá. E assim fizeram todos os que aparecem na faixa abaixo da matéria.

Importantes símbolos 

Essa insegurança constante moldou o caráter de um povo e sua religião. Foi nesse clima de ameaça que surgiu o culto a um deus único, que havia prometido essa terra a seu povo escolhido – e o ajudou, segundo os livros sagrados, a conquistá-la pessoalmente. Uma religião hostil às demais religiões, como não era comum. Algo que permitiu sua sobrevivência como uma identidade própria, no lugar de se diluir nos costumes dos dominadores.

E esse se tornaria um outro fator a atrair olhares para lá. “A Terra de Israel é o berço das religiões monoteístas: inicialmente o judaísmo, depois o cristianismo e mesmo o islã, que não se originou naquele lugar – e sim na Península Arábica –, mas que considera a cidade de Jerusalém como o terceiro local sagrado da fé muçulmana (atrás apenas de Meca e de Medina, ambas localizadas na Arábia Saudita)”, afirma o professor Gabriel Steinberg Schvartzman, doutor em língua hebraica, literatura e cultura judaicas pela Universidade de São Paulo (USP).

A cidade de Jerusalém guarda alguns dos mais importantes símbolos das três religiões. Nela encontrase o Muro das Lamentações, as ruínas do Segundo Templo, que foi o lugar mais importante para a religião judaica. Sobre elas fica a Mesquita de Al-Aqsa, que marca o lugar onde Maomé teria sido levado por um anjo em sua visita aos céus. E, em outra parte da cidade, a Igreja do Santo Sepulcro, onde o corpo de Jesus teria sido deixado pelos três dias entre sua morte e ressurreição.

O Muro das Lamentações Wikimedia Commons

Toda vez que um lado fica insatisfeito com o tratamento que o dono atual dá a seus monumentos ou peregrinos de sua religião, um novo conflito tem início. As cruzadas foram justificadas pela destruição da Igreja do Sagrado Sepulcro pelo sultão Al-Hakim. A Mesquita de Al-Aqsa está no brasão do Hamas, o partido radical religioso (e terrorista, segundo Israel) palestino que quer retomar Jerusalém – e a mesquita.

Por difícil que pareça acreditar hoje, o clima de pé de guerra teve uma longa pausa. Durante o domínio do Império Otomano (1299- 1922), entre 1517 e 1917, houve a chamada Pax Ottomanica. “Era um império multiétnico, multilinguístico e multirreligioso, em que judeus e cristãos conviveram razoavelmente bem, junto aos muçulmanos. Notáveis locais governaram a província com alto grau de autonomia frente a Constantinopla. Fiéis das três religiões conviviam sem grandes incidentes”, observa Monique Sochaczewski Goldfeld, pós-doutora em história pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e autora do livro Do Rio de Janeiro a Istambul: Contrastes e Conexões entre o Brasil e o Império Otomano (1850-1919).

Quando Donald Trump assinou a transferência da embaixada americana de Tel-Aviv para Jerusalém, em dezembro passado, reconheceu a última de uma longa série de conquistas. E enfureceu aos conquistados.


Os muitos donos de Jerusalém 

A desejada capital tanto de Israel quanto da Palestina (de acordo com ambos) foi conquistada 44 vezes. Isto é só um resumo de seus principais senhores – houve também muitas conquistas e reconquistas pífias.

Pré-Historia (120000 a.C)

Reprodução do Clipe This Land Is Mine / Nina Paley

A espécie humana moderna evoluiu na África e migrou para o resto do mundo através da região. Lá também seria um dos primeiros pontos a adotar o modo de vida agrícola na Revolução Neolítica.


Cananeus (antes de 4500 a.C)

Reprodução do Clipe This Land Is Mine / Nina Paley

“Cananeus” era o nome para os diversos povos nativos da região, como fenícios, edomitas, moabitas e – é o consenso pelo registro arqueológico – os ancestrais dos hebreus.


Egípcios (1550 a.C) 

Reprodução do Clipe This Land Is Mine / Nina Paley

No período do Império Novo, os faraós fizeram os reinos cananeus de vassalos pela via armada, mas permitiram que mantivessem sua identidade.


Israelitas (1050 a.C) 

Reprodução do Clipe This Land Is Mine / Nina Paley

Essa é a data pela cronologia bíblica para sua conquista de Canaã e criação do Reino de Israel. Vários historiadores são céticos quanto a um reino unificado de Israel. Dizem que sempre foram dois reinos.


Neo-Assírios (733 a.c) 

Reprodução do Clipe This Land Is Mine / Nina Paley

Segundo a Bíblia, após a morte de Salomão, em 922 a.C., o reino se dividiu em dois, Israel e Judá. O assírio Tiglate Pileser III conquista o reino de Israel e torna Judá seu vassalo.


Babilônicos (588 a.C) 

Reprodução do Clipe This Land Is Mine / Nina Paley

Após a queda do Império Neo-Assírio, em 627 a.C., um período de instabilidade e breve novo domínio egípcio, a conquista leva à destruição do Templo de Jerusalém e exílio na Babilônia.


Gregos (332 a.C)

Reprodução do Clipe This Land Is Mine / Nina Paley

O exército de Alexandre, o Grande, conquistou o território em suas lutas contra os persas. O domínio da região saltaria entre o Egito Ptolomaico e o Império Selêucida.


Judeus (140 a.C) 

Reprodução do Clipe This Land Is Mine / Nina Paley

Com a decadência do Império Selêucida e apoio da emergente Roma, os judeus estabelecem seu próprio reino, independente entre 110 a.C. e 63 a.C., depois dominado por Roma.


Romanos (70) 

Reprodução do Clipe This Land Is Mine / Nina Paley

Uma revolta encerra a era de reis fantoches judeus. Os romanos rebatizam a região de Palestina – uma provocação, fazendo referência aos filisteus, da Faixa de Gaza.


Califados (637)

Reprodução do Clipe This Land Is Mine / Nina Paley

Quinze anos após a morte do profeta Maomé, Jerusalém é tomada do Império Romano do Oriente pelo califado Rashidun e os que o sucederam nas guerras internas do islã.


Cruzados (1099) 

Reprodução do Clipe This Land Is Mine / Nina Paley

A perseguição a peregrinos cristãos e a destruição da Igreja do Santo Sepulcro, em 1009, justificaram a tomada da região por forças cristãs europeias. 


Sultanato Mameluco (1187) 

Reprodução do Clipe This Land Is Mine / Nina Paley

Saladino, sultão curdo baseado no Egito, toma a cidade dos cruzados. Apesar de diversas tentativas, ela nunca mais voltaria ao domínio cristão.


Império Otomano (1516)

Reprodução do Clipe This Land Is Mine / Nina Paley

Relativamente moderados (a depender do sultão) e com relações amigáveis com alguns países europeus, os otomanos trouxeram segurança para a região.


Britânicos (1917)

Reprodução do Clipe This Land Is Mine / Nina Paley

Jerusalém é tomada dos otomanos durante a Primeira Guerra. A derrota levaria à dissolução de seu império e criação da moderna Turquia.


Israelenses (1948)

Reprodução do Clipe This Land Is Mine / Nina Paley

O plano de partição da Palestina, aprovado pela ONU, previa que Jerusalém fosse uma cidade internacional. Na guerra de 1948, os judeus tomaram a parte ocidental e, na de 1967, a oriental.

Bianca Borges


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