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O que a história e uma teoria econômica podem nos ensinar sobre Instagram e influenciadores digitais

No fim do século XIX, Veblen já discutia o ideal de consumo quase inatingível; Hoje, a ilusão pode ser comprada e ostentada

Redação Publicado em 07/03/2019, às 15h52

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Getty Images - Mídias sociais

O economista e sociólogo americano Thorstein Veblen explicou no final do século XIX que as pessoas se inspiram no que consumir na classe social imediatamente acima da sua. Elas querem, basicamente, coisas que vão além de seu alcance.

Veblen escreveu em seu livro Theory of the Leisure Class, datado de 1899, que o "ideal de consumo" para a maioria das pessoas é o que eles não podem adquirir. Ou, na melhor das hipóteses, só pode ser adquirido através de um esforço considerável.

Já um novo artigo publicado na revista Communication, Culture and Critique pelos pesquisadores Emily Hund e Lee McGuigan, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, mostra como essa teoria explica algumas dinâmicas da economia do influenciador e as regras que regem o Instagram.

O estudo analisa o funcionamento da "vida comercial" promovida pelos influenciadores digitais, que comercializam seus estilos de vida e vendem para seu público-alvo uma infinidade de produtos relacionados ao seu lifestyle -- o que, em alguns casos, só se tornou possível devido à fama que conquistaram nas redes e o retorno comercial que tiveram dentro deste ciclo.

Os pesquisadores chegaram à conclusão que a perspectiva do influenciador sobre os produtos que recebem de graça pode ser entendida por meio de "uma espécie de atualização da idade da mídia social" à teoria de Veblen. "Esses produtos dão aos influenciadores, que são eles próprios modelos de estilos de vida aspiracionais para seus seguidores, o acesso a um estilo de vida que também é aspiracional para eles", explicaram.

E a infraestrutura de marketing e tecnologia do Instagram transforma a vida que está "fora de alcance", como dizia Veblen, um pouco mais realista para as classes abaixo da almejada. "Escolhas de consumo e estilos de vida aspiracionais não devem ser apenas visivelmente exibidos, mas o público deve ser capaz de adquirir os elementos que definem o estilo de vida e a auto identidade. A vida comercial não é apenas de marca; seus elementos constitutivos podem ser comprados", diz um trecho do artigo.

No fim do século XIX, as pessoas buscavam um estilo de vida inatingível que viam na classe social acima delas. Hoje, no Instagram, elas estão atrás do estilo de vida da "classe" acima deles, que é basicamente uma ilusão criada pela tecnologia e pelo marketing.