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O que o investigador do caso von Richthofen pensa sobre obras que retratam o crime?

Em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História, Robson Feitosa comenta sobre a popularização do caso

Fabio Previdelli | @fabioprevidelli_ Publicado em 05/10/2021, às 17h54 - Atualizado às 17h55

Carla Diaz como Suzane em 'A Menina que Matou os Pais' e capa do livro 'Suzane: Assassina e Manipuladora'
Carla Diaz como Suzane em 'A Menina que Matou os Pais' e capa do livro 'Suzane: Assassina e Manipuladora' - Divulgação/Santa Rita e a Galeria Distribuidora/ Editora Matrix

No último dia 19 de setembro, a plataforma de streaming da Amazon, o Prime Video, recebeu com exclusividade o lançamento dos dois filmes que contam a história do assassinato de Manfred e Marísia von Richthofen, que foram mortos em 31 de outubro de 2002. A mandante do homicídio foi a filha do casal, Suzane von Richthofen

Após o lançamento de ‘O Menino que Matou Meus Pais’ e ‘A Menina que Matou os Pais’, as buscas pelo caso no Google cresceram em 3.780% na semana seguinte a disponibilização dos longas.  

Mas por qual motivo um crime tão bárbaro continua em voga e gera tanta repercussão após quase duas décadas?

Para Robson Feitosa — que chefiava o Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) de São Paulo na época do crime; participando, inclusive, das investigações do caso — a reposta é simples: “Pela maldade”. 

O investigador Robson Feitosa/ Crédito: Arquivo Pessoal

 

"Para o ser humano — ou no mundo natural e na vida natural dos animais — o normal é que os pais protejam os filhos e os filhos protejam os pais. A partir do momento que algo acontece, que é contra exatamente isso, esse conceito, essa situação fica estigmatizada. As pessoas não conseguem entender e aceitar uma coisa desse jeito”, diz Feitosa em entrevista exclusiva à equipe do site Aventuras na História. 

Justificativas para o crime 

Como mostrado em um dos filmes, que são baseados nos autos do processo, Daniel Cravinhos diz que Suzane alegou que era agredida não só fisicamente quanto sexualmente por Manfred, o que teria despertado nele o desejo por acabar com o sofrimento de sua amada.   

Mesmo que essa suposição se provasse verdadeira, Robson não vê isso como algo que justificasse o assassinato do casal von Richthofen.  

Família von Richthofen nos poucos momentos descontraídos/ Crédito: Band Jornalismo via Wikimedia Commons

 

“Existem pessoas que foram torturadas, sofreram, foram abandonadas e tudo mais, e são excelentes pessoas. Então, não justifica falar: ‘Ah, ela apanhou do pai várias vezes e por isso matou ele’. E por que matou a mãe também? Por que ela foi conivente? Por que matou desse jeito? Por que manipulou? Por que arquitetou tudo da forma como foi?”, questiona.  

“Tem uma coisa que nós precisamos entender: a reação instantânea de uma pessoa é imprevisível; ou seja, o ato contínuo é imprevisível. Tudo pode acontecer. Em uma discussão entre duas pessoas, por inúmeros motivos, não importa, nunca se sabe onde aquilo pode chegar. Mas isso é uma coisa de momento”, explica. 

Porém, no caso de Suzane, a situação é completamente diferente. "A partir do momento que você faz uma arquitetura e cria uma engenharia para um crime de tal natureza, nada justifica — principalmente uma jovem. Por que então não foi na delegacia e falou que o pai era um torturador? Por que ele não procurou alguém para falar sobre isso? Ela procurou os tios dela? Então não tem como justificar algo desse tipo. É dela”, completa. 

A importância — e o cuidado — de relatarmos crimes reais 

Como já citado, ainda hoje o crime gera uma enorme repercussão. Além dos dois recentes filmes, o caso já foi retratado em diversas outras mídias, como nos livros ‘Suzane: Assassina e Manipuladora’, de Ulisses Campbell e ‘Casos de Família’, de Ilana Casoy; além de um episódio na primeira temporada da série ‘Investigação Criminal’. 

Mas a popularização de episódios tão brutais assim é mais benéfica ou prejudicial para a sociedade como um todo? Feitosa acredita que a discussão é uma via de mão dupla.

“Quando você começa a colocar livros, a colocar filmes e tudo mais; por um lado é excelente, é muito bom dar ao público — seja do lado científico, do lado estudioso ou do lado de curiosidade — o conhecimento da realidade que está ali. Pelo menos parte da realidade vai ser colocada lá”, diz. 

Um problema a ser evitado, esclarece Feitosa, é uma possível glamourização do criminoso. “Do contrário, as coisas podem ficar como foram com ‘Billy the Kid’. Se você parar para ver, a pergunta que eu faço para qualquer um é muito simples: ‘Billy the Kid’ foi um criminoso que morreu jovem nos Estados Unidos. Certo? Ok, maravilha. ‘Quem foi que o prendeu? Quem foi o policial que, em troca de tiros com ele, o matou?’”. 

“Isso poucos sabem responder, mas todo mundo sabe quem foi o ‘Billy the Kid’. Então, é uma inversão que nós precisamos tomar cuidado”, discute.  

Carla Diaz fez o papel de Suzane von Richthofen na adaptação cinematográfica/ Crédito: Divulgação/ Santa Rita Filmes

 

Outra situação citada por Robson é a de Francisco de Assis Pereira, popularmente conhecido como o 'Maníaco do Parque'. "Uma das coisas que mais aconteceu com ele, foram pessoas que escreveram cartas para ele com pedidos de casamento. Pessoas que se apaixonaram pela história dele".

"Existem pessoas do mundo afora que ficam entrando em contato com presos da pior espécie possível, para querer casar com eles, pois querem ter um relacionamento com pessoas assim. Tudo isso é muito delicado”, conclui o chefe de investigações do DHPP — hoje, aposentado, após mais de 34 anos de carreira —, que ajudou nas investigações de um dos crimes que mais chocou a sociedade brasileira.

Como já ressaltado, os filmes aqui citados se baseiam no que foi dito pelos envolvidos no crime que chocou o país, assim deixando de lado o que foi especulado por outras pessoas. 


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