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O que se sabe sobre o caso do ativista que morreu após atear fogo em si mesmo?

Ato aconteceu em frente à Suprema Corte dos Estados Unidos na última sexta-feira, 22

Fabio Previdelli | @fabioprevidelli_ Publicado em 26/04/2022, às 12h02

O ativista Wynn Alan Bruce
O ativista Wynn Alan Bruce - Divulgação/ Arquivo Pessoal

Na tarde da última sexta-feira, 22, data em que celebrou-se o Dia da Terra, um homem que vivia no estado americano do Colorado ateou fogo contra si mesmo em frente à Suprema Corte dos Estados Unidos

O incidente aconteceu por volta das 18h30. Na ocasião, Wynn Alan Bruce, de 50 anos, foi prontamente atendido por uma equipe médica e chegou a ser levado de helicóptero para um hospital. Entretanto, um dia após o fatídico episódio, Bruce não resistiu aos ferimentos e acabou falecendo. Mas o que o motivou a tal ato? 

Quem era Wynn Alan Bruce? 

Morador da cidade de Boulder, no Colorado, Wynn Alan Bruce, de 50 anos, estudou fotografia na Denver Metropolitan State University, segundo aponta matéria da BBC. Bruce dirigia um estúdio de fotografia de retratos.

O ativista Wynn Alan Bruce/Crédito: Divulgação/ Arquivo Pessoal

Wynn também era budista e praticava o budismo Shambhala, aponta matéria do The Daily Beast. Além do mais, ele também era um ferrenho ativista climático e sua página no Facebook continha diversas publicações sobre o meio ambiente e sua religião. 

Os motivos do ato

Nas redes sociais, diversas pessoas que o conheciam apontam que o ato não foi feito por acaso. Bruce ateou fogo em si mesmo como forma de protesto. Pelo menos é o que diz Kritee Kanko, especialista em clima que trabalha para o Fundo de Defesa Ambiental.

Este homem era meu amigo. Ele meditou com nossa sangha [comunidade budista]. Este ato não é suicídio. Este é um ato de compaixão profundamente corajoso para chamar a atenção para a crise climática", declarou em seu Twitter. 

Kanko também apontou que está buscando mais informações sobre o ato, mas garantiu que “ele estava planejando isso há pelo menos um ano”. 

Em entrevista ao The New York Times, entretanto, Kritee esclareceu seu tweet dizendo que não estava totalmente certa das intenções de Bruce, mas que "as pessoas estão sendo levadas a extremos de tristeza e desespero climáticos". Ela ainda declarou que não queria que "os jovens começassem a pensar em autoimolação”.

Sinais de um ato extremo?

Como já dito, as redes sociais de Wynn continham diversas publicações sobre o budismo e o meio ambiente. Em uma das mais recentes, de janeiro deste ano, ele compartilhou uma foto do monge Thich Nhat Hanh.

Conforme aponta matéria do The New York Times, Nhat Hanh enviou uma carta para Martin Luther King Jr. em 1965, prestando uma homenagem a monges budistas que foram queimados vivos como uma forma de protestos contra a Guerra do Vietnã. O The Daily Beast completa que, na missiva, o monge declarou que "se queimar pelo fogo é provar que o que se está dizendo é de extrema importância".

O monge Thích Quảng Ðức, que ateou fogo em si mesmo em forma de protesto/ Crédito: Divulgação/Malcolm Browne

Outra postagem que chama a atenção, conforme repercutido pelo EuroWeekly, foi feita em outubro de 2020, quando Bruce compartilhou uma vídeo-aula que focava na ciência das mudanças climáticas. 

Publicação feita por Bruce nas redes sociais/ Crédito: Divulgação/Redes Sociais

Em abril de 2021, ele editou a publicação com a numeração 4-1-1, além de incluir um emoticon de fogo. Já no começo de abril deste ano, ele editou o comentário novamente para adicionar a data "22/04/2022".

Autoimolação 

Embora nenhuma nota de suicídio ou manifesto tenha sido localizado após a morte de Bruce, amigos próximos afirmaram que ele estava protestando contra a inação em relação à crise climática. 

Caso isso seja confirmado, porém, a autoimolação de um ativista do meio ambiente já havia ganho os noticiários em abril de 2018, conforme recorda matéria da CNN. Na ocasião, David Buckel, que era advogado, se encharcou de combustível e ateou fogo em si mesmo no Prospect Park, no Brooklyn, em Nova York. 

Buckel deixou um cordão com sua identificação nas proximidades, junto com um carrinho de compras carregando um saco plástico normalmente usado para transportar terra, que estava rotulado como "para a polícia”, que continha seu cartão de visita, uma cópia de sua nota de suicídio e uma nota na qual ele se desculpou "pela bagunça".

A maioria dos humanos no planeta agora respira ar insalubre por conta dos combustíveis fósseis, e muitos morrem prematuramente como resultado [disso] — minha morte precoce por combustível fóssil reflete o que estamos fazendo a nós mesmos”, escreveu num bilhete. 

Embora no budismo a prática ascética de autoimolação seja extremamente rara, aponta a CNN, além dos monges que protestaram contra a Guerra do Vietnã, mais de 100 tibetanos já se incendiaram, desde 2009, como forma de protesto contra o domínio chinês na região.

Importante decisão

Um ponto importante para entendermos o ato de Wynn diz respeito ao local que o incidente ocorreu: a Suprema Corte dos Estados Unidos. Isso porque, como a própria CNN definiu, o órgão deverá decidir “o que pode ser um dos casos mais importantes para a crise climática e o ar limpo em décadas”. 

Afinal, procuradores-gerais republicanos e as companhias de carvão entraram com um pedido para que o mais alto tribunal retire da Agência de Proteção Ambiental (EPA) sua autoridade para regular as emissões de gases que aquecem o planeta de usinas de energia.

Desta forma, conforme a crise climática avança no mundo e seus impactos sejam cada vez maiores, tanto cientistas quanto ativistas climáticos vêm intensificando seus esforços para chamar a atenção sobre essas mudanças, partido de episódios que já tornaram comuns, como o bloqueio de tráfego ou protestos contra grandes instituições, até atos mais extremistas, como pode ter sido o caso de Wynn Alan Bruce.