Matérias » Brasil

Os arquivos dos EUA que comprovaram a tortura na ditadura: “O resultado é extrema exaustão mental e física”

Documentos entregues ao Brasil em 2014 evidenciam que torturas e assassinatos eram práticas comuns após o golpe de 64

Fabio Previdelli Publicado em 04/04/2021, às 00h00

Repreensão militar em tempos de ditadura
Repreensão militar em tempos de ditadura - Divulgação

"O suspeito é deixado nu, sentado e sozinho em uma cela completamente escura ou refrigerada por várias horas. Na cela há alto-falantes, que emitem gritos, sirenes e apitos em altos decibéis. Então, o detido é interrogado por um ou mais agentes, que informam qual crime acreditam que a pessoa tenha cometido e que medidas serão tomadas caso não coopere. Nesse ponto, se o indivíduo não confessa, e se os agentes consideram que ele possui informações valiosas, ele é submetido a um crescente sofrimento físico e mental até confessar." 

Por mais que muitos neguem, o golpe militar de 1964, que completou 57 anos na última semana, torturou, assassinou e desapareceu com centenas de pessoas no período de 21 anos em que esteve vigente — terminando em 1985. 

As aspas acima são de um arquivo do governo americano que foi trazido por Joe Biden, na época vice-presidente na gestão de Barack Obama, ao Brasil, em 17 de junho de 2014.

Encontro entre Dilma e Biden/ Crédito: Divulgação/ Vídeo/ GloboNews

 

Ao todo, um HD com 43 documentos produzidos pelas autoridades americanas foram entregues à Dilma Rousseff. Neles há informações sobre a censura, tortura e assassinatos cometidos pelo regime militar entre 1967 e 1977.  

Até aquele momento, grande parte desses documentos eram considerados confidenciais pelo governo americano, que durante anos mirou regimes ditatoriais em diversos países da América do Sul, na chamada Operação Condor, como explica matéria publicada pela equipe do site do Aventuras na História.  

A entrega dos arquivos feita pessoalmente por Biden à Dilma, uma das principais oposicionistas que foram torturadas nos porões da ditadura.

O compartilhamento de informações foi feito como uma filosofia da gestão de Obama, conforme aponta matéria da BBC, que pregava por uma transparência maior e a favor dos direitos humanos. Além disso, os americanos tinham a clara intenção de estreitar relações diplomáticas com os países sul-americanos.  

"Estou feliz de anunciar que os Estados Unidos iniciaram um projeto especial para desclassificar e compartilhar com a Comissão Nacional da Verdade documentos que podem lançar luz sobre essa ditadura de 21 anos, o que é, obviamente, de grande interesse da presidente", conforme repercutiu o G1 na época. 

Técnicas de tortura 

Entre os documentos, um trecho de um deles, que foi enviado pelo consulado americano do Rio de Janeiro ao Departamento de Estado, em 1973, evidencia como as torturas eram feitas à época. Confira: 

"Ele [preso torturado] é colocado nu, em uma pequena sala escura com um chão metálico, que conduz correntes elétricas. Os choques elétricos, embora alegadamente de baixa intensidade, são constantes e eventualmente se tornam insuportáveis. O suspeito é mantido nessa sala por muitas horas. O resultado é extrema exaustão mental e física, especialmente se a pessoa é mantida nesse tratamento por dois ou três dias. Em todo esse período, ele não recebe comida nem água." 

O arquivo mostra que, ao menos, 126 pessoas teriam sido submetidas à tratamentos semelhantes, isso quando não eram vítimas de táticas mais violentas, como os famosos 'paus de arara'. Os relatos foram obtidos não só com depoimentos de torturados, mas também com relatos de informantes militares — que tiveram seus nomes rasurados. 

"Esse é um dos relatórios mais detalhados sobre técnicas de tortura já desclassificados pelo governo dos Estados Unidos", disse Peter Kornbluh, diretor do Projeto de Documentação Brasileiro do Arquivo de Segurança Nacional Americano, em Washington D.C, à BBC Brasil. 

Documento do consulado americano do Rio que relata técnicas de tortura/ Crédito: Comissão Nacional da Verdade

 

"Os documentos americanos ajudam a lançar luz sobre várias atrocidades e técnicas (de tortura do regime). Eles são evidências contemporâneas dos abusos dos direitos humanos cometidos pelos militares brasileiros. Quase todo o mundo acredita neles. As pessoas que preferem não reconhecer a verdade sobre o que foi feito são os Bolsonaros e aqueles que realmente cometeram esses crimes", completa Peter.

A máquina brasileira

Na época, os documentos trazidos por Biden mostraram que os militares não só torturavam as pessoas, como também as matavam aos montes. Em um dos arquivos, por exemplo, como aponta a BBC, o cônsul-geral americano em São Paulo, Frederic Chapin, relata que havia "um informante e interrogador profissional trabalhando para o Centro de Inteligência Militar de Osasco". 

"Ele [o informante] explicou como havia quebrado uma célula 'comunista' envolvendo um agente da polícia civil. O policial foi forçado a falar depois de ter tomado choques elétricos nos ouvidos e mencionou sua conexão com uma amiga, que foi imediatamente detida. Ela não foi cooperativa, no entanto, então foi deixada no pau-de-arara por 43 horas, sem alimentos ou água”, completa trecho de um telegrama escrito por Chapin em 1973. 

Telegrama que relata casos de tortura/ Crédito: Department of State/Comissão da Verdade

 

"Isso a quebrou, nossa fonte contou. Tortura, de uma forma ou de outra, é prática comum em interrogatórios em Osasco. Ele também nos deu um relato em primeira mão do assassinato de um subversivo suspeito, o que chamou de 'costurar' o suspeito, ou seja, dar tiros nele da cabeça aos pés com uma arma automática”.


+Saiba mais sobre a ditadura militar por meio das obras disponíveis na Amazon:

A Ditadura Envergonhada, de Elio Gaspari (2015) - https://amzn.to/3b1gql8

Liberdade vigiada: As relações entre a ditadura militar brasileira e o governo francês, de Paulo César Gomes (2019) - https://amzn.to/2Rta71U

Cativeiro sem fim: as Histórias dos Bebês, Crianças e Adolescentes Sequestrados Pela Ditadura Militar no Brasil, de Eduardo Reina (2019) - https://amzn.to/2JUI6vZ

1964: O Elo Perdido. O Brasil nos Arquivos do Serviço Secreto Comunista, de Mauro Kraenski e Vladimir Petrilak (2017) - https://amzn.to/2V0wCh2

Ditadura à brasileira: 1964-1985 a democracia golpeada à esquerda e à direita, de Marco Antonio Villa (2014) - https://amzn.to/2V0Apuy

Vale lembrar que os preços e a quantidade disponível dos produtos condizem com os da data da publicação deste post. Além disso, a Aventuras na História pode ganhar uma parcela das vendas ou outro tipo de compensação pelos links nesta página.

Aproveite Frete GRÁTIS, rápido e ilimitado com Amazon Prime: https://amzn.to/2w5nJJp 

Amazon Music Unlimited – Experimente 30 dias grátis: https://amzn.to/2yiDA7W