Busca
Facebook Aventuras na HistóriaTwitter Aventuras na HistóriaInstagram Aventuras na HistóriaYoutube Aventuras na HistóriaTiktok Aventuras na HistóriaSpotify Aventuras na História
Matérias / Holocausto

O sobrevivente do Holocausto que se apaixonou pela filha de carrasco nazista

Gabriel Waldman sobreviveu ao Holocausto quando criança, se mudou para o Brasil e se apaixonou por possível algoz de sua família: "O destino quase que nos jogou um no braço do outro"

Fabio Previdelli

por Fabio Previdelli

fprevidelli_colab@caras.com.br

Publicado em 13/05/2024, às 13h00

WhatsAppFacebookTwitterFlipboardGmail
Gabriel Waldman em visita à Hungria há alguns anos - Gabriel Waldman
Gabriel Waldman em visita à Hungria há alguns anos - Gabriel Waldman

"O meu nascimento foi a maior porcaria que você pode imaginar. Ninguém merece nascer no lugar, no tempo e na família que nasci. Ninguém merece!". A frase dita por Gabriel Waldman em entrevista à equipe do Aventuras pode parecer dura, mas é apenas um reflexo de quem veio ao mundo cercado pela insegurança e os horrores da Segunda Guerra Mundial.

Criado no seio de uma família judaica, Waldman nasceu na Hungria em maio de 1938, apenas algumas semanas depois da anexação da Áustria pela Alemanha nazista, o famoso Anschluss; e poucos meses antes da Noite dos Cristais (Kristallnacht) — o pontapé inicial do Holocausto

+ Thomas Geve: O menino que desenhou os horrores de Auschwitz

Embora fosse apenas um bebê, seus olhos ingênuos tiveram que enxergar toda a barbaridade cometida pelas tropas de Adolf Hitler. "Pela primeira vez os nazistas mostraram as suas garras e assassinaram os judeus em plena luz do dia, nas ruas, praças e nas sinagogas da Alemanha", contextualiza sobre o Kristallnacht. "Então, pior do que isso é impossível". 

Gabriel Waldman quando criança - Arquivo Pessoal

Gabriel também teve que se acostumar desde cedo a viver sem o zelo e conforto de seu pai; que fora 'convocado' para trabalhos forçados na guerra, como a construção de trincheiras, fortificações e outros trabalhos braçais exaustivos. "Eu acho que a última vez que vi meu pai foi por volta de 1942 ou 1943". 

Depois disso, os alemães invadiram a Hungria e tornou se impossível qualquer visita. Então, eu praticamente nunca tive pai… Minha família praticamente toda foi exterminada nos campos da Polônia. Do lado do meu pai, ninguém sobreviveu. De minha mãe, apenas algumas pessoas", recorda.

Do nazismo ao comunismo 

Nascido em Budapeste, Gabriel Waldman recorda que vida era "suportável" até o início de 1944 — conforme a derrocada alemã se tornava cada vez mais próxima devido aos desdobramentos da Batalha de Stalingrado; considerado o ponto de virada da Segunda Guerra

"Os fascistas que governavam a Hungria, que eram a versão light do nazismo, eles também eram profundamente antissemitas, porém eles nunca nem imaginavam exterminar uma raça. Isso era inconcebível para eles também", aponta. "Lá por janeiro/fevereiro de 1944 já era mais do que óbvio que a Alemanha iria perder a guerra. Eles mesmos já sabiam isso".

Gabriel Waldman quando criança - Arquivo Pessoal

Com a dertota adiante, o regime fascista húngaro (que até então apoiava a Alemanha nazista) tentou fazer as pazes com os russos e os outros aliados "para conseguir cair fora da guerra e salvar o que era salvável". 

Os alemães descobriram isso e invadiram a Hungria, em fevereiro ou março de 1944, e impuseram o governo nazista na Hungria…. Daí para frente o inferno desabou sobre nós e começaram as perseguições pesadas", recorda Gabriel.

Em meados de abril, os primeiros trens partiram da Hungria com destino a Auschwitz, mas Waldman e sua mãe resistiram. Enfrentado a fome, sede e as perseguições, eles sobreviveram para ver Hitler ruir. 

"A guerra terminou em 1945. Obviamente, as perseguições terminaram e o perigo de morte também, digamos, foi diminuído. Porém, o exército soviético que entrou no país impôs o comunismo na Hungria. O comunismo em sua pior vertente, que foi o stalinismo", aponta. 

Com esperanças que o fim da guerra pudesse trazer uma melhora econômica e social, mãe e filho permaneceram em seu país natal. "Quatro anos depois do fim da guerra, já era evidente que os soviéticos iam impor um regime similar (àquilo que existia na União Soviética) na Hungria também. E era insuportável, era muito ruim. Era realmente um desastre". 

A única alternativa foi fugir: primeiro para Áustria, um país neutro na Guerra Fria. Os Waldman foram para lá com a esperança de deixar a Europa, que já "não era mais um continente confiável", conforme descreve Gabriel. "Nossa preferência era ir para um país anglo-saxônico: Estados Unidos, Nova Zelândia, Austrália, Canadá…". 

Mas foi o Brasil que os acolheu. "Nenhum país nos aceitou porque nós não tínhamos aquilo que se chama 'arrimo de família' — a pessoa que respondesse por nós economicamente. Meu pai tinha morrido na guerra e, portanto, minha mãe era viúva. Mulher não podia ser arrimo de família. Mulher não era confiável. Eram os tempos". 

Em terras tupiniquins, Gabriel, então um pré-adolescente, e sua mãe tiveram que superar a barreira da língua, da cultura e, principalmente, da solidão. "Eu tinha naquele tempo uns 12 a 13 anos, sem poder ir para a escola. Então foi muito difícil, foi tremendamente difícil. Mas com o tempo eu aprendi português. Minha mãe também se casou de novo com um húngaro já radicado no Brasil há muitos anos. Então a vida entrou numa espécie de normalidade".

Idas e vindas do amor

Ao mesmo tempo em que redescobria a vida, quis o destino que Gabriel Waldman também encontrasse o amor; em uma história cheia de encontros e desencontros, agora narrada por ele em 'Ingrid, a filha do comandante' (lançamento da Buzz Editora). 

"O livro, diferente da realidade, é um romance biográfico. Tem a parte de biografia e outra mais romanceada", explica. "Lá eu coloquei o romance todo de uma vez só, porque não tinha necessidade de dividir a história em duas partes: adolescência e maturidade. Então aí há uma divergência entre o livro e a realidade".

Gabriel Waldman - Arquivo Pessoal

O fato é que o caminho dos dois jovens se cruzaram quando eles ainda tinham a mesma idade: 15 anos. Mas essa não era a única semelhança entre Gabriel e Ingrid, os dois ainda compartilhavam sonhos, desejos e o alemão. Ainda com dificuldades para falar português, Waldman era fluente na língua materna da companheira austríaca. "Portanto, o destino quase que nos jogou um no braço do outro". 

A amizade logo deu espaço à paixão, àquele intenso amor de dois jovens que estavam descobrindo o mundo. "Depois que terminamos o curso, ela foi para um lado, eu fui para outro. Ainda conversamos um pouquinho, por telefone e tudo mais. Mas ela morava em São Bernardo e eu em São Paulo, mas, naquele tempo, essa diferença, que hoje não existe, naquele tempo existia e grandemente".

O reencontro aconteceu após mais de uma década. Gabriel viajou para a Austrália, havia se formado em Administração de Empresas na Fundação Getúlio Vargas — naquele tempo, a única em todo Brasil. "Além disso, falava bem alemão. Então, quem me contratou, obviamente, tinha que ser uma empresa alemã, porque eles procuravam à lupa uma pessoa desse tipo". 

Empregado pela Volkswagen, Waldman descobriu que a secretária do local era a mesma pessoa que fez seus olhos brilharem pela primeira vez. "Lá a reencontrei. Já era uma mulher separada, sem filhos… Eu era solteiro. A gente se encontrou, tivemos alguns papos, conversas, e a coisa desandou. Voltamos a namorar. Mas dessa vez foi diferente, porque éramos adultos — eu já tinha 26, 27 anos e ela também".

Gabriel Waldman passou a ficar mais íntimo não só de Ingrid, de quem frequentava toda a semana a casa, mas também de seu sogro, que também trabalhava na montadora alemã em São Bernardo. "Fui muito bem recebido. Os pais me receberam muito, carinhosamente, muito bem. Tivemos conversas civilizadas muitas vezes; fizemos refeições juntos. Foi uma coisa legal".

Mas, meses após o começo do namoro, Ingrid colocou um ponto final na relação: "Ela me chamou e disse assim: 'Gabriel, não vai dar. Nós não podemos mais continuar. Adeus e tenha uma boa vida'...".

Ele me dispensou. Mas acontece que ela me dispensou, chorando, me acariciando, me beijando… Agora, veja bem, não se dispensa um namorado, 'inconveniente', chorando. Eu ainda tentei insistir, mas não adiantou. Como diz o Vinícius de Moraes: 'O amor é eterno enquanto dura'".

A filha do inimigo

Gabriel Waldman, mesmo sem entender os motivos para o fim, aceitou o fim da relação. "Comecei a namorar outras meninas e encerrei ela num canto muito carinhoso, porém, escondido da minha alma. Terminou, terminou".

Mas tudo passou a mudar em 28 de fevereiro de 1967. "Neste dia, me levanto, abro o Estadão, eu leio e lá está a fotografia do pai dela [Franz Stangl]. E identificando quem ele era. Então você pode imaginar o que eu senti. Foi uma coisa absurda. Foi uma coisa absolutamente acachapante”.

Franz Stangl sendo preso - Holocaust Research Project

Graças ao caçador de nazista Simon Wiesenthal, Franz Stangl foi identificado e preso por todas as barbaridades que cometeu durante a Segunda Guerra. O pai de Ingrid era o ex-comandante dos campos de extermínio de Treblinka e Sobibór na Polônia; ou seja, possível executor de sua família.

Eu ainda pensei em telefonar para ela só para dizer: 'sinto muito por você' e desligar o telefone. Mas eu não tinha condições psicológicas… toda a minha família foi exterminada lá na Polônia. Não sei que campo foi. Os nazistas não emitiam certidão de óbito", recorda. 

Nos tempos em que se relacionou com a filha do algoz de sua família, Waldman aponta que Franz Stangl jamais demonstrou qualquer contrariedade pelo fato de Ingrid estar namorando um judeu. "Ela sabia que eu sou judeu. E mesmo se não soubesse, por algum milagre, o meu nome já escancara o fato que nasci na Hungria com o sobrenome Waldman — com um 'N' só no final. Isso já depõe contra mim, digamos assim". 

"Então, eles sabiam. Por outro lado, eu não sabia nada da origem dos pais, porque não me interessava. Quando você namora uma menina, você não vai procurar a genealogia. Especialmente numa idade em que os hormônios estão a toda… Então, não, eles, em nenhuma vez, demonstraram qualquer contrariedade, qualquer tipo de viés contra qualquer coisa vindo de mim", pontua.

No Brasil, Franz Stangl trabalhou por oito anos na Volkswagen, entre 1959 e 1967; onde ficou responsável por montar um setor de monitoramento e vigilância na unidade de São Bernardo do Campo. Apenas uma fachada para espionar funcionários da montadora durante a Ditadura Militar, segundo revelou a Comissão Nacional da Verdade (CNV), em 2014, recorda o DW. 

O comandante Franz Stangl - The Jacob Rader Marcus Center of the American Jewish Archives

Além do mais, um fato que chama ainda mais a atenção é que, apesar de ser procurado internacionalmente, Franz Stangl não mudou seu nome ao chegar ao Brasil em 1951; usando o mesmo que era comum ser chamado como comandante do campo. "Para mim, eu acho que ele pensava que não era culpado de nada. Ele apenas 'administrava' o campo", sugere Waldman

Quando ele foi extraditado para a Alemanha, os testemunhos contra ele eram poucos, porque o campo de Treblinka, que ele comandava, não era um campo de concentração, era um campo de extermínio. Isso quer dizer o seguinte: que a média de vida das pessoas que passam por lá era de três horas — o tempo necessário para limpar as câmaras de gás para a próxima fornada", contextualiza Waldman

Gabriel ainda aponta que, na Alemanha, poucas testemunhas surgiram contra Franz. "Ninguém jamais acusou ele de qualquer crueldade pessoal", diz. Algo completamente do que aconteceu com Rudolf Höss, o comandante de Auschwitz sentenciado à morte por enforcamento. 

Reencontro com o passado

Hoje, aos 86 anos, após todo o que viveu, Gabriel Waldman já está há 20 e poucos anos casado com a mesma mulher, como diz em tom descontraído, e atualmente tem dois filhos e três netos. Mas apesar da vida estabelecida, o húngaro cada vez mais brasileiro ainda tem questões com o passado que não foram totalmente esclarecidas: por que ela terminou? Um reencontro ainda é possível? 

Waldman conta que, na época, pensou durante anos que a forma estranha do término foi porque Ingrid, talvez, tivesse se apaixonado por outra pessoa. "Mas depois eu pensando no assunto e depois que descobri a identidade do pai dela, eu vejo o seguinte: os pais proibiram. Essa é primeira opção. Mas então, por que me receberam em primeiro lugar? Não faz sentido isso". 

Gabriel também relembra que muito se debate sobre a possível existência de grupos formados ex-membros da SS que se organizaram, após o fim da guerra, para proteger antigos companheiros. Um destes principais seria a Odessa — que nunca teve sua existência confirmada. 

"Essa outra opção é que a Odessa protegeu o pai dela. De repente descobriram quem eu era, quem a filha dele namorava. E aí disseram para ela o seguinte: 'Olha, ou você larga esse rapaz... Primeiro, nós deixamos de proteger teu pai. E em segundo, cortamos a garganta dele'", especula. 

Pode até ser, se a segunda opção for real, que ela salvou a minha vida. E eu nem mesmo telefonei para ela, dizendo: 'olha, sinto muito por você'. Isso tudo me perturbava muito", continua. 

Embora nunca tenha ligado para a antiga companheira, Gabriel Waldman jamais deixou de pensar o que diria para ela: "Você não tem nada que ver com aquilo tudo. Você é uma pessoa, um indivíduo próprio. Você não tem nada que ver com aquilo que o teu pai fez ou não fez. Portanto, eu te julgo pelo que você é, não por quem teu pai era".

Em janeiro de 2023, Gabriel Waldman e Marcio Pitliuk participaram do podcast Inteligência Ltda., apresentado por Rogério Vilela. E foi a partir deste bate-papo que um sobrinho de Ingrid conheceu Gabriel. "Ele veio me visitar aqui em casa. Hoje é uma pessoa dos seus 60 anos de idade, um advogado muito simpático e muito gentil". 

Capa do livro 'Ingrid, a filha do comandante' - Buzz Editora

"Nós conversamos e eu falei para ele mesmo que gostaria muito de encontrar com ela. Para falar tudo isso para ela e para alguns esclarecimentos. Ele respondeu que a família ficou tão profundamente traumatizada que não quer nem saber de nada daquela época. Ele confirmou que falou com ela e ela não quer nem saber de nada", diz. 

No meu livro, o nome dela é Ingrid, mas o nome dela, na verdade, é outro. Eu não quis invadir a privacidade dela. É um gesto que eu faço para ela", finaliza.