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O sonho não morreu: O casal na icônica fotografia de Woodstock

Bobbi e Nick eram namorados em agosto de 1969. Estavam se abraçando no meio do público quando um flagrante fotográfico os transformou em um dos símbolos mais poderosos do movimento hippie

M.R. Terci Publicado em 12/08/2019, às 07h00

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- Crédito: Reprodução

Uma imagem vale mais que mil palavras e é incrível como um único momento capturado pode representar muito na vida das pessoas, mesmo quando elas não percebem que estão sendo fotografadas. Certamente você já deve ter visto que uma das capas de disco mais icônicas de todos os tempos, do Festival de Woodstock, traz uma foto de um casal hippie se abraçando no meio do público.

Venham comigo, tem uma história por trás disso.

Em uma noite de sexta-feira, em agosto de 1969, Nick Ercoline cuidava de um bar em Middletown, Nova York, enquanto Bobbi Kelly, sua namorada, bebia cerveja junto ao balcão. No rádio, o casal ouviu notícias sobre um festival de três dias, chamado Woodstock Music and Art Fair na Fazenda de Max Yasgur, a 160 km dali, em Bethel.

Rumores alardeavam que o número de pessoas que se dirigiam para o local era tão grande que o tráfego na New York State Thruway estava fechado. Naquela hora, o casal e mais três amigos ouviram o locutor falar: “É apenas um hospício! Se você estiver planejando vir, não venha!”.

Bobbi e Nick / Crédito: Reprodução

 

Longe de dissuadir, isso os empolgou ainda mais.

“Nós não havíamos planejado ir”, disse Bobbi, décadas depois, ao The Vintage News. “Então nós tivemos que ir. Algo estava acontecendo lá em cima”.

Estima-se que meio milhão de pessoas, jovens como Bobbi e Nick, foram para o local testemunhar o festival mais famoso de todos os tempos. Passaram pelo palco, The Who, Joe Cocker, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Creedence Clearwater, entre outros. A duração do evento estava prevista para três dias, terminando à meia-noite de domingo, mas, acabou mergulhando ao longo da semana. Na manhã do dia seguinte, Hendrix ainda começava sua apresentação no palco central.

Tanto o documentário, como a trilha sonora se tornaram lendários na história da música e Woodstock se consagrou, não apenas como um festival de rock, mas como um evento que disseminou amor, liberdade, paz, igualdade, respeito, tolerância e espiritualidade entre várias gerações e, sem dúvida, o casal que estampa a capa do álbum duplo, lançado pela Atlantic Records e sua subsidiária Cotillion, em 1969, sintetiza todos esses sentimentos.

“Foi fenomenal. Todas as pessoas estavam juntas sem nenhuma violência, apenas paz, amor e partilha”, disse Bobbi, que já foi bancária em Nova York e hoje é enfermeira numa escola. “Woodstock foi sinal dos tempos. Tantas coisas estavam acontecendo no mundo: os direitos civis, a Guerra do Vietnã, os direitos das mulheres. Foi nossa geração”.

Nick, que inspeciona e reforma casas de pessoas pobres para o governo norte-americano, declara sempre: “Não mudou nada. Ainda somos aquelas pessoas”. Cinquenta anos se passaram e eles ainda estão juntos. Casaram-se dois anos depois do festival, vivem no subúrbio de Nova York e tiveram dois filhos.

A foto na capa do álbum Woodstock e que também estampa o pôster oficial do documentário é de autoria de Burk Uzzle, ex-fotógrafo da revista Life e que naquela semana havia recusado um trabalho rentável na Newsweek para assistir o festival.

Na manhã do domingo, assim que o sol nasceu, Jefferson Airplane estava tocando no palco e Uzzle, câmera pendurada no pescoço, estava caminhando por uma colina nas imediações quando avistou o casal abraçado, protegido por um cobertor manchado de lama, ao lado de uma borboleta de plástico. “Foi um momento mágico”, gosta de relembrar Uzzle, hoje com 81 anos de idade.

“Nosso amigo Jim Corcoran, o fuzileiro naval deitado no chão ao nosso lado na foto, comprou o álbum. Estávamos sentados em casa ouvindo, quando olhei para a capa, notamos a borboleta que Herbie tinha levado, e então percebemos que éramos nós”, conta Bobbi.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.