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Assassinato público: A brutal e ignorada morte de Kitty Genovese

A americana de 28 anos foi esfaqueada e estuprada no meio da rua. Seus vizinhos ouviram os gritos, mas pouco fizeram para ajudá-la

Pamela Malva Publicado em 04/09/2020, às 13h30

Kitty Genovese posando
Kitty Genovese posando - Domínio Público

A família de Catherine Susan Genovese estava acostumada com o dia-a-dia no Brooklyn, mesmo com suas ondas de violência. A gota d’água veio quando a mãe, Rachel, viu um assassinato acontecer na cidade, em 1954.

A partir daquele dia, a família decidiu se mudar para Connecticut. Catherine, também conhecida como Kitty, no entanto, não gostou da ideia e escolheu ficar em Nova York. Ela já tinha 19 anos e conseguiria viver sozinha.

Assim, ela continuou morando no bairro onde nasceu, até o fatídico dia 13 de março de 1964. Naquela tarde, já com 28 anos, Kitty estacionou seu carro a pouco menos de 30 metros da entrada de seu apartamento e caminhou pela calçada.

Poucos segundos mais tarde, foi esfaqueada duas vezes nas costas. Com o impacto, ela gritou pedindo socorro. Janelas dos prédios vizinhos se abriram e um homem gritou para que o agressor deixasse Kitty em paz. Winston Moseley, com a faca em mãos, saiu correndo.

Winston Moseley, o assassino de Kitty / Crédito: Wikimedia Commons

 

O criminoso entrou em seu carro e ficou rodeando o apartamento de Kitty, esperando que as coisas ficassem mais tranquilas. A mulher, por sua vez, se arrastou pela calçada até chegar à esquina do prédio.

Quando percebeu que Catherine estava fora da vista dos vizinhos, escondida entre dois prédios, Winston resolveu atacar novamente. Ele vestiu um chapéu e encontrou Kitty na porta dos fundos do edifício onde ela morava.

Longe de tudo e de todos, com seus gritos abafados pelas paredes de concreto, Catherine foi esfaqueada, estuprada e roubada. Quase dez minutos mais tarde, um homem que morava no mesmo bairro, chamado Karl Ross, ligou para a polícia.

Graças ao sistema confuso da época, não se sabe exatamente quantas pessoas ligaram para os oficiais, nem quantas ligações foram atendidas. No entanto, sabe-se que a grande maioria delas foi ignorada pelos policiais.

Kitty Genovese posando em jardim / Crédito: Wikimedia Commons

 

Após a ligação de Karl, no entanto, os investigadores foram até a cena do crime, junto da ambulância, para encontrar Kitty no chão. Ela foi levada para o hospital às pressas, mas morreu no caminho.

Nas investigações seguintes aos crimes, os oficiais descobriram que 38 pessoas, pelo menos, viram ou escutaram alguma coisa durante o ataque, sejam as facadas, ou os gritos de Kitty pedindo ajuda. No entanto, poucos se mexeram para ajudar a vítima.

Durante os interrogatórios dessas supostas testemunhas, muitas demonstraram não ter visto o crime por completo — assistindo apenas a algumas poucas cenas — e outras alegaram imaginar que tudo não passava de uma briga de bar. Poucos disseram ter chamado a polícia.

Mais tarde, os policiais determinaram que, devido às plantas dos prédios da rua, nenhuma das testemunhas poderia ter visto o ataque por completo. Muitas delas, inclusive, nem sabiam que o crime havia terminado em estupro e morte.

Winston Moseley sendo levado por investigadores / Crédito: Domínio Público

 

Winston Moseley foi preso em flagrante pouco tempo depois, durante outro crime. Em seu julgamento, ele não apenas confessou o assassinato de Kitty, como também disse ser culpado de mais dois assassinatos. Em ambos, ele cometeu agressões sexuais, como fez com Catherine.

Ele foi submetido a exames psiquiátricos e, em seguida, diagnosticado como necrófilo. Em 1964, Winston foi condenado à pena de morte pelo assassinato, mas a sentença logo foi convertida em prisão perpétua. O criminoso, ainda preso, morreu em 2016, aos 81 anos.

Duas semanas depois da morte de Catherine, o New York Times publicou um longo e dramático artigo sobre a indiferença dos vizinhos da mulher. Com o título de 38 viram o assassinato e não chamaram a polícia, a reportagem exagerou um pouco nos fatos.

Ainda assim, o texto gerou uma forte reação do público e iniciou discussões sobre o efeito espectador — que depois ficou conhecido como síndrome de Genovese. Diversos psicólogos e estudiosos, inclusive, produziram artigos sobre e extensos estudos sobre a condição.


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