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O triste fim do primeiro homem abertamente gay a ser eleito a um cargo público na Califórnia

Harvey Milk foi capaz de exercer sua profissão por onze meses antes de sofrer um terrível atentado

Ingredi Brunato Publicado em 31/01/2021, às 09h00

Fotografia de Harvey Milk
Fotografia de Harvey Milk - Wikimedia Commons

Harvey Milk entrou na vida política de forma tardia. Antes disso, ele teve outras ocupações, por exemplo, atuando em uma empresa de seguros, em uma corretora imobiliária e também na Marinha estadunidense - onde foi oficial de mergulho em um navio de resgate de submarinos. 

O ativista teve apenas onze meses no cargo público Conselho de Supervisores de São Francisco, todavia, deixou sua marca nos projetos em que trabalhou e no título de primeira pessoa abertamente homossexual a ser eleita no sistema político do estado norte-americano da Califórnia

Infelizmente, sua vida foi interrompida em um atentado trágico envolvendo outra figura política, Dan White, ex-supervisor do Conselho Público de São Francisco. 

Destaques de Milk 

“O que diferenciava Harvey de você ou de mim era que ele era um visionário. Ele imaginou um mundo justo dentro de sua cabeça e então começou a criá-lo de verdade, para todos nós”, disse Anne Kronenberg, gerente de campanha do político homossexual, em seu texto para o site Layland Publications, que é dedicado ao público LGBT e compila os livros da “Gay Sunshine Press”. 

Uma das contribuições mais importantes do político foi que ele patrocinou um projeto de lei que proibiu atitudes discriminatórias realizadas com base na orientação sexual ocorressem em empresas, condomínios e locais públicos. 

Fotografia de Harvey Milk sentado na mesa do prefeito de São Francisco / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Além de promover leis relacionadas aos direitos da população LGBT da Califórnia, Harvey também elaborou uma medida que buscava reduzir a quantidade de excrementos de cachorro deixados nas ruas do município de São Francisco, exigindo, em vez disso, que seus donos recolhessem as fezes deixadas pelos animais em meio aos passeios. 

O ativista decidiu falar a respeito do caso em um parque local, chamando a imprensa para ouvi-lo. Então, quando as câmeras ligaram, Milk teria dado um passo para frente e, pisado justamente na substância desagradável que estava tentando eliminar. O momento foi pensado para se parecer com um acidente. 

É assim que percebemos a genialidade do político. Ele já estava rondando o parque muito antes da chegada da equipe jornalística, e escolhera cuidadosamente o local de gravação, de forma a dar o maior impacto possível para suas palavras.

“Ele era um mestre em descobrir o que o faria capa do jornal”, comentou ainda Anne, segundo divulgado no livro “The Times of Harvey Milk” (Ou, “Os tempos de Harvey Milk”, em tradução livre), de 1984. 

Uma curiosidade é que, quando o ativista começou a se tornar uma figura conhecida, temeu que poderia ser assassinado - um palpite que, sombriamente, se revelaria correto. 

Por isso, fez uma gravação de si mesmo para quem quisesse sucedê-lo em suas lutas pelos direitos LGBT. Segundo divulgado pelo The San Francisco Examiner, nesse vídeo Milk disse a icônica frase: “Se uma bala entrar em meu cérebro, faça com que essa bala destrua todas as portas de armários". 

O atentado 

Dan White saiu por conta própria do Conselho de Supervisores de São Francisco. Ele abdicou de seu cargo público dizendo que o salário era insuficiente para ele e sua família.  Alguns dias depois, todavia, o norte-americano mudou de ideia. 

Fotografia de Dan White / Crédito: Wikimedia Commons

 

O prefeito George Moscone, com o restante do Conselho, decidiu que seria uma boa ideia aproveitar aquela oportunidade para colocar alguém que não fosse branco no cargo, para trazer mais diversidade ao órgão público. 

White, entretanto, não aceitou bem a ideia. Sua resposta foi entrar no escritório da prefeitura no dia 27 de novembro de 1978, evitar o detector de metais para que seu revólver não fosse barrado, e então atirar quatro vezes em Moscone e cinco vezes em Milk

Os assassinatos à queima roupa, assim como seu autor, foram anunciados para a imprensa quase que imediatamente, uma vez que havia uma coletiva marcada para aquele mesmo dia, minutos após o atentado ocorrer.