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O último julgamento de Salém: Há 145 anos, Daniel Spofford era acusado de bruxaria

O autoproclamado médico realizava sessões de hipnose para curar doenças de seus pacientes, mas uma delas não ficou contente com o resultado de seus métodos

Caio Tortamano Publicado em 14/05/2020, às 07h00

O veterano de guerra e médico Daniel Spofford
O veterano de guerra e médico Daniel Spofford - Wikimedia Commons

Daniel Spofford, um veterano da guerra civil americana, aderiu à Ciência Cristã em 1875, e passou a estudar formas de cura metafísica. Logo, ele se tornou um membro importante da comunidade em Massachusetts — praticava seus aprendizados em pessoas doentes e se referia a si mesmo como doutor Daniel Spofford.

A Ciência Cristã (ou Christian Science) foi um movimento religioso instalado na cidade de Salem, nos Estados Unidos, que deu margem para que uma caça às bruxas fosse iniciada na cidade. Os adeptos dessa crença não acreditavam que as doenças eram verdadeiras por serem inerentes ao mundo material.

Então, a cura para essas doenças seria feita não por meio de remédios ou receitas, mas sim por intervenções divinas, com orações e sessões sérias de hipnose. Era exatamente isso que o — autoproclamado — doutor Daniel Spofford fazia, e tentava corrigir os tais erros mentais (como ele definia as patologias).

Envolvimento religioso

A história de Spofford com a Ciência Cristã começou depois que ele foi a um curso de Mary Baker Glover, uma das primeiras adeptas da religião, no qual ela ensinava sobre cura metafísica. Logo após se formar na área, Spofford reuniu um grupo cristão científico para angariar dinheiro para Glover, além de pagar o aluguel para um local de encontro.

Daniel e Mary

A admiração que Daniel tinha por Mary era evidente, ele investiu dinheiro próprio para publicar o livro de Glover e distribuía panfletos na rua com ao lado da mulher. Além disso, o veterano da guerra civil americana e, doutor, apresentou a líder religiosa ao futuro marido dela, Asa Gilbert Eddy.

Daniel não sabia, mas o casamento seria determinante para a não continuação dele na Ciência Cristã. Certa vez, Spofford e Glover não entraram em um acordo a respeito dos termos de publicação da segunda edição do livro de Mary, e ela o expulsou da Associação dos Cientistas Cristãos.

Rompimento e acusação

Com isso, apesar de não fazer mais parte oficialmente do círculo social da religião, Daniel permaneceu aplicando suas sessões terapêuticas em clientes que não enxergavam mais solução ou possibilidade de melhora na medicina tradicional.

Entretanto, uma de suas clientes não ficou nada satisfeita com os métodos de Spofford. Lucretia Brown tinha 50 anos quando se consultou com o doutor. Inválida desde a infância, a mulher dizia que conseguiu andar novamente graças a Ciência Cristã, curando-se de uma fratura em sua espinha.

Lucretia Brown se sentiu lesada pelo tratamento do médico / Crédito: Divulgação

 

Porém, ela acabou sofrendo duas recaídas em seu tratamento, uma em 1877 e outra em 1878. A acusação dela foi a de que Spofford teria interferido no seu tratamento e saúde por meio de mesmerismo — magnetismo animal ou simplesmente uso de hipnose para cura de doenças. 

Lucretia entrou com uma ação legal contra o médico, o que foi considerado como o último julgamento por bruxaria em território americano da história. O caso chamou muita atenção da comunidade, ganhando espaço em diversos jornais. O processo se deu no mesmo local onde ocorreu os notórios julgamentos de bruxaria em Salem.

Julgamento

O julgamento começou em 14 de maio de 1878, e 21 membros da Ciência Cristã testemunharam contra Spofford, incluindo Mary Baker Glover. O advogado de Lucretia afirmou que Daniel “usa seus ditos poderes e artes com o propósito de machucar pessoas, propriedades e relações sociais e, por tais meios, os prejudica”.

O receio de alguns aliados de Spofford era de que Glover estivesse por trás disso, e que o advogado de Brown teria sido orientado por pessoas relacionadas a líder espiritual, o que nunca chegou a ser confirmado, nem desmentido.

Três dias depois, o advogado de Spofford, Amos Noyes, contestou o tribunal, argumentando que a corte não tinha jurisdição no caso, uma vez que eles pouco tinham conhecimentos acerca dos métodos e procedimentos necessários para a realização das curas por hipnose.

O juiz Horace Gray afirmou que a acusação era vaga e arquivou o caso. A corte decidiu ainda que não estava claro como poderia impedir que Spofford usasse seus poderes, mesmo que ele fosse preso.

Brown ainda tentou apelar para a corte rever a acusação, mas já era tarde, em novembro de 1878 o caso foi oficialmente encerrado, e a mídia considerou o julgamento como um dos mais bizarros da história dos Estados Unidos, manchando para sempre a imagem de Lucretia.


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