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O Velho e o Mar: Há 58 anos, morria o autor Ernest Hemingway

O consagrado escritor, famoso por seu estilo breve, cometeu suicídio em 1961. Seus romances e contos introduziram um novo e poderoso estilo de escrita

Simon Sebag Publicado em 02/07/2019, às 08h00

Ernest Hemingway
Ernest Hemingway - Referência

Ernest Hemingway foi provavelmente o mais importante escritor norte-americano do século XX. Seus romances e contos, rejeitando os enfadonhos e sufocantes valores do século XIX que ele via em sua própria família e no mundo ao seu redor, introduziram um novo e poderoso estilo de escrita: prosa esparsa, econômica, dura e masculina, que capta os horrores da guerra e as provações do amor e defende um potente código moral para conduzir a vida em meio a um complexo mundo de dor e traição.

Hemingway podia ser imprevisível, violento, mal-humorado, vaidoso, ridículo e bêbado, mas esses eram aspectos de uma mente conturbada, ainda que brilhante. Foi agraciado com o Prêmio Nobel em reconhecimento a sua obra e à contribuição marcante, inconfundível e singular que fez para a literatura.

Hemingway cresceu em um subúrbio de Chicago. Seu pai, o médico Clarence Hemingway, insistia que ele praticasse viris atividades ao ar livre como caça, tiro e pesca. Sua mãe, Grace, incutiu nele a familiaridade com a literatura. Hemingway costumava afirmar que as primeiras palavras que ele disse quando bebê foram: “Medo de nada! Medo de nada!”.

É bem provável que isso seja mentira, mas típico de seu famoso machismo. Quando jovem, Hemingway rumou para a Itália a fim de servir na Primeira Guerra Mundial. Em 1918, foi atingido por um morteiro e, embora ferido pelos estilhaços e sob disparos de metralhadora, conseguiu salvar dois companheiros do fogo inimigo.

Embora mais tarde Hemingway tenha adornado e exagerado essa façanha, foi um notável ato de bravura, pelo qual o governo italiano lhe concedeu a medalha de honra. Enquanto se recuperava, Hemingway apaixonou-se por uma enfermeira da Cruz Vermelha, Agnes von Kurowsky, que se recusou a casar com ele. Hemingway nunca esqueceu a experiência.

Quando voltou para os Estados Unidos, a mãe de Hemingway repreendeu-o por sua “preguiçosa vadiagem e busca de prazer”, acusando-o de “tirar vantagem de seu belo rosto” e “negligenciando seus deveres para com Deus”. Hemingway sempre desprezara o estilo de escrita de sua mãe, seu discurso moralizador em tom de sermões e sua religião, que ele considerava ser o avesso da felicidade humana.

Mas então, Hemingway começou a desprezá-la por completo. A ruptura com sua família jamais foi apaziguada e, quando, em 1921, aceitou um emprego como correspondente estrangeiro no jornal Toronto Star, baseado em Paris, ele libertou-se definitivamente tornando-se senhor de si.

Em Paris, Hemingway conheceu figuras literárias de relevo como Gertrude Stein, Ezra Pound e seu futuro amigo e outro gênio literário norte-americano da época, F. Scott Fitzgerald, autor de O Grande Gatsby. Em 1924-25, Hemingway publicou seu ciclo de contos No Nosso Tempo, e em 1926 o romance de sucesso O Sol Também Se Levanta, que tratava da vida de expatriados socialites e boêmios da geração perdida dos Estados Unidos pós-guerra, que vagavam, decadentes e sem propósito, pela Europa.

A primeira obra-prima de Hemingway foi Adeus às Armas, publicado em 1929. Era um romance fortemente autobiográfico, contando uma história de amor ambientada na Primeira Guerra Mundial. Um jovem motorista de ambulância, Frederic Henry, se apaixona por Catherine Barkley, enfermeira inglesa que cuida de sua recuperação. Depois que Henry deserta de seu posto, o casal foge para a Suíça, mas Catherine e seu bebê morrem no parto, deixando Henry desolado.

A Espanha desempenhou um papel dominante na vida e na obra de Hemingway. Ele escreveu um sensível estudo acerca das touradas, Morte na Tarde, em 1932, e, quando a Guerra Civil Espanhola eclodiu em 1936, envolveu-se profundamente na causa republicana, arrecadando dinheiro para ajudar na luta contra os nacionalistas, apoiados pelos nazistas, do general Franco.

A experiência foi base de sua segunda obra-prima, Por Quem os Sinos Dobram, publicado em 1940. Ambientado durante a guerra, conta a história de um guerrilheiro voluntário norte-americano, Robert Jordan, que é enviado para explodir uma linha ferroviária em apoio a um ataque republicano. O amor de Jordan por uma garota espanhola, Maria, se desenvolve em uma narrativa que explora habilmente o caráter espanhol e a brutalidade da guerra.

Hemingway cobriu a Segunda Guerra Mundial como jornalista em várias missões a bordo de aeronaves da Real Força Aérea, e chegou a testemunhar a ação no Dia D e a libertação de Paris. Depois da guerra, passou a maior parte do tempo trabalhando em Finca Vigía, sua casa em Cuba.

A joia desse período final foi O Velho e o Mar (1952), a história do velho pescador Santiago, que, após 84 dias sem conseguir uma presa, pesca um descomunal peixe marlim de quase setecentos quilos; depois de horas de uma luta que quase lhe custa a vida, Santiago consegue atracar a pesca em seu barco e parte de volta para a terra. Essa narrativa curta rendeu a Hemingway o Prêmio Pullitzer em 1953 e o Nobel no ano seguinte.

Álcool, a idade e vários acidentes graves, incluindo duas quedas de avião, tiveram um efeito debilitante em Hemingway. Durante a década de 1950, ele entrou em depressão, e os aspectos mais desagradáveis de sua natureza — períodos em que podia ser azedo, briguento, propenso à violência — vieram à tona.

Forçado a ir embora de Cuba em 1960 por causa da revolução de Fidel Castro, Hemingway fixou residência em Ketchum, estado de Idaho. Consciente de que seus poderes criativos estavam em declínio terminal, e percebendo que a terapia de eletrochoque a que estava se submetendo para tratar a depressão era inútil, Hemingway se matou com um tiro de espingarda em 1961, aos 62 anos.

Hemingway pode ter sido um personagem turbulento, problemático, tão perturbado quanto perturbador, mas foi também uma figura de enorme energia e dinamismo, que deixou uma marca indelével não apenas na literatura moderna como, também, na linguagem.


Reportagem retirada do Livro Titãs da História, do autor Simon Sebag Montefiore, Editora Crítica, (p.487, 488).